No atual momento em que os Estados Unidos da América integram Inteligência Artificial (IA) em estruturas militares através de parcerias diretas com empresas tecnológicas, a Europa continua a discutir, a regular e a planear. O contraste é cada vez mais evidente, e, sobretudo, desconfortável.
Do outro lado do Atlântico, a integração de IA em sistemas de defesa já não é hipótese académica, mas sim uma decisão política. Enquanto isso, a Europa debate, desde há anos, como reduzir a dependência transatlântica e criar capacidades próprias. Mas debate parece ser a palavra-chave, e as horas do relógio geopolítico avançam sem piedade.
A União Europeia tem anunciado fundos, planos de reforço industrial e iniciativas para acelerar a base tecnológica de defesa. Fala-se de autonomia estratégica, de soberania digital, de reduzir dependências externas. Tudo certo, no papel. O problema é que, o mundo não está à espera do alinhamento de Bruxelas relativamente às regulamentações em 27 países, e nesse sentido, é urgente criar estruturas que permitam à Europa agir com velocidade e coordenação, sem abrir mão dos valores que a definem.
Além deste problema da velocidade, a Europa depende ainda, em larga medida, da tecnologia e dos ecossistemas dos EUA e aliados para capacidades críticas, desde software a infraestruturas. Isto num mundo em que as políticas externas dos EUA podem mudar a cada instante, deixando a Europa vulnerável a decisões geopolíticas que nada têm a ver com os interesses estratégicos comuns imediatos. Por fim, e para contribuir para a infeliz festa, o contexto da tensão internacional crescente, desde o Médio Oriente à instabilidade permanente na vizinhança Leste, torna a fragilidade da vulnerabilidade europeia, cada vez mais visível.
A verdade incómoda é esta: a Europa ainda não produziu gigantes tecnológicos de defesa comparáveis aos americanos ou chineses. Existem startups promissoras, há capital a circular, há talento. Mas falta escala, coordenação e sobretudo, velocidade.
Enquanto Washington decide rapidamente como integrar IA em sistemas militares, a Europa continua presa a processos lentos, a procurement fragmentado e a debates ideológicos que, embora legítimos, raramente produzem capacidade operacional concreta.
Não se trata de militarizar a inovação nem de abandonar princípios éticos, pelo contrário. Trata-se de perceber que soberania sem capacidade tecnológica própria, é uma ilusão confortável. Se a infraestrutura digital que suporta defesa, comunicações e intelligence depende de terceiros, então, a autonomia é condicional.
Autonomia estratégica não significa apenas produzir tecnologia própria: significa garantir que as empresas europeias têm espinha dorsal suficiente para defender princípios quando a pressão política aumenta. Precisamos de um ecossistema onde empresas consigam negociar com governos, sem submissão automática, mas também, sem ingenuidade, em que as empresas são capazes de dizer “sim” à inovação militar responsável, e “não” quando a linha vermelha é cruzada.
A questão central não é se a Europa deve investir mais em defesa tecnológica. É se consegue fazê-lo com a urgência necessária. Porque a próxima década vai definir quem controla as ferramentas que moldam segurança, poder e influência global.
A Europa pode escolher ser protagonista ou cliente, mas não pode continuar a fingir que as duas realidades são compatíveis.

