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Home Notícias Reportagens Fala-se português em Hamburgo, mas o convívio perdeu força. O que mudou em 60 anos?

Reportagens

Fala-se português em Hamburgo, mas o convívio perdeu força. O que mudou em 60 anos?

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5 Agosto, 2026 | 28 minutos de leitura

Durante décadas, a história dos portugueses em Hamburgo foi construída em fábricas, associações, igrejas e restaurantes. Teve até um padre revolucionário que fez da Missão Católica um ponto de encontro para milhares de emigrantes. Hoje prolonga-se em laboratórios, universidades e casas onde o português continua a ser a primeira língua à mesa. Os investigadores Wulf Köpke e Jorge Pinto passaram anos a reconstruir essa memória coletiva. O retrato que dela emerge é o de uma comunidade que perdeu o centro sem perder as raízes. Nesta segunda parte da reportagem, a 'Líder' percorre esse caminho: do verdadeiro Bairro Português de Harburgo às oliveiras do Alentejo e da saudade.

Celso ‘Mané’ Ferreira é o proprietário d’A Varina, mas dificilmente se limita ao papel de patrão. Recebe clientes à entrada do seu restaurante português, no coração de Hamburgo, percorre a sala em maratonas para saber se está tudo do agrado de quem já começou a refeição e desaparece logo de seguida na cozinha. Regressa apressado com travessas nas mãos, pousa-as cuidadosamente sobre a mesa e troca duas palavras com um casal de clientes habituais antes de voltar ao ritmo frenético do serviço. É fácil perceber porque nos pede que regressemos noutro dia, não tem tempo para grandes conversas. Mas ficamos para umas cervejas e continuamos a vê-lo passar. 

O cheiro que se respira ali dentro parece pintado com as cores da bandeira portuguesa. Azeitonas acabadas de temperar, pão estaladiço ainda morno e o aroma persistente do alho e do azeite que escapam dos bastidores. Das torneiras saem imperiais com o rótulo de cervejas bem conhecidas dos portugueses, servidas com um colarinho perfeito. Os empregados cruzam-se entre si com uma precisão quase mecânica. Um leva dois pratos, outro equilibra quatro cervejas acabadas de tirar da pressão e um terceiro recolhe taças de sobremesas entretanto vazias. Celso passa novamente por nós, de travessas em riste e, pelo caminho, deixa-nos uns jaquinzinhos no prato e algumas respostas. Só se interrompe pela campainha da cozinha. 

Celso não tem mão a medir com os fregueses d’A Varina. Créditos: Leonor Wicke.

Celso chegou à Alemanha aos 16 anos. Hoje, aos 62, olha para trás e reconhece que a Alemanha já respirou melhores dias: «a vida mudou muito e está mais difícil». Refere-se ao aumento do custo de vida, às rendas, à eletricidade e às despesas que pesam cada vez mais sobre a restauração. Ainda assim, naquela hora, a sala está completamente cheia. Mal uma mesa fica livre, um empregado limpa-a rapidamente e encaminha novos clientes para os lugares acabados de vagar. 

A tarde estica, a multidão persiste, sinal de que, ali, o horário alemão não entra. Não se sabe se vêm almoçar, ou jantar. Sabe-se que vêm comer. «Os clientes são quase todos estrangeiros, sobretudo alemães. Mas, sem reserva não comem!», explica, enquanto mais uma garrafa de vinho do Douro segue para uma mesa ao fundo da sala. Mas esta predileção dos alemães pela comida portuguesa foi um namoro antigo e duradouro. 40 anos antes, servir estes sabores era um desafio, mas Celso garante que o paladar dos alemães é hoje mais instruído para esta gastronomia. «Quando o muro de Berlim foi abaixo, a malta do outro lado nem sabia o que eram azeitonas!», refere divertido. Para se aproximar dessa realidade partilha histórias e até fotografias de tempos idos. Na cozinha, garante que se fala sempre português, ao contrário de outros estabelecimentos inseridos nas ruas mais turísticas daquele quarteirão. 

Cervejas Super Bock saem à pressa e à pressão. Créditos: Leonor Wicke.

Os dois filhos já nasceram longe da terra natal, Ovar, que Celso continua a visitar «todos os anos». Cresceram a ouvir histórias sobre Portugal, passaram férias junto da família e aprenderam a conhecer o país através dos olhos do pai. Apesar disso, decidiram seguir outros caminhos. Estudaram em universidades alemãs e construíram carreiras fora da restauração. Celso fala dessa escolha sem qualquer amargura. «Vejo isso com bons olhos», diz, até porque hoje já é avô de dois netos. 

Entretanto, um cão de pelo sedoso aproxima-se lentamente da entrada do restaurante. Fareja o passeio, observa o movimento da sala e espera pacientemente que algum pedaço de pão ou uma migalha caia por descuido. Celso sorri ao vê-lo. «Já é nosso conhecido e a dona deve estar por perto.» Poucos instantes depois, uma mulher chama-o do outro lado da rua e o animal segue caminho com a rotina decorada nas patas. 

Numa mesa ao lado, ouve-se galego. Quatro espanhóis, um deles comeu uma dourada grelhada, daquelas que facilmente poderiam encontrar num restaurante da linha de Cascais ou na Costa da Caparica. Um também come peixe e outros dois optaram por carne. Entre garfadas e cervejas, confessam preferir os restaurantes portugueses por serem «melhores e mais baratos». Um empregado passa para lhes servir mais um fino enquanto, da cozinha, continuam a sair pratos de bacalhau, polvo e carnes suculentas. 

Mas A Varina vive de muito mais do que as refeições do dia a dia. O restaurante recebe casamentos, batizados e outras celebrações familiares que ajudam a manter o negócio. Hamburgo deu a Celso uma vida melhor do que aquela que acredita que teria em Portugal, mas não lhe retirou a consciência das dificuldades. «É preciso trabalhar muito», resume. Faz uma breve pausa antes de concluir: «E, mesmo assim, há sempre negócios portugueses a fechar portas.» 

Créditos: Leonor Wicke.
Créditos: Leonor Wicke.

Leia a primeira parte da reportagem: O país que mora em Hamburgo: o Bairro Português vive, mas a comunidade já não se senta na mesma mesa 

Bairro português… Mas pouco 

Por trás das fachadas e bandeiras penduradas nas janelas, esconde-se uma verdade inconveniente: «O Bairro Português não existe!». Quem o diz, sem rodeios, é Wulf Köpke, etnólogo e antropólogo. A criação deste bairro foi uma invenção muito engenhosa, mas a verdade é que não vivem lá portugueses – e nunca viveram. «O Portugiesenviertel era um bairro de polacos», com tabernas baratas onde os marinheiros esperavam pelo próximo embarque, pequenos negócios, vendedores de equipamento marítimo e algumas companhias de navegação. Havia um albergue de marinheiros da missão católica, o Stella Maris, e os únicos portugueses que de facto viveram no bairro hospedaram-se lá. 

O epicentro luso era o Bar da Rita, nome de uma mulher que ajudava os portugueses a enviar dinheiro para Portugal, escrever cartas e, por vezes, cozinhar a pedido «qualquer coisa portuguesa». Em 1971 fundou-se o restaurante Ribatejo, que era praticamente «uma cantina de uma fábrica de peixe onde trabalhavam cerca de 1250 portugueses». Serviam grandes porções de comida típica portuguesa, normalmente uma «caldeirada cheia de coisas lá dentro». Bom e barato. 

 

A rua principal do Bairro Português, Ditmar-Koel-Straße, em 2026. Créditos: Leonor Wicke.

«O olfato alemão não estava preparado para o cheiro que vem da cozinha portuguesa. Mas ao fim de 40 anos habituaram-se e agora adoram!», diz Jorge Pinto, historiador. E mais restaurantes surgiram na mesma zona. Pinto e Köpke são os autores do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten, uma obra que relata como nenhuma outra a vida dos emigrantes portugueses em Hamburgo. 

No mundial de 2006, havia já dezenas de restaurantes portugueses no quarteirão em Landungsbrücken, naquela altura todos iluminados e com bandeiras. A comunicação social visitou o local e alimentou esta estratégia de marketing, enfatizando a ideia daquele Bairro Português. 

A Ditmar-Koel-Straße, a principal artéria do bairro, parece desenhada à medida do turista. A poucos metros do porto de Hamburgo, as esplanadas enchem-se de quem procura refrescar-se com uma cerveja antes de escolher um restaurante para comer peixe grelhado ou marisco. Durante décadas, a rua foi um cartão-de-visita da comunidade portuguesa. Hoje, porém, a paisagem é diferente. A pandemia acelerou o encerramento de vários negócios familiares e abriu espaço a uma oferta mais homogénea, pensada sobretudo para o turismo. Muitos dos restaurantes mantêm nomes portugueses, mas servem uma cozinha mediterrânica mais ampla – onde convivem pratos portugueses, espanhóis e, por vezes, italianos -, diluindo a identidade que durante anos distinguiu o bairro.  

Créditos: Leonor Wicke.

Ainda assim, continuam a existir casas históricas que preservam a tradição gastronómica do do nosso país lado a lado com restaurantes espanhóis, uma mistura que sempre fez parte da identidade do Bairro, embora hoje o equilíbrio esteja mais inclinado para uma lógica comercial do que comunitária. 

A razão desta mudança também não se deve apenas à turistização e gentrificação. Muitos regressaram a Portugal ou mudaram-se para outras zonas da cidade ou da Alemanha. A redução do número de portugueses começou no início na década de 70, época em que a economia alemã entrou em crise e muitas pessoas perderam os seus empregos. Os Gastarbeiter eram frequentemente os primeiros a ser despedidos e, em novembro de 1973, foi imposta uma suspensão do recrutamento de trabalhadores estrangeiros. Naquela altura, cerca de 2,6 milhões de estrangeiros trabalhavam na Alemanha Ocidental.  

A população portuguesa residente diminuiu até atingir 71.068 pessoas em 1988. Esta evolução deixou claro que o acordo de 1964 foi fulcral e que o seu fim impactou diretamente o fluxo de emigrantes. Muitos foram, mas muitos ficaram e o impacto da língua portuguesa e dos portugueses espreita pelas esquinas da cidade até hoje. E, como explica Jorge Pinto, «beber um cafezinho e comer um bolo é um hábito que uma pessoa não perde», ainda que agora em Hamburgo seja um pouco mais caro ou menos autêntico. 

 

Barracas, disciplina e dividir o pão 

Se o Portugiesenviertel é fogo de artifício, Harburgo foi alma. Era aí que se situava o verdadeiro bairro português, a cerca de 10km do centro de Hamburgo, onde chegaram a viver entre cinco a sete mil portugueses, de acordo com os investigadores. Não há números oficiais para este bairro específico, mas estavam registados 8.354 cidadãos portugueses em 1974 em toda a cidade de Hamburgo, o valor mais elevado da década. Até uma igreja portuguesa havia.  

A entrada da antiga fábrica ‘Phoenix’ em 2024. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

O bairro Phoenix, assim chamado por estar em redor das antigas fábricas com o mesmo nome, tornou-se a escolha dos emigrantes portugueses que encontraram trabalho nesta importante produtora alemã de pneus e artigos de borracha. Segundo o livro dos autores – Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichte – esta era «de longe a maior e mais importante empregadora de portugueses em Hamburgo». Por conseguinte, o chamado Phoenixviertel era predominantemente habitado por portugueses. As rendas baixas eram atrativas num bairro que se via muito abandonado após a guerra. Este sim foi o original Portugiesenviertel, mas, atualmente, a percentagem de portugueses nesta zona reduziu drasticamente. 

O trabalho nas fábricas pagava melhor do que quase tudo o que existia em Portugal, mas cobrava o salário em suor. Era pesado, repetitivo e, muitas vezes, implacável como tantos dos ofícios que marcaram a primeira geração de emigrantes portugueses. Os turnos prolongavam-se para lá do horário, acumulavam-se horas extraordinárias e, sempre que possível, fazia-se um segundo turno. O objetivo era simples: poupar o máximo, porque quase todos acreditavam que a estadia na Alemanha seria apenas temporária e que o regresso estava ao virar da esquina. 

Nos primeiros anos da emigração, antes do acordo bilateral de recrutamento de 1964, a vulnerabilidade dos trabalhadores portugueses era ainda maior. Muitos eram explorados por intermediários, patrões ou senhorios e sobreviviam em alojamentos sobrelotados e sem condições mínimas. O convénio entre Portugal e a então Alemanha Ocidental trouxe alguma ordem ao processo migratório. As empresas passaram, em muitos casos, a disponibilizar alojamentos próprios como barracas de madeira simples, limpas e divididas em quartos que, apesar de longe do conforto, representavam uma melhoria face ao que existia. 

No livro, sobressai um traço comum dessa geração: homens moldados pelo serviço militar obrigatório, habituados à disciplina, ao sacrifício e ao silêncio. Queixavam-se pouco. Trabalhar era, para eles, apenas mais uma missão a cumprir antes de voltarem a casa. 

Portugueses em Harburgo, 1982. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.
A mesma rua em Harburgo, 2024. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

Antes de entrarem as famílias e de o bairro ganhar raízes permanentes, foram estes homens que aprenderam a construir uma comunidade longe de casa. Comiam à mesma mesa porque a solidão pesa menos quando encontra outra solidão. Dividiam o pão, o vinho, as notícias de Portugal e os vazios que as cartas nunca conseguiam preencher. Naquela Alemanha que ainda lhes era estranha, descobriram que sobreviver dependia menos da força individual do que da capacidade de se reconhecerem uns nos outros. Foi dessa fraternidade nascida da ausência da família, da língua, de pertença, que começou a formar-se uma comunidade. Antes de existir um Bairro Português, existiu um punhado de homens que se recusou a desaparecer no anonimato da emigração. 

 

Um padre revolucionário que promovia o amor 

Os primeiros portugueses chegaram como os outros trabalhadores forasteiros e encontraram-se na estação principal, ou Hauptbanhof. Mal chegaram à estação, os olhares desconfiados da polícia alemã não escaparam aos portugueses marcados pela PIDE. Escolheram unir-se. 

Alugaram uma casa perto da estação, na rua Lange Reihe 27, para se encontrarem e conviverem e eventualmente desenvolveram um clube. A oito de novembro de 1964, nascia a Associação Portuguesa de Hamburgo, pioneira no seu género, pois foi a primeira associação com lucro comum de Gastarbeiter, os trabalhadores convidados na Alemanha. Desenvolveram uma vida cultural animada, com grupos de teatro, festivais de carnaval, exposições e cursos de formação. Autogeriam uma cantina e salas de lazer. Fizeram a primeira creche bilingue criada por uma comunidade de emigrantes, contra todas as adversidades e inclusive as autoridades alemãs, que franziram o sobrolho. Criaram o primeiro jornal de migrantes, o Elo, o primeiro clube de futebol feminino e ainda o primeiro grupo musical. No seu apogeu, contou com mais de 1000 membros. 

Jantar na ‘Asso’. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

De acordo com o livro, a carinhosamente chamada Asso «era um ponto de encontro de trabalhadores e intelectuais», uma «espécie de antítese da missão católica portuguesa vizinha», que era também um forte ponto de convívio e apoio à comunidade. 

«Foi muito política, uma escola de democracia. No tempo da revolução eram muito revolucionários, inclusive o pároco, Padre Azevedo, que era, à sua maneira, muito político», acrescenta Wulf Köpke. Eurico José de Azevedo foi uma figura extremamente importante para a comunidade emigrante de Hamburgo. Os investigadores relatam que sua a principal preocupação, assim que ficou a cargo da liderança da Missão Católica, em 1971, era melhorar as condições de vida dos trabalhadores portugueses. Viu como principal caminho criar uma comunidade viva na qual os emigrantes se sentissem em casa, pelo que começou por unir a Cáritas, já com expressão na cidade, nestes esforços. Não demoraram a surgir grupos musicais, coros de igreja, o grupo de dança folclórica, um grupo juvenil e vários cursos e formações. As festas de São Martinho, Natal, Passagem de Ano ou Nossa Senhora de Fátima reuniam a comunidade. «No seu entender, o viver da Santa Eucaristia tinha que estender-se além da igreja.», acrescenta Wulf. 

Muito crítico ao sistema português, avançado para os tempos da PIDE, mas muito católico: o Padre Azevedo era a mistura perfeita para as pessoas. Os investigadores recordam o tempo em que a Igreja Católica principal da área tinha duas mil pessoas aos domingos na missa. Não cabiam todas em pé. Foi também o impulsionador de uma escola complementar de língua portuguesa, onde os filhos dos migrantes puderam manter vivo o português e cultura, que ficava de fora das escolas germânicas. Com o tempo, a escola cresceu e viu-se reconhecida pelo Estado Português, mantendo as portas abertas às custas de uma doação de um banco, cinco marcos pagos mensalmente pelos pais e o resto suportado pelo Padre. Em média, cerca de 500 crianças frequentavam a escola todos os anos, havendo também cursos de qualificação (soldadura, costura, mecânica, entre outros) para adultos. Isto abriu muitas portas aos emigrantes e seus familiares em Portugal e

Padre Azevedo com o Rancho da Missão, ‘Os Lusitanos’. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

na Alemanha. Nas palavras do Padre, na última entrevista que deu aos investigadores, em 2015: «Na minha escola não havia isso que se pudesse chamar disciplina. O que havia era amor, que é a melhor disciplina que existe, e havia respeito.»

Além disso, muitos locais de alojamento eram espaço de convívio para trabalhadores que procuravam gastar o mínimo possível: jogava-se cartas, comia-se, bebia-se e namorava-se. Havia muito apoio mútuo na Asso. Foi também criado um clube orientado para a classe média educada e politicamente de esquerda, o Kulturkreis Portugal in Hamburg, composto principalmente por membros alemães entusiastas por Portugal e pela sua cultura. 

 

A Associação Luso-Hanseática e a memória dos mortos 

Também a Associação Luso-Hanseática começou assim. No prédio com o nome Wolfgangsweg 7, uma placa discreta assinala a sede dessa instituição. Apesar de estar praticamente à porta do bairro português, poucos turistas reparam naquele edifício. Lá dentro preserva-se parte da memória da emigração portuguesa em Hamburgo. É aqui que nos recebe Luís-Manuel Pacheco, presidente da associação desde 2015. Natural de Odemira, chegou à Alemanha em 1979, ainda jovem.

Hoje dirige uma agência da seguradora ERGO em Hamburgo, mas é difícil separar a profissão do papel que desempenha na comunidade portuguesa. Nas paredes do gabinete, Hamburgo parece desaparecer durante alguns instantes. Há quadros dos elétricos da Bica, fotografias de Lisboa, referências ao Alentejo e pequenos objetos que insistem em recordar a distância de casa. «Os portugueses confiam em mim», diz com naturalidade. 

Luís-Manuel Pacheco recebeu-nos na Associação Luso-Hanseática. Créditos: Leonor Wicke.

Fala de Odemira com um brilho difícil de esconder. O filho vive em Portugal e a ligação ao país nunca desapareceu, apesar de quase cinco décadas passadas na Alemanha. Fora do escritório, há outra paixão que poucos imaginariam ao presidente de uma associação de emigrantes. Dança o tango argentino. Dias antes da nossa conversa regressara de Palermo, onde participou num espetáculo. Sorri quando explica que, afinal, tango e fado têm mais em comum do que parece e há até eventos a combinar as duas artes. Ambas nasceram da saudade, da melancolia e da necessidade de contar histórias. E por falar de história relembra as raízes. O pai era carpinteiro, pelo que cresceu no meio de tábuas, serrotes e da paciência de quem sabe que as obras importantes nunca se fazem à pressa. Foi a construir devagar que a comunidade portuguesa se fez em Hamburgo. Edifícios, ruas e pessoas. «Debaixo de cada pedra há uma história», diz.  

É um legado que está espalhado por toda a cidade. Hamburgo guarda cerca de duas mil sepulturas de portugueses, testemunho de uma presença que atravessa gerações. «Houve portugueses distinguidos com medalhas e condecorações da cidade, empresários que prosperaram, comerciantes que abriram caminho e famílias que nunca mais regressaram definitivamente ao país de origem.»  

Em Altona, a poucos quilómetros do gabinete de Luís, encontra-se o antigo Cemitério Judaico Português, fundado em 1611 por judeus sefarditas de origem portuguesa que fugiram da Inquisição. É o mais antigo cemitério judaico sefardita do Norte da Europa e um dos mais importantes testemunhos da diáspora portuguesa. Entre lápides escritas em português, hebraico, espanhol e latim, conservam-se cerca de 1.600 sepulturas e estima-se que ali tenham ocorrido cerca de 2.000 enterros ao longo de mais de dois séculos.  

Luís-Manuel mostrou-nos várias publicações alemãs dedicadas à diáspora e cultura portuguesa. Créditos: Leonor Wicke.

Muito antes de os trabalhadores portugueses chegarem às docas e às fábricas alemãs, outros portugueses já tinham encontrado refúgio em Hamburgo. Eram mercadores, banqueiros, médicos e artesãos obrigados a abandonar Portugal para escapar à perseguição religiosa. A cidade permitiu-lhes reconstruir a vida e participar no desenvolvimento económico da região, deixando uma marca que ainda hoje sobrevive no cemitério de Königstraße. Séculos depois, uma nova vaga de portugueses voltaria a cruzar a Europa rumo a Hamburgo. Já não fugia da Inquisição, mas da pobreza e da ditadura. Mudaram as razões da partida, não a procura por um lugar onde fosse possível recomeçar. É por isso que a história portuguesa na cidade se mede em quatro séculos de presença contínua, gravados tanto na memória dos vivos como na pedra dos mortos. 

Atualmente, a Associação Luso-Hanseática reúne 375 associados, contando já com 30 anos de existência. Paradoxalmente, há atualmente mais alemães do que portugueses entre os seus membros. Todos os meses organizam roteiros pelos restaurantes portugueses do bairro, numa tentativa de preservar laços que, admite, «já foram mais fortes.» 

A emigração também já não é a mesma. Luís realça que «os portugueses que chegam hoje apresentam qualificações muito diferentes das vagas migratórias das décadas de 1960 e 1970». Há engenheiros, investigadores, profissionais das tecnologias e quadros especializados. «É uma emigração muito mais diversificada», explica. Mas identifica uma consequência. Quanto mais qualificados são os emigrantes, menos dependem uns dos outros e menor tende a ser a coesão da comunidade. «Estamos menos unidos», lamenta. 

Créditos: Leonor Wicke.

 

Ainda assim, acredita que a imagem de Portugal continua a abrir portas. O desporto ajudou a projetar o país, tal como muitos portugueses que construíram carreiras sólidas na Alemanha. «Temos boa reputação.», realça Luís Pacheco. O maior obstáculo, diz, continua a ser a língua. E lembra que também a Alemanha está longe de ser um bloco homogéneo. «O empresário português é diferente do alemão. E a própria Alemanha muda muito de região para região.» 

Sobre as futuras páginas de Portugal mostra-se apreensivo. «Continua a formar profissionais altamente qualificados, mas não consegue retê-los». É uma constatação que faz sem esconder alguma tristeza. 

 

Há um arrefecimento da identidade, mas o ‘vira’ ainda se dança em Hamburgo 

A Asso revolucionou o panorama cultural de Hamburgo e funcionou durante muitos anos. Mas, com cada vez menos pessoas a aderir e problemas na sua gestão, acabou em 2007. O regresso do Padre Azevedo a Portugal, em 2005, também ditou o fim da união da Cáritas à Missão Católica, que desistiu deste apoio à comunidade emigrante. Muitos emigrantes e descendentes ainda relembram com saudades esta escola que abriu tantas portas e manteve a cultura portuguesa viçosa. Köpke garante que, sem este apoio, muitos emigrantes que encontrem dificuldades em Hamburgo poderão não ter o apoio necessário para continuar. 

Entre estes e outros fatores que levaram os portugueses a deixar de se reunir, os investigadores apontam várias razões. Wulf descreve divertidamente o que conhece por afinidade, uma certa tendência de os portugueses «brigarem uns com os outros». Mas, em última instância, a pandemia foi o prego no caixão de uma socialização cada vez mais parca, especialmente depois de a igreja perder a força. 

Grupo de emigrantes reunidos na cozinha de um dormitório. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

Jorge Pinto explica o que todos sentimos na pele nos dias de hoje, de uma forma ou de outra. A comunidade portuguesa tinha ligações entre si, trocava informações com frequência, de festas ou acontecimentos. «Hoje em dia, as únicas informações que há são nas redes sociais, não diretamente com as pessoas. Já se esqueceram todos de como interagir uns com os outros. Preferem escrever uma mensagem a falar! E esses pormenores ajudam a desfazer a comunidade portuguesa», diz. 

Para Wulf, as próprias Associações Alemãs são velhas e falham em atrair a juventude. O Instituto Camões, a seu ver, quase não funciona. Sem ajudas ou comunicação, os laços dissipam-se lentamente. Jorge Pinto relembra que «havia por todo o lado publicações do Consulado Português», para se saber o que estava a ser tratado, como eleições, por exemplo. As pessoas tornaram-se menos recetivas, quer por falta de locais para se expor, como cafés típicos, quer por contenção de custos com este tipo de comunicação. «Com pouca infraestrutura da comunidade portuguesa, as festas acabam por ser poucas. Também faltam pessoas mais velhas que arranjem tempo para organizar e ir atrás das informações.» 

Pode-se dizer que as pessoas trabalham muito para si, para o dia a dia, mas não se interessam com o que está a acontecer. Não há aquela garra de querer continuar com a comunidade e ajudar. Adormeceu. 

– Jorge Pinto

De facto, a 30 de Abril acontecia a Noite Longa dos Consulados em Hamburgo. Na casa diplomática portuguesa os corredores estavam à pinha. Os copos de vinho desapareciam das bandejas à mesma velocidade com que regressavam vazios à copa. Sobre as mesas acumulavam-se pratos com restos de comida. No meio da azáfama, o próprio cônsul-geral de Portugal em Hamburgo, João Batista, ajudava a recolher a louça espalhada pelo edifício. Parava apenas o tempo suficiente para apertar uma mão e lançar um «Sejam bem-vindos», antes de voltar ao trabalho. 

Lá dentro, porém, ouvia-se muito mais alemão, espanhol, italiano ou inglês do que português. Havia turistas e curiosos de várias nacionalidades. Bastavam, ainda assim, poucos segundos para reconhecer Portugal.

Grupo folclórico ‘Retalhos de Portugal’. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

O acordeão enchia as salas, o vira arrancava sorrisos, as garrafas de vinho esvaziavam-se depressa e os rótulos portugueses alinhavam-se sobre as mesas. A identidade sobrevivia nos símbolos. Uma vez por ano, as representações diplomáticas de Hamburgo abrem as portas à cidade e transformam edifícios administrativos em lugares de festa. Mas havia qualquer coisa de melancólico naquela celebração. O país estava presente. Os portugueses, quase não. Naquele edifício onde horas antes se falara da comunidade, era sobretudo quem vinha de fora que dançava o ‘vira’ e descobria Portugal. A comunidade que ergueu restaurantes, associações e uma das maiores diásporas portuguesas na Alemanha parecia já não precisar, ou já não querer, encontrar-se. Tal como no Bairro Português, o nosso país continua representado, mas a comunidade que o construiu já quase não se representa a si própria. 

 

A portugalidade e as oliveiras que não crescem em Hamburgo 

Apesar deste arrefecimento nacional, a portugalidade mantém-se viva na comunidade, ainda que de outras formas. Wulf recorda que, no livro, as respostas são muito diversas. «Tenho um amigo que diz que ‘aqui, dentro de casa, é Portugal. Lá fora é Alemanha’. Ou seja, dentro das casas fala-se inteiramente em português, mesmo que depois algumas gerações já não falem», diz. Outra testemunha do livro tem duas filhas, mas apenas uma fala português. Ainda assim, a que não fala afirma que o «seu coração é português.» Explica que a portugalidade sentida é algo muito individual, mas não se pode dizer que estes emigrantes desistam de ser portugueses. Podem desaparecer alguns traços, mas muitos têm ainda mais orgulho. «É algo especial criado pelos portugueses em Hamburgo.» 

O investigador também reconhece que esta nova geração de emigrantes tem um perfil diferente. São de classe socioeconómica mais alta, com mais estudos, e sabem perfeitamente inglês. Mas garante que há realidades distintas. «Para muitas pessoas de ascendência africana com passaporte português é uma tragédia.

Restaurante no Bairro Português. Créditos: Leonor Wicke.

Eu conheço pessoas licenciadas que são incapazes de aprender alemão», explica. E estas duas camadas de emigrantes, assegura, têm uma única coisa em comum: não querer contacto uns com os outros. 

Mas a história não termina neste desencontro. A nova geração portuguesa, que dificilmente pisaria aquelas mesas corridas onde os primeiros emigrantes portugueses matraqueavam saudades entre copos de vinho, também ajuda a escrever a história.  

Ângela Relógio pertence precisamente a essa geração, quando saiu de Portugal, «não o fez para emigrar», realça. Partiu para Heidelberg para fazer um doutoramento, convencida de que regressaria pouco tempo depois. A vida, porém, tratou de lhe trocar os planos. Depois veio Berlim, onde criou o seu grupo de investigação na Charité – Universitätsmedizin Berlin, o maior hospital universitário da Europa. Da investigação nasceu a TimeTeller, empresa que desenvolve tecnologia capaz de analisar o relógio biológico humano através de testes moleculares, modelos matemáticos e inteligência artificial, procurando determinar o melhor momento para dormir, comer, praticar exercício ou até administrar tratamentos oncológicos. Mais tarde, Hamburgo ofereceu-lhe as condições para juntar investigação, ensino, inovação e empreendedorismo. 

À primeira vista, a sua história parece não ter quase nada em comum com a dos homens que chegaram à Alemanha nos anos 60 para trabalhar nas fábricas, nos estaleiros ou na restauração. Uns transportavam malas de cartão. Ângela levou consigo uma formação em Engenharia Física Tecnológica do Instituto Superior Técnico e uma carreira científica para construir. Enquanto alguns emigraram para sobreviver, outros partiram para investigar. Mas basta perguntar-lhe quem é para perceber que a distância entre essas duas gerações talvez não seja assim tão grande. 

«Sou portuguesa, alentejana, vivo hoje em Hamburgo e não sei onde estarei amanhã. Sempre encarei a ciência como uma profissão sem fronteiras. O planeta é, de certa forma, a minha casa.» A frase diz muito sobre uma geração que cresceu numa Europa onde partir já não significava necessariamente romper. O passaporte deixou de ser um bilhete de ida. As fronteiras perderam peso. Os voos low cost aproximaram países. As videochamadas encurtaram distâncias. Mas há coisas que continuam a viajar de outra maneira. 

Quando lhe perguntamos o que leva de Portugal todos os dias, Ângela refere rapidamente «o Alentejo». Recorda a tranquilidade. «A autenticidade das pessoas e a proximidade humana.» E fala de uma forma de olhar para a vida. «O fado, os manjericos, a saudade.» É um vislumbre contemporâneo da portugalidade. Já não depende de viver num dos bairros portugueses, nem de frequentar associações ou restaurantes onde todos se conhecem. Viaja com cada pessoa, tornando-se menos coletiva, mas não menos intensa. Ângela acredita que «a diversidade da comunidade portuguesa é uma riqueza, não uma divisão.» Ainda assim, reconhece que «falta criar pontos de encontro entre as diferentes gerações e perfis de emigrantes.  

Janela do restaurante A Varina. Créditos: Leonor Wicke.

Continua a regressar frequentemente a Portugal e mantém os filhos «ligados à língua e à cultura portuguesas.» Conta, com evidente orgulho, que a filha, depois de concluir Engenharia Mecatrónica em Hamburgo, escolheu fazer Erasmus precisamente no Instituto Superior Técnico. A universidade onde tudo começara para a mãe tornou-se, anos mais tarde, uma ponte de regresso para a filha.  

Hamburgo é uma cidade desenhada por faias, carvalhos e tílias, árvores que aprenderam a resistir ao frio, ao vento e aos longos invernos do Norte da Europa. O Alentejo cresce noutro compasso. Entre oliveiras e sobreiros, sob um calor que abranda o tempo e alarga o horizonte. Ângela vive junto ao Elba, mas continua a falar como quem caminha entre oliveiras. Parece, assim, ser essa a imagem mais fiel da emigração portuguesa: aprender a viver à sombra de outras árvores, sem deixar morrer a vontade de voltar a partilhar o pão na mesma mesa. 

 

Fotografia de Destaque: Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.

Leia a primeira parte da reportagem: O país que mora em Hamburgo: o Bairro Português vive, mas a comunidade já não se senta na mesma mesa 

 

Esta reportagem teve o apoio das Bolsas de Jornalismo Portugal Alemanha, uma iniciativa da Associação de São Bartolomeu dos Alemães em Lisboa, coordenada pelo Goethe-Institut Portugal. 

Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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