Fomos buscar Miguel Pinto Luz à Câmara Municipal de Cascais e passeámos pela vila, pelas praias do Guincho, pelo concelho onde Miguel trabalha há 15 anos: “Sou um cascalense apaixonado por esta terra, tenho 41 anos, formado em Engenharia no Instituto Superior Técnico (IST), onde dei aulas durante muitos anos. Fui investigador também no IST e, pelo meio, exerci sempre a atividade política como um serviço de cidadania. Desde muito novo que tenho uma intervenção política muito ativa, primeiro na JSD e depois no PSD”.
Antes de ser vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, Miguel esteve no Governo como secretário de Estado dos Transportes. Contudo, revelou-nos que sente uma motivação especial por este trabalho na autarquia: “Ver constantemente a transformação que estamos a provocar num território, no território onde eu nasci, fui criado e onde vive a minha família, dá um prazer redobrado”.
Para além de ser uma motivação especial, ser autarca no território onde nasceu e vive é também uma responsabilidade acrescida?
Miguel Pinto Luz (MPL): Sem dúvida. Hoje, Cascais é o quinto maior município do país, temos 210 mil habitantes. É também um destino turístico de excelência. Cada vez mais as pessoas escolhem Cascais para viver, para passear, para visitar e é uma responsabilidade enorme ter de garantir qualidade de serviço a cada cidadão que passa por Cascais ou decide fazer de Cascais o seu destino de eleição para implementar os seus projetos de felicidade. Essa responsabilidade de garantirmos a cada um a possibilidade de ser feliz é o maior desafio para quem exerce funções públicas.
Fala em felicidade dos munícipes, e relativamente às pessoas que trabalham consigo? Como é que garante a felicidade das pessoas da sua equipa?
MPL: Exercer liderança na administração pública não é fácil, mas trouxe-me, nos últimos 15 anos, um conhecimento muito mais profundo do que é feita esta administração pública de que toda a gente fala. Primeiro, uma qualidade de que eu não estava à espera, uma qualidade acima da média dos servidores públicos. Depois, uma incapacidade total do líder poder premiar, poder atribuir regalias que não estejam no “cardápio, no menu oficial”. Isso retira ao exercício de liderança um conjunto de variáveis que existem na iniciativa privada, tais como prémios de produtividade ou a possibilidade de dar formação nacional e internacional aos colaboradores. Estamos muito mais limitados e muito mais fechados, há um espartilho legal que não é positivo para a administração pública.
E como fazem então?
MPL: Tentamos todos os dias inventar novas forma de motivar, de ter um projeto diferente. As equipas que trabalham comigo na Câmara Municipal de Cascais sentem-se motivadas pela camisola que vestem e pela missão que todos os dias têm de implementar, que é fazer de Cascais o melhor sítio para viver, um dia, uma semana ou a vida toda.
Qual foi o maior desafio que já teve como vice-presidente?
MPL: Não consigo apontar um único desafio, mas, talvez, motivar as equipas com parcas ferramentas para o exercício dessa atividade seja um dos maiores desafios. No entanto, nos últimos quinze anos fizemos coisas absolutamente únicas como, por exemplo, o novo campus da Nova SBE, que foi algo que sonhámos poder ter em Cascais, uma grande escola, uma escola de dimensão internacional. Foi um desafio que nunca mais vou esquecer, ver um sonho tornar-se realidade.
Mas há outros, como a renovação de todos os Centros de Saúde de Cascais, o investimento que temos feito em escolas ou, até mesmo, o orçamento participativo – a forma como partilhamos parte do nosso poder enquanto políticos com os cidadãos para eles próprios decidirem onde deve ser gasto o orçamento municipal. Passados sete anos, poder ver que hoje há mais pessoas que votam para o orçamento participativo do que as que votam para as eleições autárquicas, diz muito sobre a qualidade da nossa democracia, mas diz muito mais ainda sobre a vontade dos nossos concidadãos participarem na construção do futuro da sua vila. Muitas vezes, dizemos que as pessoas são alienadas da política, que não querem intervir, mas aqui em Cascais o exemplo que temos é exatamente o oposto.
O exercício de liderança aqui foi abdicar de parte do poder e partilhar esse poder com os nossos concidadãos. Não se entenda isto como desresponsabilização. Existe responsabilização da liderança, aliás de quatro em quatro anos temos de nos candidatar a um novo mandato.
Miguel, que líderes ou figuras o inspiram para o exercício da liderança?
MPL: Tenho muitas pessoas que me inspiram: Winston Churchill e Konrad Adenauer foram homens transformadores. Em Portugal, Aníbal Cavaco Silva e Francisco Sá Carneiro foram homens que também transformaram, que ajudaram a transformar o nosso país. Depois, leio e aprendo com a história dos grandes líderes. Inspiro-me muito, todos os dias, em líderes anónimos, líderes das suas famílias, dos seus bairros, das suas comunidades, das suas associações, das suas IPSS. Portugal tem sido pródigo nisso, hoje temos um tecido social, com várias IPSS no 3.º Setor, fervilhante e com homens e mulheres que constroem, todos os dias, associações sem fins lucrativos para ajudar a construir este estado social. Temos mulheres, hoje, a liderar IPSS em Cascais que são exemplos para mim todos os dias, IPSS ligadas à deficiência, à terceira idade, à juventude, etc. Inspiro-me muito nessa liderança anónima que garante que todos nós vivemos num país tolerante e que continua a crescer, um país em que eu continuo a depositar uma enorme esperança. Acredito muito nos portugueses e na sua capacidade de se regenerarem e de se reinventarem.
Quando fala sobre liderança anónima, existe na Câmara Municipal de Cascais alguma iniciativa que dê visibilidade a essas lideranças anónimas?
MPL: Temos várias iniciativas que tentam dar visibilidade e capacidade de intervenção a essas lideranças anónimas. Temos uma iniciativa que é o “Tutor de Bairro”, que promove esses líderes de comunidade, de bairro. Esse “tutor” garante a segurança e a qualidade do espaço público e passa a ser os nossos olhos e ouvidos naquele local, devendo ter uma atitude proativa e dizer-nos o que é necessário fazer. Esta foi uma iniciativa que começámos há cinco anos e tem sido um enorme sucesso. Hoje, temos cerca de uma centena de “Tutores de Bairro” que garantem, todos os dias, que não nos esquecemos de ninguém em Cascais. Muitas vezes, um dos problemas das lideranças, é não terem capacidade de chegar a todo o lado.
Eu, aqui em Cascais, tenho uma dupla liderança, porque lidero uma organização que é uma Câmara Municipal, com cerca de 3000 colaboradores, mas também uma liderança política de um concelho, tendo para isso de saber ouvir e auscultar um território tão vasto como é o caso de Cascais. A figura do “tutor” ajuda-nos a ouvir todos nesta vastidão territorial.
Como é que eles se sentem, esses “Tutores de Bairro”, quando lhes é dada essa responsabilidade?
MPL: Sentem uma motivação acrescida, pois o primeiro raciocínio é: “Afinal eu existo para alguma coisa, afinal precisam de mim, afinal eu sou útil”, e essa é uma grande componente da motivação. A segunda razão é porque espalham essa motivação por todo o seu espaço territorial, e isso é muito positivo.
Enquanto líder, também aposta no seu próprio desenvolvimento?
MPL: É absolutamente fundamental não nos fecharmos em compartimentos estanques e pensarmos que sabemos tudo. O mundo está em constante evolução, num ritmo de obsolescência como a humanidade nunca viveu e, por isso, se um líder não se atualiza permanentemente, se não sai de sua casa e não ouve e ausculta o mundo, se não aprende com o mundo, não consegue ganhar uma visão global e será sempre um líder que terá os seus dias contados. Hoje, não há nenhuma lei que obrigue um vice-presidente de uma Câmara a ter um doutoramento, mas eu estou a fazê-lo. O que me motiva não é o curriculum, mas a vontade de aprender mais, e de ouvir e de ler.
Qual é o tema do seu doutoramento?
MPL: Liderança, estou a estudar liderança na administração pública, muito concretamente versando um tipo de liderança: Servant Leadership. Esta é a vontade que eu sinto, a de servir humildemente a minha terra, o meu país. Ou seja, criar um impacto positivo na vida das pessoas.
Como é que vê a tecnologia ao serviço da sua liderança, mais concretamente na Câmara Municipal de Cascais?
MPL: Nós entendemos a tecnologia como um facilitador; a tecnologia não é um fim em si mesma. Em Cascais, temos investido muito em tecnologia, utilizamo-la para a qualidade de serviço que queremos proporcionar aos munícipes. Inaugurámos, recentemente, um centro de controlo com capacidades preditivas, uma novidade mundial. A tecnologia aqui serve para garantir que a Câmara Municipal consiga oferecer a qualidade de serviço que está alinhada com as expectativas criadas a cada uma das pessoas que escolhe Cascais para viver e, por isso, temos utilizado a tecnologia em tudo o que se possa imaginar, desde a recolha de resíduos sólidos urbanos e obras de cimento e de água, à energia, à nossa mobilidade, ao orçamento participativo, e ao Cascais City Points.
O que é isso exatamente, os Cascais City Points?
MPL: Criámos uma aplicação que funciona à semelhança das milhas que nos são atribuídas quando viajamos de avião. Aqui, o cidadão pode ser premiado com pontos através de comportamentos sustentáveis para a cidade, por exemplo, se separar lixo, se oferecer minutos do seu tempo para voluntariado, se adotar um animal, é premiado com pontos, e esses pontos podem ser trocados por bilhetes para um museu, por bilhetes para um concerto, por minutos de estacionamento nos nossos parques de estacionamento. Esta gamificação da cidade e da cidadania foi uma grande novidade que introduzimos em Cascais e fomos premiados pelas Nações Unidas por isso mesmo. Mas teve de ser a tecnologia o enabler de tudo isto, sem tecnologia não seria possível contabilizar estes pontos, não seria possível transacionar estes pontos, não seria possível monitorizar, medir, sentir, e, por isso, a tecnologia existe permanentemente em tudo aquilo que fazemos, Contudo, não queremos que a tecnologia se sobreponha à natureza, à qualidade de vida, ao bem-estar e à nossa felicidade.
Como vê a liderança de Donald Trump?
MPL: Donald Trump está nos antípodas da minha maneira de estar na vida, no mundo, por isso, sou um crítico público de tudo aquilo que ele tem implementado. Contudo, não deixa de ter colocado o dedo na ferida em temáticas importantes. Vimos, há pouco tempo, na conferência da NATO, que a questão da defesa, da segurança europeia, são temas importantes. O tema do Fair Trading no mundo é muito importante. Embora Trump aborde estes temas numa perspetiva enviesada, não deixa de colocar o dedo na ferida e obrigou, por isso, a Europa a repensar a sua forma de estar. Essa é a única parte positiva da liderança de Trump. Eu sou europeísta convicto e penso que a liderança de Trump pode ser uma oportunidade para o surgimento na Europa de novas lideranças capazes de serem transformadoras da nossa forma de viver esta Europa. A Europa foi o melhor projeto que o mundo já conheceu, mas precisa de mudanças urgentes sob pena de ficar para trás, e Trump pode ser a oportunidade da Europa acordar, de uma wake up call para a Europa tentar transformar a forma de fazer política.
Entrevista extraída do livro “How Fast Can We Go”, de Anabela Chastre
