«Um líder que vive o amor como critério de gestão é paciente, é prestável, não é invejoso, não é arrogante, nem orgulhoso. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. E no final, é este o critério que fica, o carácter que fica e sem isto o resto nada vale.»
Quem o afirma é António Pinto Leite no seu livro O Amor como Critério de Gestão, o tema que deu o mote para o segundo encontro do The Authors Table, o clube de leitura que junta líderes de empresas e organizações, entre outras personalidades, numa iniciativa da Tale House e da revista Líder.
João Pedro Tavares, Administrador não executivo do Santander Portugal e líder da Uniapac Europa, a Associação internacional de empresários e gestores cristãos, foi o convidado desta edição. Num momento que também contou com a presença do autor da obra em conversa com Rita Sambado, a que se juntou Catarina Guerra Barosa, fundadora do Festival Espanto.
O amor nas organizações
No verão de 2012 foi lançada a primeira edição da obra, numa época em que, tal como Catarina Barosa refere, o amor no mundo da gestão era ainda um tema pouco falado.
«Agrada-me a forma como o livro começa, com uma interrogação, seguida de um espanto: ‘Como é possível, interroguei-me, um cristão ter descoberto o amor como centro vital da ética, da economia e da vida empresarial tão tarde e tão por acaso? Quem se esqueceu de mim? De quem me esqueci?’», referindo-se a uma passagem do livro.
O espanto de António Pinto Leite, decorre da frase de Dietrich Bonhoeffer: «o centro vital da ética cristã é o amor», que também é usado como ponto de partida para o início da conversa. «Há espaço para o amor numa sociedade de alto rendimento?»
João Pedro Tavares é perentório: «A resposta é sim!». Falar sobre um livro que transformou a sua vida pareceu-lhe fácil quando «tudo o que fiz, liderar organizações, foi precisamente o amor como critério de gestão, porque foi aquele que mais me desafiou e que mais me levou à prática». Outro critério na base da escolha do livro, é o facto de considerar António Pinto Leite, «não autor do livro, mas o instrumento».
«Este livro nasce desta docilidade de coração que ele tem, que se atira para fora de pé, sem medos e sem receios e que vai a jogo, e em que se apresenta como pessoa e não apenas como profissional», partilha.
E ainda, João Pedro Tavares reformula e devolve a pergunta: «há espaço para o amor numa sociedade de alto rendimento?» O alto rendimento é cada vez mais evidente, a competitividade mais forte, o que marca uma diferença entre 2012 e 2026 abrindo mais espaço para o amor. Uma das descobertas que João Pedro Tavares fez, à luz desta leitura, foi a de que não tinha de competir com mais ninguém senão consigo próprio.
«Este livro é para mostrar uma luz, um caminho e desfazer alguns enganos. É um engano dizer que o mais importante é ficar em primeiro – o ser primeiro é altamente temporário, efêmero. Tenho quatro filhos, são completamente diferentes. Uns conseguem ficar em primeiro, outros não conseguem. Nós temos de educá-los para a felicidade. E não há outra maneira de educar para a felicidade senão com o amor como critério de vida.»
O autor como um canal
António Pinto Leite partilha com a audiência a história do início da escrita: «Este é um livro que arrancou parte da minha carne, da minha vida», reflete. Na organização do Congresso da ACEGE, em 2009, com o desafio de apenas oito minutos disponíveis para as palavras de abertura, e ainda escrita da coluna semanal do Expresso, acabou por ter um ‘bloqueio’. «Era um vácuo, um deserto».
Ao ver-se confrontado com a situação, sendo uma das suas ferramentas, retira um livro, ao calhas, da prateleira da sua Biblioteca. Calha um livro de Dietrich Bonhoeffer, um famoso teólogo e filósofo. «Sai-me uma página muito religiosa, pensei, ‘vou buscar outro livro’, mas ainda abro outra página, no mesmo livro, onde estava a frase: ‘O amor é o centro vital da ética cristã’». A frase ressoou, fez-lhe sentido, e foi a partir desse momento que o então advogado se questionou ‘porquê’? «Fiquei aflito. Como é que eu vou falar de amor, para quatrocentos pessoas?».
A questão seria como aplicar essa afirmação, que lhe parecia evidente, ao mundo do alto rendimento, machão e virilizado da gestão. Outra questão surgia: «Porque Deus insistia comigo? Eu sou uma pessoa de liberdade, e também sou uma pessoa de coragem, mas aqui não é preciso coragem, aqui só é preciso liberdade e desassombro.»
Após tomar a decisão de escrever o livro, em 2012, decide que o tema do Congresso da ACEGE, seria ‘o amor como critério de gestão’, sabendo ser à partida um ‘tema polémico’, mas que todos acabaram por aceitar ‘de coração’. Ficando mais tarde reforçado pela incorporação de o amor como critério de gestão, no código de ética da ACEGE, a partir da publicação do livro.
Rita Sambado, questiona: «O que mudou depois disso?» Para António Pinto Leite mudou quase tudo, pela facilidade de ter um critério ético na gestão e do conjunto vivido de experiências positivas que daí resultam. Catarina Barosa reforça, tal como está refletido no livro, tratar-se de «uma experiência química com impactos espirituais, económicos, éticos e existenciais. Uma experiência transversal, mística.

Modificação genética do conceito de lucro
Através do livro, João Pedro Tavares, aborda também a questão de o lucro ter uma dimensão não estritamente financeira, mas imaterial. Na prática empresarial, é possível uma gestão assente no princípio orientador do amor com valor.
Historicamente, e juridicamente, dividimos o mundo entre organizações com fins e sem fins lucrativos, o que, à luz de hoje, afirma ser «um enorme erro». «O lucro é essencial para a sustentabilidade das empresas, há que gerar resultados positivos, mas não é um fim em si mesmo, é com vista a um propósito maior», partilha. E tal é possível a partir da criação de uma linguagem única, de criação de valor e de distribuição de forma justa, seja para uma ONG ou numa empresa com fins lucrativos.
Quando questionado sobre a forma de lidar com a ‘resistência’ e à forma de implementar um conceito que, à partida, parece tão simples, João Pedro Tavares adverte: «Temos de materializar, não está no nosso core card. Aliás, não se mede. O amor é como o vento, não se vê, mas vê-se os efeitos. Vê-se os efeitos nas organizações, nas pessoas, na realização pessoal, na felicidade, nos resultados, no compromisso. Aliás, no livro o António refere-se a líderes humanizados, geram empresas humanizadas…», e tudo isto depois vem em ondas de choque.
Catarina Barosa relembra o teste feito pelo autor aos alunos de MBA. «Líderes humanizados fazem organizações humanizadas. Organizações humanizadas fazem pessoas felizes. Pessoas felizes fazem empresas produtivas. Empresas produtivas fazem uma economia competitiva. Uma economia competitiva faz uma sociedade justa”. Mas aqui alguns começaram a discordar. Competição é necessária, mas não é condição essencial. E o autor reformulou a frase: «Uma economia competitiva é condição necessária para uma sociedade justa».
Ao terminar, é pedido a ambos os convidados uma definição de amor que possa ser usada em 2026 nas organizações.
Para António Pinto Leite, a resposta está descrita na Bíblia, na velha máxima, ‘ama o outro como a ti mesmo’, o que no mundo da gestão, em operação diária, na vida, entre amigos, e nas famílias, significa, ‘trata o outro, como gostarias de ser tratado se estivesses no lugar dele, e com a informação que dispomos’.
Para João Pedro Tavares, a palavra ‘amor’ é das mais «maltratadas que existem», e acrescenta: «Este amor a que estamos chamados é mais do que respeito. É descentrar-me de mim mesmo, é querer melhor aos outros, é promover o bem comum, é promover um bem que não é pessoal, vai para lá de mim, é respeitar a casa comum. É promover empresas fratelli tutti, o que não é impossível, nós sabemos que elas existem».


