É o segundo maior país árabe do Mundo, após a Argélia, e o maior na Ásia e na Península Arábica. Local de nascimento do islamismo e nação sede das duas mesquitas mais sagradas, Meca e Medina, a Arábia Saudita é hoje terreno fértil da arquitetura e da construção de cidades futuristas. Atualmente, o país está […]
É o segundo maior país árabe do Mundo, após a Argélia, e o maior na Ásia e na Península Arábica. Local de nascimento do islamismo e nação sede das duas mesquitas mais sagradas, Meca e Medina, a Arábia Saudita é hoje terreno fértil da arquitetura e da construção de cidades futuristas.
Atualmente, o país está a projetar a construção de 12 a 15 cidades de raiz e prepara-se para receber eventos como a Expo2030 e o Campeonato do Mundo de Futebol em 2034. Um dos exemplos do empreendedorismo imobiliário é o projeto Neom que parece saído de um livro de ficção científica, ao estilo de Júlio Verne. A cidade The Line não vai ter estradas, carros ou emissões, e funciona exclusivamente com energia 100% renovável.
A Líder foi perceber o que se está a passar no país responsável por cerca de 57% da construção a nível mundial, para além do maior exportador de petróleo do mundo (com a segunda maior reserva). Pedro Ribeiro, General Manager da CBRE Arábia Saudita, que se juntou a uma conversa via remota, a partir do deserto, explica-nos.

A visão de um Príncipe
Tudo nasce de uma ambição – o Vision 2030, parte da visão do primeiro-ministro e Príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, que quer reduzir a dependência do petróleo e reconverter o reino num epicentro de inovação, turismo e sustentabilidade.
O despertar surge de uma constatação: em 2016 os sauditas gastavam entre 35 e 36 biliões de dólares fora do país; era uma questão desse gasto ser feito na mesma medida, mas dentro do território. E para isso, seria necessário criar a mesma oferta, com o conceito e experiência semelhantes aos que recorriam fora.
Mas, como se faz isso?
Segundo nos conta Pedro Ribeiro, o país está a receber e a abordar o top talent mundial, líderes na área da engenheira, gestão, economia, para ajudar a tornar real esta visão. E metade dos projetos são de turismo. «A Arábia Saudita não é só deserto. As montanhas, o mar vermelho e os recursos naturais vão servir de atração para se conhecer e visitar o país», refere.
O gestor emigrou em 2013 para o Dubai e depois para o Qatar, onde sempre seguiu um percurso profissional no imobiliário. Em 2017 mudou-se para a Arábia Saudita, e em 2022 assumiu a função de diretor-geral da CRBE, em Riad, onde vive com a família. Hoje, reside no país uma comunidade de cerca de mil portugueses. Como refere, os portugueses «são muito bem vistos», e sente-se, pela sua voz, a «paixão» pelo seu trabalho onde lidera uma equipa de cerca de 400 pessoas, num total de 29 nacionalidades.
Apesar do enorme país, em dimensão, a Arábia Saudita não está desenvolvida em termos de infraestruturas. A visão do Príncipe tem dois objetivos: «usar o dinheiro do petróleo para fugir à sua dependência e construir cidades de raiz, ou seja, criar em todo o landscape condições de vida em termos infraestrutura, lifestyle e entretenimento», esclarece.
Dado o gigantesco tamanho, os projetos são chamados gigaprojects, especificamente cinco mega projetos alimentados pelo dinheiro do petróleo para construção e criação de postos de trabalho para os sauditas. O Neom, e especificamente a cidade The Line, é um desses mega projetos.
É uma ‘cidade cognitiva’, construída como uma linha que se estende por 170 quilómetros, com uma largura compacta de 200 metros, que irá receber até nove milhões de pessoas. Os serviços essenciais irão estar a cinco minutos a pé e um comboio de alta velocidade faz o trajeto, de ponta a ponta, em 20 minutos.
«O projeto Neom tem duas características únicas: a localização remota, no deserto, e é um projeto único, nunca feito, nesta dimensão e nesta forma de construir».

O futuro projetado numa cidade
E é assim que nascem as cidades futuristas construídas a partir do nada. Mas em vez de pensarmos que serão habitadas daqui a 100 anos, ou ainda antes construídas na Lua, estas cidades estão muito próximas da realidade. Na Arábia Saudita, não se estão a construir cidades à semelhança de Londres ou Paris – é «algo único, original e nunca feito».
A Arábia Saudita está a injetar dinheiro do petróleo para criar infraestruturas em todo o país, e no processo perceberam que têm a oportunidade de fazer o extra mile – ou seja, não vão fazer igual.
Neste ponto da conversa é incontornável referirmos a parte humana, as pessoas e a mão de obra para a construção desta megalómana visão. Pedro Ribeiro refere que «o setor da construção considera uma grande comunidade de emigrantes que vivem com condições dignas e para além do salário, ainda conseguem enviar muito dinheiro para o seu país e para a sua família de origem».
«É uma classe respeitada e muito necessitada, que vive com condições que, quiçá, em outro tipo de país não as teria. São pessoas com as quais eu me cruzo todos os dias, e que estão felizes por estar aqui e por fazer o que fazem», partilha.
Na localização do Neom, por exemplo, um empreendimento composto por várias partes e estruturas, já estão oito mil pessoas a trabalhar. A Visão 2030 não pressupõe que tudo esteja pronto até lá, a data marca os 100 anos da fundação do país. «Esta data será tomada como uma ‘jornada’ de muitos projetos de construção, nomeadamente o Neom, que serão concluídos muito após 2030, mas que até lá 40 a 50% estará concluído», explica.
O que está a ser feito na Arábia Saudita jamais será replicado em qualquer zona do mundo. Só num projeto, estamos a construir o dobro da cidade de Nova York, não há outras localizações no mundo para fazer isto, nem o nível de investimento; estamos a falar de um mercado de 3 triliões de dólares.
Pedro Ribeiro, realça o «nível futurístico com que as coisas estão a ser feitas», com foco na sustentabilidade, no carbon free, na logística livre de carros. «São projetos que irão servir de case studies e dificilmente serão replicados».
Sobre o futuro do mercado imobiliário, considera a Arábia Saudita e o Japão como os dois países, a nível mundial, em maior ascensão. «A Europa, com todo o respeito, está a morrer, e os Estados Unidos vamos ver o que acontece com a nova liderança política», partilha.
«Infelizmente há a clara noção de que o mundo ainda não vê a Arábia Saudita como nós que estamos cá vemos. Acho importante desmitificar a negatividade quando se fala do país. Se existe um país que respeita as mulheres e os direitos humanos, é efetivamente a Arábia Saudita ». Para ilustrar esta questão, aborda o tema das mulheres, que, ao contrário do que se possa pensar, não são obrigadas para usar o hijab, ou estar tapadas – essa «é uma decisão da própria». Partilha ainda que metade da sua equipa é constituída por mulheres, em que a maioria é muçulmana.



