Felicidade no trabalho – mito ou realidade?

A felicidade é um dos conceitos mais mal compreendidos no ambiente corporativo moderno. Quando questionadas, poucas pessoas afirmam sentir-se satisfeitas no trabalho. As tensões diárias, como curtos prazos de entrega, projetos desafiadores e o relacionamento interpessoal, são testes às nossas emoções. É fundamental sublinhar que um colaborador com frustrações pontuais pode ser feliz, desde que essas insatisfações não lhe criem desgaste excessivo.

O relatório Global Workplace 2018 da Gallup, relativo ao mercado de trabalho, mostra os seguintes números em Portugal: Apenas 19% demonstram motivação, agem como embaixadores da marca e pensam permanecer a longo prazo na organização. 65% das pessoas, a grande maioria, não estão motivadas e 16% estão “ativamente” desmotivadas. Isto significa que 71% não chega sequer a experimentar o nível mais baixo de motivação na atividade que mais executam quando estão acordados.

Estudos à parte, em primeiro lugar é importante compreender o que realmente significa a felicidade num contexto profissional. É a sensação que vivenciamos quando um projeto é concluído com sucesso e somos reconhecidos pelas nossas chefias? Ou é algo maior? Quais os fatores que impulsionam a motivação, a produtividade e o sentido de compromisso (engagement)?

As pessoas muitas vezes confundem felicidade no trabalho (e na vida) com ligeiros momentos de gratificação e a felicidade realmente envolve a capacidade de sentir uma vasta dimensão de emoções positivas, incluindo a esperança, o otimismo, a confiança, a gratidão, a inspiração e a admiração.

Empresas bem sucedidas têm colaboradores felizes e mais comprometidos. São leais e criativos, em comparação com as empresas que reúnem colaboradores menos satisfeitos. Percebemos, assim, que a felicidade também desempenha um papel significativo na produtividade e na qualidade do trabalho. Os colaboradores com altos níveis de satisfação no trabalho são mais propensos a ajudar os outros e são mais cooperativos. É importante destacar, ainda, que a felicidade também faz bem para a saúde – quando há menos cansaço e frustração crónica, regista-se redução de doenças e do absentismo. Ainda assim, muitas empresas veem a felicidade no trabalho como algo intangível, que seria “bom de ter”, em vez de uma “importante prioridade organizacional”. Na minha opinião, há vários fatores que podem ser desenvolvidos e influenciar decisivamente a satisfação do colaborador no contexto de trabalho:

          • A felicidade é uma experiência individual e não há uma “fórmula mágica” que funcione para todos mas tudo pode começar na contratação adequada para o trabalho e para a empresa. Quando contratamos pessoas que combinam com a cultura da empresa, elas assimilam as informações com maior facilidade e fazem contribuições substantivas de maneira rápida. Por outro lado, uma má contratação pode diminuir a motivação de toda a equipa.
          • Máxima liberdade, máxima responsabilidade. Capacitar a equipa para que tome as suas próprias decisões contribui para o aumento da confiança, a sentirem-se mais inseridos no seu trabalho e a ajudá-los a desenvolver habilidades críticas que contribuem para o desenvolvimento das próprias carreiras, enquanto contribuem para o crescimento da empresa.
          • Reconhecimento. Quando mostramos que reconhecemos o seu trabalho e a dedicação, incentivamos a lealdade e criamos um ambiente de trabalho positivo.
          • Trabalho com significado e propósito. Os colaboradores que veem o seu trabalho como algo que vale a pena são cerca de 2,5 vezes mais felizes que os demais. Este fator é ainda mais relevante para profissionais das áreas criativas e de marketing. Importante é dar ao colaborador uma visão global e partilhada que ajude a manter o foco nos seus objetivos.
          • Equidade/Justiça. Decisões justas e uma comunicação transparente. Traduz-se em políticas claras em relação aos salários, às promoções e aos projetos.
          • Relações positivas. Espírito de equipa e companheirismo. No trabalho melhora a comunicação, a cooperação e a colaboração, além de alimentar a inovação. Começa na liderança. Quando um Team Leader promove a atitude positiva na sua equipa, isso influencia todos: os elementos da equipa, os clientes e os resultados.

Embora nunca seja possível que os colaboradores controlem todos os fatores que contribuem para a felicidade no trabalho, é absolutamente possível ajudar a criar as condições adequadas para isso. No final, todos concordamos que a felicidade é uma escolha, e que um ambiente de trabalho positivo e saudável é sempre um bom ponto de partida.

Por: Sofia de Castro Fernandes, oradora motivacional, formadora, consultora de Recursos Humanos, executive coach e escritora

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