Explicar os humanos – na ciência como na vida

Existe um livro para quase tudo, mas não há um que ajude a compreender o ser humano. De uma pergunta de criança, na idade dos porquês, à sensação de ser diferente, deslocada e sentir uma curiosidade constante de perceber como as coisas funcionam, “Explaining Humans” é o livro e o desafio lançado pela investigadora Camilla Pang.

A especialista em bioquímica, e diagnosticada com o transtorno do espectro do autismo, acredita que a cultura científica pode ajudar a melhor compreender a vida como ela realmente é. No âmbito do mês da ciência e da educação, uma iniciativa que hoje termina, no Dia Mundial da Ciência (24 de novembro), a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) partilhou a visão da autora, na conversa “Explicar os humanos”, com a moderação de Pedro Pinto.

“O medo é como a luz”, diz Camilla. Porquê? Na sua experiência como autista “cada pormenor é um pormenor, não há uma narrativa. É tudo muito avassalador (…) quando tudo é muito ofuscante não conseguimos ver. Para mim era um modelo científico quando tinha uns 7 anos.” E por isso precisava de estar num lugar com zero estímulos para poder pensar o que está a sentir e porquê, não querendo passar a vida com medo das pessoas.

Frequentemente presumem que não sente empatia por ser autista, mas na realidade “quando sabemos estabelecer ligações, isso pode dar-nos mais energia, mas é algo muito natural”, revela, para além de que ajudar alguém é uma forma que encontra também de receber energia “porque naturalmente quero comunicar coisas que ajudem as pessoas.”

Compreender a evolução celular ajudou a perceber duas coisas fundamentais para manter boas relações – respeitar as diferenças e paciência “até o sistema mais evolutivo leva o seu tempo”, e que tanto as relações como as pessoas evoluem com o passar do tempo. “No início pode ser muito dinâmico, mas com o tempo pode ficar mais estável. Portanto, isso permite-nos ver as coisas num espectro de interações”, afirma. As redes sociais mudaram estas interações, pela forma como se comunica e o que significam as conexões para esta nova geração de jovens, e como a cultura dos gostos (likes) os induz a procurar por validação. “É algo muito pequeno e insignificante, mas quando essa é a linguagem da nossa amizade, nessa idade pode ser bastante importante.”, realça.

Camilla Pang destaca a importância das emoções nas tomadas de decisão, tanto a nível pessoal como profissional. Confessa que no seu caso não se guia apenas pela lógica, partilhando que “as pessoas pensam que quanto menos emoções melhor, mas não é verdade, porque as emoções são os melhores dados que temos para tomar uma decisão.”

Desarrumação e termodinâmica pode ajudar a explicar o comportamento dos adolescentes? “Todos os adolescentes vão ser desorganizados em alguma altura, seja no quarto, na forma como organizam os TPC, nos seus pensamentos…E isso faz parte da experiência”, a investigadora revela que ainda hoje, quando está a passar por uma fase mais transitória na sua vida encontra o quarto desarrumado, porque tem de se organizar, “e isso reflete o que se passa na minha cabeça”, conclui.

A segunda regra da termodinâmica diz que é difícil criar ordem num universo que está destinado à desordem, e as coisas vão naturalmente ser caóticas, a não ser que sejam espontâneas. Contudo, lidamos com isso todos os dias, com as turbulências da vida. Nas suas palavras, “até a interação com alguém com quem discordamos é uma desordem porque tudo é diferente (…) gastamos muito tempo e energia a meter as coisas em ordem e é aqui que devemos escolher as nossas batalhas”. Aprender a escolher as batalhas é algo que refere como sendo essencial, “porque quando se sofre de hiperatividade, quando se sofre de autismo, temos de fazer isso todos os dias.”

O cérebro, o universo e tudo o resto foi o mote para um ciclo de 6 conferências, que reuniram especialistas nacionais e internacionais. Esta conferência poderá ser vista aqui. A sexta e última conferência irá decorrer hoje, dia em que se assinala o Dia Mundial da Ciência.

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