Gestão dos Riscos Psicossociais do Trabalho e Promoção do Bem-estar dos Profissionais de Saúde

No âmbito do projeto Ecossistemas dos Ambientes de Trabalho Saudáveis (EATS) para avaliar as condições de saúde e estilos de vida dos profissionais e de que forma as organizações são ecossistemas promotores da saúde e bem-estar, esta semana na rubrica da Líder: Healthy Workplaces contamos com a reflexão de dois Hospitais um do Norte e outro do Sul do País, o Centro Hospitalar Universitário de São João do Porto (CHSJ) e o Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE).

Todas as semanas, uma organização, das mais de 40 que integram o projeto, partilha reflexões e práticas de ambientes de trabalho saudáveis em diferentes setores e atividades.

A Pandemia COVID-19 trouxe novos desafios e afetou toda a sociedade. Os hospitais e os profissionais de saúde estiveram na linha da frente na gestão da pandemia e ficaram expostos a mais riscos psicossociais no trabalho, nomeadamente, mais de stress psicológico, maior risco de burnout e muitos destes sintomas podem ter efeitos a longo prazo.

Esta semana contamos com a partilha e experiência do Professor Doutor Eduardo Carqueja e Doutor Pedro Norton do Hospital São João do Porto (CHSJ) e do Doutor João Assunção e da Enfermeira Susana Valido do Hospital de Évora (HESE) acerca das práticas e estratégias desenvolvidas para a gestão dos Riscos Psicossociais no Trabalho e promoção de Qualidade de Vida e Bem-estar dos profissionais de saúde num contexto de Pandemia COVID-19.

Caso Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ)

“O Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ) não desenvolveu apenas no decorrer da situação pandémica por COVID-19 um olhar atento e dedicado aos seus profissionais. Quando em março de 2019 surgiram os primeiros casos em Portugal e se deu início ao primeiro confinamento, o Serviço de Saúde Ocupacional e o Serviço de Psicologia tinham em desenvolvimento a avaliação dos Riscos Psicossociais (RPS) dos seus colaboradores. Naturalmente esta avaliação passou para um nível inferior de prioridade, dando lugar a uma exigência não só de avaliação, mas sobretudo de prevenção e intervenção.

Desde o dia 9 de março que o Serviço de Psicologia (SP) desenvolveu um plano de intervenção dirigido aos profissionais do CHUSJ, criando não só uma linha interna de atendimento telefónico, mas delineando um plano específico e estruturado com maior incidência inicial nos serviços de Urgência (SU) e de Doenças Infeciosas (SDI).

Nessa estratégia inicial foi enviada uma mensagem personalizada a cada colaborador do SU: «Caro colega, informo que o Serviço de Psicologia do CHUSJ disponibiliza, a partir de hoje, um canal de comunicação direto para os profissionais de saúde do SU que necessitem, pelo contexto particularmente desafiante criado pela atual situação de pandemia pelo SARS-COV-2 (COVID-19), de algum tipo de apoio ou intervenção psicológica. Se este tipo de resposta lhe fizer sentido, agora ou em qualquer outro momento durante este período de contingência, poderá contactar-me para este número, pela via mais confortável para si (chamada ou SMS). Aceite o meu sincero agradecimento pelo seu esforço e dedicação. Estarei ao dispor, caso necessite. XXXXXXX, Psicólogo (Serviço de Psicologia, CHUSJ)».

Sendo esta situação pandémica decorrente de uma ameaça nova para todos, quer na forma quer no conteúdo, fez com que os modelos tradicionais de intervenção em crise tivessem de ser reavaliados e ajustados para uma maior eficácia.

O SP construiu o modelo de intervenção denominado de APL – Antecipar, Planear e Lidar, adaptado do modelo APD – Anticipate, Plan and Deter, de Merri Schreiber (2014), com o objetivo de maximizar a resiliência dos profissionais de saúde, apoiando-os na monitorização do stress e na identificação de recursos de coping/resiliência face a situações stressoras. Este modelo permitia avaliar os fatores de exposição ao stress, os níveis de stress e de sintomatologia ansiosa e depressiva e identificar fatores de resiliência. Os profissionais de saúde tinham acesso ao questionário APL de modo online, colocado na intranet do CHUSJ ou distribuído pessoalmente em papel (foi construído um tríptico com o questionário). Esta informação possibilitava compreender as dificuldades sentidas pelos profissionais face à necessidade de se manterem ativos e funcionais na atual situação pandémica que os expunha a elevados níveis de stress e, sobretudo, possibilitava que cada profissional de saúde elaborasse o seu próprio plano de resiliência para lidar com as adversidades antecipadas.

Os profissionais de saúde que responderam a este questionário apresentaram como reações esperadas ao stress, confusão mental e irritabilidade como os sintomas mais referidos, seguidos de tristeza e preocupação, cansaço, alterações do sono, isolamento, dores musculares e alterações de apetite.

Ao nível dos desafios esperados relativamente aos aspetos mais stressantes de trabalhar durante a pandemia, os participantes identificaram a exigência do trabalho e a falta de reconhecimento como os principais desafios. Nesta lista, identificaram-se também como desafio a possível contaminação pelo vírus (do próprio ou outros), a falta de condições de trabalho, novas responsabilidades no trabalho e possível afastamento da família.

Ao nível do plano pessoal de suporte, os participantes listaram como parte do seu sistema de suporte social a família, os amigos, colegas de trabalho e profissionais de saúde.

Em relação às estratégias de coping a que os participantes recorrem, a maioria identificou como principais tarefas a realização de atividades agradáveis (como estar com aqueles de quem gosta, visitar o mar, ler ou ouvir música) e limitar a informação recebida acerca da pandemia através dos meios de comunicação social. Foi mencionado também como estratégia afastar-se do local de trabalho durante as pausas, praticar exercício físico e uma alimentação saudável e introduzir momentos de relaxamento no seu dia-a-dia (como visitar a capela do hospital).

Os participantes identificaram como fatores positivos que pudessem dar-lhes um sentido de propósito após a pandemia a sua missão de ajudar o outro e salvar vidas, o reconhecimento recebido por parte dos pacientes ou colegas de trabalho e a entreajuda entre colegas.

Complementarmente, o Serviço de Saúde Ocupacional (SSO) do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ) desenvolveu, em parceria com o Serviço de Psiquiatria um protocolo de intervenção de saúde mental nos profissionais de saúde do CHUSJ, no contexto da pandemia por COVID-19, com três níveis distribuídos de acordo com o grau de intervenção no combate à situação em causa:

O primeiro nível estava acessível a todos os colaboradores do CHUSJ, através da instalação da aplicação Myndpal (obtida gratuitamente no Google Play, AppStore ou na versão web). Esta aplicação permitia monitorizar os sintomas de perturbação mental sinalizando os casos de risco ao Serviço de Saúde Ocupacional (SSO) que, caso fosse necessário e o profissional aceitasse, poderia disponibilizar atendimento psiquiátrico.

O segundo nível foi dedicado aos colaboradores que evidenciaram stress emocional em consulta não programada do SSO, sendo posteriormente referenciados (num prazo máximo de 48h) para um psiquiatra da equipa.

O terceiro nível estava disponível aos colaboradores que intervinham diretamente na linha da frente de combate ao COVID-19 a exercer funções nos serviços de doenças infeciosas, cuidados intensivos, na área de urgência COVID-19, chefes de serviço e coordenadores em outras áreas. O atendimento neste caso poderia ser feito através de contacto telefónico com um psiquiatra entre as 9 e as 18h sete dias por semana.

Os casos acompanhados neste âmbito provieram na sua maioria da aplicação móvel e eram principalmente do sexo feminino. Os sintomas reportados mais comuns foram a ansiedade, insónia, alimentação compulsiva, anedonia e dificuldades de concentração. Os fatores desencadeantes mais frequentes foram a alteração da rotina diária, do horário de trabalho, a sensação de medo e insegurança associados à realocação a locais de trabalho com maior risco de exposição ao SARS-CoV2 e a incerteza no futuro combinados não raras vezes com outros life events tais como a morte de um familiar.

Durante a última década, a Agência Europeia para a segurança e saúde no trabalho tem chamado a atenção para as mudanças nos contextos profissionais que têm exacerbado os riscos psicossociais. A pandemia atual veio acelerar essa mudança. Os profissionais de saúde foram um grupo profissional particularmente exposto a este tipo de risco ocupacional. O stress, o aumento da carga horária, o trabalho por turnos, o elevado número de doentes internados, o tratamento de casos particularmente graves, a elevada mortalidade e a incerteza quanto à evolução futura da pandemia, tiveram várias consequências sobre a saúde e qualidade de vida destes trabalhadores.

Na gestão da pandemia, e no que ao controlo dos riscos psicossociais diz respeito, o Centro Hospitalar Universitário S. João optou por uma estratégia multidisciplinar, combinando a ação conjugada de  serviços basilares (Psicologia, Psiquiatria e Saúde Ocupacional), em todos os tipos de prevenção (primária, secundária e terciária) evitando a doença, reduzindo as suas consequências e prevenindo a recaída  Esta estratégia, complementarmente às medidas de controlo de infeção instituídas, à vigilância da saúde dos trabalhadores (através do diagnóstico precoce de casos e respetivo isolamento, rastreios de contactos agressivos, testagem em massa de doentes e profissionais de forma periódica e mais recentemente de uma ampla campanha de vacinação contra a COVID-19), permitiram a manutenção da saúde dos seus trabalhadores e da coesão social na instituição, traduzida muito especialmente na quantidade e qualidade dos cuidados de saúde prestados não só aos doentes COVID mas também a todos os outros”.


 

 

 

 

 

Por Eduardo Carqueja, Diretor do Serviço de Psicologia do CHUSJ e Professor convidado da FM/Universidade do Porto & Pedro Norton, Diretor do Serviço de Saúde Ocupacional do CHUSJ e Assistente Convidado da FM/Universidade do Porto

Caso Hospital do Espírito Santo de Évora

“O Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE), Hospital Central do Alentejo, caracteriza-se por uma resposta assistencial diferenciada, atempada e de qualidade que atua de forma complementar com as restantes unidades de saúde a região Alentejo. A sua área de influência direta (cerca de 150 mil habitantes) corresponde ao Alentejo Central, sendo que a indireta (cerca de 314 mil habitantes) corresponde ao Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Alentejo Litoral.

O HESE, no âmbito no desenvolvimento da sua missão, procura desde sempre dotar os seus profissionais das melhores condições de trabalho, relevando a importância do equilíbrio entre a vida pessoal e familiar e as exigências profissionais. Nesse sentido, a proposta de participação no Projeto Healthy Workplaces, promovido pela Universidade Lusíada com a coordenação da Dra. Tânia Gaspar, foi encarada como uma excelente oportunidade de, por um lado, avaliar a instituição e perceber a perspetiva dos nossos colaboradores, e, por outro lado, sensibilizar para as questões relacionadas com ambientes de trabalhos saudáveis.

A pandemia COVID-19 colocou em causa muitos dos pressupostos que tínhamos como garantidos até ao momento e implicou novos desafios e exigências às organizações de prestação de cuidados de saúde. No caso concreto do HESE, obrigou a um esforço notável de transformação e adaptação das suas instalações (num prazo que superou todas as expectativas), por forma responder às necessidades específicas e de isolamento dos doentes infetados com o SarsCov-2, sem nunca perder a capacidade de resposta aos doentes não COVID-19 considerados urgentes e inadiáveis. Esta transformação é ainda mais assinalável se atendermos ao facto de ter sido realizada num Hospital cujas instalações se encontram envelhecidas, desadequadas e com elevado grau de obsolescência.

Com efeito, todos estes esforços, a que os colaboradores responderam de forma absolutamente excecional, cedo permitiram percecionar que a pandemia COVID-19 provocaria profundas alterações organizacionais, com impactos na gestão dos riscos psicossociais em contexto de trabalho, com reflexos na saúde e bem-estar em todas as pessoas que constituem a instituição, pelo que o HESE procurou ir ao encontro às necessidade especificas dos seus colaboradores, através da implementação de medidas adicionais de apoio aos trabalhadores, como por exemplo, a linha PSI SOS, uma linha de apoio psicológico e emocional exclusiva aos profissionais do HESE e às suas famílias, salvaguardando o bem-estar e a saúde mental dos mesmos.

Por todos estes motivos, é nossa convicção que o presente estudo permitirá, não só percecionar o real impacto em matéria dos riscos psicossociais, como dotar o HESE de instrumentos que melhorem o seu investimento na saúde e qualidade de vida dos seus colaboradores em contexto laboral, contribuindo, desta forma, para a melhoraria contínua da prestação de cuidados e dos ganhos em saúde”.

Por João Assunção, Administrador Hospitalar no Hospital do Espírito Santo de Évora & Susana Valido, Enfermeira especialista em Políticas de Administração e Gestão de Serviços de Saúde

 

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