Há quarentenas e quarentenas?

A celebração do 25 de abril. Escute-se Manuel Alegre e o assunto torna-se um não-assunto: “estou em reclusão, mas estar em casa também é uma forma de resistência”. A celebração da liberdade no âmbito do regime excecional de funcionamento do Parlamento tem um duplo valor simbólico: (1) celebrar a liberdade e (2) fazê-lo em linha com as restrições impostas ao povo pelo próprio Parlamento. A democracia é isso: aceitar que a lei está acima de todos e que as regras contam para todos. Juntar mais pessoas do que as que mantêm o funcionamento parlamentar normal neste tempo excecional seria um mau exemplo. Isso inclui, naturalmente, possíveis convidados: em tempo de isolamento não se fazem convites. E imagine-se que um-deputado/convidado-um acusava positivo. O que se diria da iniciativa?

Começa aliás a parecer que o isolamento social se vai processando a velocidades distintas. Antes de maio, nada! Eppur … A comitiva do Ministro da Administração Interna a Ovar, este fim-se-semana, constituiu um estranho momento. Uma vintena de pessoas, segundo a reportagem televisiva passeava-se pela cidade sem aparentes cuidados com a distância social. E a conferência de imprensa ao estilo habitual (isto é, com um friso de “personalidades” com máscaras atrás do ministro, devidamente identificado na viseira), constituiu uma visão inusitada: o que foi todo este grupo fazer a Ovar?

Se se quer: (1) manter as pessoas confinadas até maio, (2) abrir com cautela a partir daí, (3) mantendo algum controlo social durante o Verão com acesso limitado às praias em agosto, convém que não sejam dados os sinais errados. Porque não é possível em democracia prender umas dezenas por desobediência, ao mesmo tempo que se pratica a desobediência à vista de todos. A não ser que, como no caso da quinta de Orwell, os animais sejam todos iguais mas uns animais sejam mais iguais que outros.


Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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