Fazer e pensar

Uma frase de H.L. Mencken (1880-1956), jornalista e publicista norte-americano da minha predileção, voltou nestes dias a ser recordada nas redes sociais por António Nogueira Leite. Mencken tinha a capacidade de reduzir a três linhas o que à maior parte das pessoas levaria um capítulo, senão um livro.

“Para cada problema complexo há uma resposta clara, simples e… errada” escreveu Mencken. E é tão verdade que a maioria das respostas à violência das manifestações antirracistas, e às destruições de monumentos que as acompanham, tiveram respostas assim: claras, simples e… erradas. Claras, porque – e bem – condenavam o racismo que dera origem às manifestações em causa; simples, porque apoiando e compreendendo tais manifestações repudiavam a violência. Erradas, porque partiram do princípio de que tais atos, e falo da violência e da destruição de monumentos, eram respostas ao racismo, quando na verdade – e se pensarmos um pouco mais – são rejeições radicais da nossa sociedade.

Só pessoas que rejeitam liminarmente a sociedade em que vivemos, e a História que nos conduziu até ao ponto em que estamos, se lembrariam de vandalizar monumentos a Cristóvão Colombo, a Padre António Vieira ou a Winston Churchill. Haverá esclavagistas, como Colston, em Bristol, cuja estatuária pode ser discutível; ou como, entre nós, o Conde de Ferreira que enriqueceu também com esse tráfico. Mas, ainda assim, olhar o passado com os olhos de hoje é tão estúpido que a prof.ª Isabel Castro Henriques (com quem ainda tive aulas na Faculdade de Letras) se interroga o que fazer ao Parténon, símbolo de uma sociedade, a ateniense, onde a escravatura era uma normalidade (e adivinhem quem terá transportado aquelas pedras).

Não vale a pena sequer debater algo óbvio: os escravos negros foram traficados por árabes antes de o serem (industrialmente, digamos) por europeus. E que se saiba, não há condenações severas para aquelas bandas. O kimbundos vendiam ovimbundos nas costas de Luanda, e qualquer museu sério sobre o esclavagismo explica que os negreiros europeus, os traficantes, já compravam as mulheres e homens como escravos para os vender com lucro noutras paragens, como na América.

Tudo isto nos leva para uma conversa mais séria. O problema não está no que nós fazemos (que eu saiba não há tráfico de escravos nos países ocidentais e – se ele existe, sobretudo de mulheres para efeitos de prostituição – é perseguido pelas leis, polícias e forças da ordem e Justiça, no geral). O problema está no modo como pensamos e no que fazemos quanto ao nosso passado. Como a jornalista Sónia Sapage, com felicidade, escreveu na última segunda-feira no Público, o problema é que quando vai a casa dos pais também tem vontade de destruir algumas fotografias dela própria, porque não gosta do que era, ou do que vestia naquela fase. Entendo. Há fotografias em casa da minha mãe assim – eu de calças à boca de sino ou eu com ar de terrorista árabe, quando tinha 16 ou 17 anos. Olho para trás e não gosto. Mas sou eu, não posso mudar o que fui.

Ora, os radicais de hoje também não gostam do nosso passado. É lícito que assim pensem porque se declaram (e alguns foram) descendentes de alguns desses escravos traficados (e quantos de nós não somos descendentes também de escravos brancos que existiram por toda a Europa, na Antiguidade?). Mas o problema é que o passado existiu, tal como as fotos de Sónia ou as minhas calças à boca de sino, e não se podem mudar. Apenas se podem destruir as provas da sua existência.

Só que, os puritanos e radicais – e volto à frase que Nogueira Leite publicou e fixou nas redes sociais – não tem apenas a ver com o que pensamos do nosso passado. Exige-se que procedamos de uma forma clara. A frase é assim: “A objeção aos puritanos não é a de que eles tentem que pensemos como eles, mas que tentem que nós atuemos como eles pensam”.

E na verdade é isto. Eles não querem só que pensemos que Cristóvão Colombo foi um bandido ou que o Padre António Vieira foi um apoiante de negreiros. Eles querem que nós procedamos de acordo com o modo como eles veem o passado.

Este é um problema de choque de conceções. Eu não sei se Colombo era boa ou má pessoa, mas sei que a aventura dele foi importante. Também não sei o que, no seu íntimo, pensava António Vieira, mas pelo que escreveu (e pelo modo sublime como o escreveu) merece o meu maior respeito, sabendo que ele viveu o séc. XVII, com a inquisição à perna, e não o século XXI, quando as fogueiras mais visíveis são provocadas por estes radicais, puritanos e sem o mínimo sentido do que é a História.


Por Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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