Gestão com propósito – ou “governo da alma”?

A articulação, por uma empresa, de um propósito com significado tem como objetivo que os seus membros tenham consciência de que trabalham para finalidades nobres, no seio de uma cultura saudável. Espera a empresa que daqui resulte maior dedicação das pessoas ao trabalho e superior desempenho. Infelizmente, o propósito transformou-se, em algumas empresas, num mero instrumento manipulador – uma espécie de “governo da alma” (título de um livro de Nikolas Rose). Resultado: o feitiço vira-se contra o feiticeiro.

A Wells Fargo, portentosa instituição financeira, usou vídeos com depoimentos de clientes “salvos” pelos serviços da instituição para motivar os seus empregados. Pretendia, deste modo, conferir mais significado ao trabalho das pessoas e encorajá-las a… vender mais. Simultaneamente, adotava estratégias agressivas de gestão por objetivos que encaravam a instituição com um gigantesco hipermercado de vendas. O resultado foi um enorme escândalo (e.g., muitos empregados abriram contas falsas em nome dos clientes) que custou milhares de despedimentos e centenas de milhões de dólares de multas à empresa.

O caso da WeWork, mais recente, é igualmente paradigmático. A empresa, que arrenda espaços de escritório em todo o mundo, foi fundada pelo carismático, persuasivo, grande vendedor, ambicioso e messiânico Adam Neumann. Um membro da sua equipa afirmou que “ele queria que todos soubessem que era Deus”. A sua visão de negócio era criar uma nova cultura de trabalho. E o seu propósito? Nada mais nada menos do que “Estamos aqui para mudar o mundo. Menos do que isso não me interessa”. Ao mesmo tempo, Neumann realizava festas de arromba regadas com tequila. Durante os voos num Gulfstream, avaliado em 60 milhões de dólares, fumava marijuana. Quando lançou o Project Fortitude, destinado a injetar milhares de milhões de dólares na empresa, identificou uma nova missão: “elevar a consciência do mundo”. Decorridos meses, a empresa entrou em grandes dificuldades, o Gulfstream teve que ser vendido, e Neumann perdeu a posição de CEO.

Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos (que pretendia democratizar e revolucionar o acesso a análises sanguíneas através de um miniLab e uma simples gota de sangue) também persuadia os seus empregados com a promessa de que estavam a “mudar o mundo”. Numa festa de Natal, em 2011, afirmou-lhes: “O miniLab é a coisa mais importante que o mundo alguma vez criou. Se não acreditam nisso, devem sair já”. Enganou os empregados e mais meio mundo – médicos, pacientes e investidores. Descoberta a fraude, ficou a contas com a justiça.

Daqui não deve decorrer a subestimação do propósito das empresas. A articulação de um propósito com significado pode ser uma fonte de desenvolvimento das empresas e dos seus empregados. Pode conferir maior sentido ao quotidiano de trabalho dos membros organizacionais. Pode focar as energias dos trabalhadores em ações, produtos e serviços realmente vantajosos para a sociedade, o desenvolvimento económico e outros stakeholders como clientes e fornecedores. Mas, quando há desalinhamento entre a retórica e a realidade, as narrativas em torno do propósito são uma fonte de instrumentalização com perna curta. A prazo, geram alienação e cinismo. Os empregados aparentam aderir à mensagem – mas, no seu íntimo, sofrem danos emocionais e o seu empenhamento genuíno na organização e no trabalho declina.

A retórica desconexa da prática assenta, por vezes, na convicção ingénua de que os empregados são desprovidos de inteligência e incapazes de compreender os intuitos manipuladores. Desta ingenuidade faz parte a crença no sucesso de promessas como o “salário emocional” – feitas aos trabalhadores por quem prefere o “outro” salário. Em tempos críticos como os que agora vivemos, pode ser maior a tentação de enveredar por estas estratégias desprovidas de qualquer autenticidade. Mas há razões para supor que, a prazo, elas serão perigosas e ineficazes. Têm as empresas – e a sociedade – mais a aprender com organizações que, sem alarde, prosseguem propósitos realmente nobres, no respeito pela inteligência e a dignidade das pessoas. Quem nelas trabalha sente que atua, realmente, em prol de um propósito nobre – que pode ser, simplesmente, melhorar a vida dos clientes, dos empregados e suas famílias, e da comunidade . Estes tempos são o teste ácido da gestão com propósito.


Por: Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

Artigos Relacionados: