Histórias de derrota, de Napoleão a Thatcher

Na vitória, a maior parte de nós sorri e por vezes chora de alegria. Já a derrota traz um repertório maior de respostas, do protesto ao lamento. Num artigo que pretende ser uma história curta dos falhanços, a revista “1843”, da família da The Economist, faz uma análise a algumas derrotas famosas.

Cleópatra (30 a.C)
Para um monarca no Império Romano, a derrota após a rebelião era seguida de uma marcha pelo “passeio da vergonha.” Em termos práticos, tratava-se de transportar o vencido para a capital imperial, numa procissão pelas ruas, e acabar a ser entregue para ser executado no Tullianum, a masmorra da prisão pública de Roma. Depois, começava a festa no Templo de Júpiter.
A trágica história de amor entre Marco António e Cleópatra cativou o mundo durante séculos. O general romano, devastado pela dor e vergonha após a sua derrota na Batalha de Actium (31 a.C.) pelas mãos do seu inimigo Augusto, acabou por ser vítima da sua própria espada ao receber falsas informações de que Cleópatra, a rainha do Egito, também tinha morrido.
No entanto, Cleópatra ainda estava viva: ela tinha-se escondido no seu túmulo, para onde António foi levado depois de se ter ferido com a espada, acabando por morrer nos braços da sua amante.
Para não cair sob a vergonha do domínio romano, Cleópatra, envolta em suntuosas pérolas, ouro, prata e inúmeros tesouros egípcios, suicidou-se, possivelmente com a ajuda da picada de uma cobra. O seu corpo foi mumificado e, por ordem do imperador Augusto, enterrado ao lado de António. Mas a localização do túmulo de Cleópatra continua um enigma há centenas de anos.
Cerca de 16 séculos depois, William Shakespeare escreveu na peça António e Cleópatra: “Nenhuma sepultura na Terra trará um casal tão famoso.” Trata-se de um argumento sobre o suicídio de Cleópatra como algo mais rico do que a própria vitória do imperador Octavius Caesar.

Napoleão Bonaparte (1815)
Na manhã anterior à Batalha de Waterloo, Napoleão dizia: “Digo-vos que Wellington é um mau general”, e “Isto nada mais é do que tomar o pequeno-almoço.”
Alguns dias mais tarde, Napoleão estaria em Paris a redigir uma carta de desculpas ao Príncipe Regente. “Uma vítima das fações que distraem o meu país”, escrevia, “terminei a minha carreira política.”
Napoleão planeou desaparecer para a América e já tinha escolhido a sua roupa de linho, as suas armas de caça e um pseudónimo: Coronel Muiron. Será que George, perguntou ele, estaria disposto a facilitar-lhe uma reforma respeitável? Pelos vistos não estava. Em vez disso, Napoleão foi obrigado a aceitar um amável convite para morrer no exílio a 1200 milhas da costa ocidental de África.
O vencedor de Waterloo mostrou uma sabedoria mais tranquila: “Sou miserável mesmo no momento da vitória”, escreveu o Duque de Wellington. “Eu digo sempre que ao lado de uma batalha perdida a maior miséria é uma batalha ganha.”

John McEnroe (1980)
John McEnroe foi apanhado numa foto que ficou famosa enquanto protestava contra uma decisão durante os campeonatos de ténis de Wimbledon em 1980. Um diálogo mal-humorado nos campeonatos do ano seguinte fê-lo ficar conhecido pela frase “não pode estar a falar a sério” e uma discussão sobre uma bola.
Apesar do ridículo, McEnroe, o mais doloroso dos perdedores, foi adorado. Na sua carreira, foi autoritário, mas também foi mimado. E no caso daquela bola, diz Matthew Sweet, o jornalista da revista “1843”, ele pode ter tido razão.

Eddie the Eagle (1988)
Em 1988, um desportista de ski britânico, Michael “Eddie the Eagle” Edwards, era um esquiador de descidas falhado, que começou a fazer saltos de ski porque a modalidade não tinha outros concorrentes britânicos sérios. Conseguir a acreditação olímpica foi fácil. “Como também foi fácil chegar em último lugar na maior parte dos campeonatos em que participava”, acrescenta Matthew Sweet.
Durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Calgary, em 1988, “os espectadores sentiram a magia simpática da sua alegre imprudência.” Nesse ano, Matti Nykänen, o “finlandês voador”, monopolizou o ouro dos saltos de esqui. Vendeu as suas medalhas, casou seis vezes – duas vezes com a mesma mulher – e morreu em 2019 com a idade de 55 anos. Edwards, que ainda está muito vivo, foi objeto de uma biópsia em 2016. E foi o 15.º filme britânico de maior sucesso nesse mesmo ano, em 2016. Veja aqui o trailer de Eddie the Eagle.

Margaret Thatcher (1990)
Em “The Iron Lady”, Meryl Streep interpretou a saída de Margaret Thatcher de Downing Street como uma grande ópera. Um sorriso melancólico, um aceno silencioso perante um coro de trabalhadoras de escritório chorosas. Mas a figura apanhada pelas câmaras de imprensa, em que se vê a ex-Primeira Ministra britânica com lágrimas nos olhos, não é representada.

Tonya Harding (1994)
O conto de Tonya Harding sobre patinagem artística tinha folhos e frou-frous, tal como uma protagonista feminina, e lâminas afiadas. Mas não foi Harding quem bateu no joelho da sua rival, Nancy Kerrigan, a fim de melhorar as suas hipóteses nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1994. Esse foi o trabalho do ex-marido de Harding, mas não funcionou.
Kerrigan foi para casa com prata, Harding terminou em oitavo lugar – e quando a conspiração foi descoberta, recebeu uma proibição vitalícia de praticar desporto. Mas ao declarar-se culpada de obstruir a investigação, o seu nome tornou-se uma palavra de ordem para o mau desportivismo.
Tonya Harding apareceu no concurso de televisão “Dançando com as Estrelas” e contou aos entrevistadores sobre a violência na sua vida doméstica. Mas apenas com o documentário biográfico “I, Tonya” de 2017 levou a vitória para casa. Os meios de comunicação social e o público não se importaram muito com a sua derrota ou vitória: apenas a queriam como personagem no desfile – perversa, ferida, com lantejoulas, armazenada.

Ariadna Gutiérrez (2015)
Não devia ter acontecido, mas aconteceu. Devido ao descuido de Steve Harvey no concurso Miss Universo em 2015, a modelo Ariadna Gutiérrez tornou-se um exemplo de perda, do tipo que só se encontra nas cartas de Tarot.
Como tudo aconteceu? Harvey disse o nome do país vencedor. Gutiérrez chorou, acenou para a multidão, fez o sinal de paz com as mãos. O seu vestido de ouro rosa cintilava. Recebeu um grande arranjo de flores, a tiara Miss Universo e uma pequena bandeira de papel do seu país natal.
Quando Harvey voltou para confessar que tinha lido o nome errado, a miss ficou perplexa. “Nas imagens, vê-se ela a tentar calcular os novos dados e tal realização movia-se dentro dela como veneno frio.” Depois da cerimónia, Ariadna Gutiérrez confessou ter sentido humilhação. Mas isso não é visível nas filmagens.

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