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Home Entrevistas «Hoje a engenharia civil não consegue atrair: é uma profissão que perdeu espaço e alguma credibilidade», explica Nuno Garcia

Entrevistas

«Hoje a engenharia civil não consegue atrair: é uma profissão que perdeu espaço e alguma credibilidade», explica Nuno Garcia

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27 Maio, 2026 | 12 minutos de leitura

A construção em Portugal enfrenta uma das maiores crises de mão de obra das últimas décadas. Estimativas do setor apontam para uma falta de cerca de 80 mil trabalhadores, num contexto em que 83% das empresas da construção e imobiliário dizem ter dificuldades em contratar talento qualificado, segundo dados recentes do ManpowerGroup.

A escassez atravessa toda a cadeia — da mão de obra menos qualificada aos engenheiros civis — e já está a ter impacto direto nos prazos, nos custos e na qualidade das obras, num momento em que o país enfrenta uma crise de habitação sem precedentes.

Em entrevista, Nuno Garcia, fundador e diretor-geral da GesConsult, empresa especializada em fiscalização e gestão de projetos de construção, explica porque é que o setor nunca recuperou verdadeiramente da crise de 2008, fala da perda de atratividade da engenharia civil, da dependência crescente de quadros estrangeiros e deixa um aviso: «Portugal não tem falta de projetos. Tem falta de capacidade para os executar ao ritmo de que o país precisa.»

A escassez de engenheiros na construção em Portugal é apenas um problema de falta de pessoas ou é também o sintoma de um setor que deixou de conseguir atrair e reter talento qualificado?

É claramente as duas coisas. Há falta de pessoas, mas essa falta resulta de um problema estrutural muito mais profundo, que o setor foi acumulando ao longo dos últimos quinze anos.

A construção sofreu violentamente com a crise de 2008. Houve uma quebra abrupta de investimento, muitos projetos desapareceram e milhares de profissionais ficaram sem perspetivas. Isso levou muita gente a abandonar completamente a área. Muitos colegas emigraram, outros mudaram de setor e muitos jovens deixaram de olhar para a engenharia civil como uma opção de futuro.

O que estamos a viver hoje é precisamente o reflexo desse período. Há uma geração inteira de engenheiros que saiu da construção e nunca mais voltou. E depois há outra consequência ainda mais grave: os jovens deixaram de entrar.

Hoje, os cursos de Engenharia Civil já não conseguem preencher os números clausus como acontecia antigamente.

Em muitos casos, esses números até foram reduzidos. Portanto, o funil começou a estreitar há muitos anos e agora estamos a sentir o impacto dessa quebra de forma muito evidente.

E isto não afeta apenas as empresas. Afeta a capacidade de resposta do país. Afeta a velocidade a que conseguimos construir habitação, executar infraestruturas ou responder a necessidades públicas.

Portugal continua a ter obras, investimento e procura. O problema é que começa a faltar capacidade humana para responder ao volume necessário.

A imigração de engenheiros e técnicos estrangeiros já deixou de ser uma solução temporária e passou a ser estrutural?

Neste momento, é claramente estrutural. Aliás, arrisco dizer que, sem os profissionais estrangeiros, uma parte significativa do setor teria enormes dificuldades em continuar a crescer ao ritmo atual.

No caso da GesConsult, por exemplo, nós temos tido crescimentos anuais acima dos dois dígitos. Esse crescimento seria impossível apenas com os recursos humanos disponíveis no mercado nacional. Simplesmente não existem engenheiros suficientes em Portugal para acompanhar a procura.

Os colegas que vieram do Brasil têm sido fundamentais nesse equilíbrio. E não estamos apenas a falar de engenheiros. Isto acontece também ao nível da mão de obra especializada e menos qualificada.

Agora, é importante perceber uma coisa: isto resolve um problema imediato, mas não resolve a raiz do problema. A solução de longo prazo passa inevitavelmente por voltar a atrair jovens portugueses para a engenharia civil e para a construção.

E para isso o setor tem de recuperar prestígio, credibilidade e capacidade de sedução. Durante muitos anos, a construção perdeu imagem. Deixou de ser vista como um setor moderno, inovador e valorizado. Isso teve consequências muito profundas.

Hoje temos de fazer quase um trabalho de reconstrução da reputação do setor.

Portugal está preparado para integrar equipas técnicas internacionais em obras complexas?

Tem vindo a adaptar-se, mas não é um processo simples. Mesmo quando falamos de profissionais brasileiros, com quem partilhamos a língua, existem diferenças culturais, técnicas e até diferenças na própria forma de trabalhar.

Há uma fase de integração que é absolutamente essencial. As pessoas precisam de perceber como funciona o setor em Portugal, como funcionam os processos, quais são as exigências técnicas e até a cultura organizacional das empresas.

E isso aplica-se tanto aos quadros superiores como à mão de obra operacional.

Muitas vezes fala-se desta questão apenas ao nível dos engenheiros, mas a escassez é transversal. Também falta mão de obra especializada nas obras e aí as diferenças de métodos construtivos e exigência técnica tornam-se ainda mais evidentes.

Ninguém chega de fora e começa imediatamente a produzir ao nível esperado sem passar por esse período de adaptação.

Além disso, voltámos agora a sentir algumas dificuldades burocráticas na entrada de profissionais estrangeiros. No caso dos brasileiros, por exemplo, os vistos já exigem frequentemente contratos prévios e isso torna o processo mais lento e mais complexo.

E essa adaptação prévia é importante. É muito mais fácil integrar alguém que já teve algum contacto com o país, com a cultura e com a realidade do setor português.

Que impactos concretos esta escassez já está a provocar nas obras?

Os impactos são muito claros e sentem-se diariamente no terreno. Estamos a falar de atrasos, aumento de custos e perda de qualidade. Tudo ao mesmo tempo.

Quando existe escassez de mão de obra, o mercado deixa automaticamente de conseguir ser tão exigente na seleção. As empresas acabam por absorver praticamente todos os recursos disponíveis e isso significa que nem sempre se consegue garantir os mesmos níveis de qualidade.

Depois começam a surgir os problemas típicos: trabalhos mal executados, necessidade de refazer tarefas, perda de eficiência e aumento de custos operacionais. Ou seja, faz-se mal à primeira, corrige-se à segunda. Acaba por ter consequências diretas nos prazos e no orçamento das obras.

Depois há outro fator inevitável: quando existe pouca oferta de profissionais e a procura continua elevada, os custos sobem naturalmente. Isso acontece tanto com engenheiros como com equipas de obra.

Portanto, quando falamos de escassez, estamos a falar de um problema que afeta simultaneamente prazo, custo e qualidade — os três pilares fundamentais de qualquer projeto de construção.

Há projetos que já não avançam por falta de equipas técnicas?

Eu diria que o setor tem conseguido adaptar-se e encontrar soluções para evitar esse cenário extremo.

A construção é um setor muito resiliente. Quando existem dificuldades, as empresas acabam por procurar alternativas: recorrem a equipas internacionais, mudam métodos construtivos, apostam mais em pré-fabricação ou reorganizam recursos.

Por isso, eu não diria que os projetos deixam pura e simplesmente de acontecer. O que acontece é que muitos demoram mais tempo a arrancar ou mais tempo a concluir.

Uma obra que podia começar daqui a um mês pode acabar por arrancar apenas daí a três ou quatro meses porque não existe capacidade imediata para responder.

E depois há outra realidade importante: muitas empresas estão a crescer acima daquilo que o mercado de trabalho consegue acompanhar. Portanto, a pressão sobre os recursos humanos é enorme.

O que afastou os jovens da engenharia civil nas últimas duas décadas?

A crise foi devastadora para a imagem da profissão. Quase toda a minha geração teve de emigrar para conseguir trabalhar. Angola, Brasil, países nórdicos… muita gente teve de sair do país para exercer engenharia civil, o que marcou profundamente o setor.

Depois houve muitos colegas que mudaram completamente de área porque deixaram de acreditar que a construção lhes pudesse dar estabilidade e perspetivas de carreira e nunca recuperámos totalmente dessa quebra.

Ainda assim, nós também falhámos na forma como comunicámos a importância da engenharia civil para a sociedade.

Quando há cheias, sismos, tempestades ou crises de habitação, quem está na linha da frente para resolver esses problemas são os engenheiros civis. Mas o setor nunca conseguiu transmitir isso para o exterior.

Nunca conseguimos mostrar aos jovens que esta é uma profissão absolutamente central para o funcionamento das cidades e do país.

As próprias ordens profissionais estiveram durante muito tempo demasiado fechadas sobre si próprias. Só recentemente começou a existir uma maior abertura e uma preocupação mais forte em comunicar.

Hoje os jovens procuram mais do que salários?

Sem dúvida. Hoje os jovens procuram propósito, equilíbrio e identificação com aquilo que fazem.

Claro que a questão salarial continua a ser importante — e durante muitos anos os salários da engenharia civil estiveram completamente desajustados — mas isso já não chega.

As novas gerações querem sentir que fazem parte de algo relevante. Querem trabalhar em temas ligados à sustentabilidade, às cidades inteligentes, à habitação, à eficiência energética.

E a engenharia civil tem tudo isso. O problema é que muitas vezes o setor não consegue comunicar essa dimensão transformadora.

Ao mesmo tempo, as empresas também têm de evoluir. Hoje já não basta oferecer salário. É preciso oferecer boas condições, benefícios, formação contínua, seguros de saúde, flexibilidade e uma cultura organizacional forte.

As pessoas precisam de sentir que pertencem a uma organização com propósito e que estão a crescer profissionalmente.

As universidades estão a formar menos engenheiros?

Muito menos. A quebra é brutal. Antes da crise existiam muitos mais cursos e muitos mais alunos. Havia também um papel muito importante dos politécnicos e institutos técnicos na formação de engenheiros.

Hoje muitos desses cursos desapareceram. E mesmo nas universidades de referência, como Coimbra, Técnico, FEUP, Minho ou Aveiro, o número de alunos caiu drasticamente.

Quando entrei em Engenharia Civil em Coimbra éramos cerca de 145 alunos por ano. Hoje esse número ronda os 45. Estamos a falar de uma redução para praticamente um terço. Tem consequências inevitáveis a médio prazo. Hoje estamos precisamente a sofrer com a ausência desses engenheiros que nunca chegaram a formar-se.

A inteligência artificial e a digitalização podem compensar esta escassez?

Vão transformar profundamente o setor, mas não acredito que substituam os engenheiros.

A construção tem uma particularidade muito própria: cada obra é praticamente um protótipo único.

Não estamos a falar de produção em série como acontece na indústria automóvel.

Uma ponte, uma barragem, um hospital ou um edifício têm sempre especificidades únicas. Cada projeto traz desafios próprios e problemas diferentes.

Isso faz com que a capacidade técnica, a experiência e a tomada de decisão humana continuem a ser fundamentais. Claro que a inteligência artificial vai automatizar processos, melhorar planeamento, análise de dados e gestão documental. Mas, ao mesmo tempo, vai exigir profissionais ainda mais qualificados.

Portanto, eu diria que a tecnologia não elimina a necessidade de engenheiros. Obriga é a que os engenheiros sejam cada vez mais preparados.

Como imagina a engenharia civil em Portugal daqui a dez anos?

Muito mais tecnológica, mais colaborativa e mais industrializada. Vamos trabalhar de forma muito mais integrada entre projetistas, fiscalização, empreiteiros e promotores.

Acredito também que a construção offsite e a pré-fabricação vão crescer muito, precisamente porque permitem reduzir dependência da mão de obra tradicional, aumentar controlo de qualidade e acelerar prazos de execução.

E depois há temas que vão dominar completamente o setor: sustentabilidade, eficiência energética, descarbonização e cidades inteligentes. Daqui a dez anos, esses temas vão fazer parte do quotidiano da construção. Não serão diferenciação. Serão exigência básica.

O país tem capacidade para responder às metas da habitação pública e acessível?

O principal bloqueio nem sequer está na capacidade construtiva. Está antes disso.

O grande problema está em transformar intenções políticas em projetos executáveis. Identificar terrenos, aprovar licenciamentos, garantir financiamento e conseguir avançar para obra continua a ser extremamente lento.

A burocracia continua a ser um dos maiores travões do setor.

Fala-se muito de habitação acessível, mas depois os processos demoram demasiado tempo até chegar ao terreno.

Se pudesse escolher uma única medida estrutural para resolver parte destes problemas, qual seria?

Desburocratizar. Sem dúvida nenhuma. Portugal precisa de conseguir passar da ideia para a execução de forma muito mais rápida.

Temos ouvido falar durante anos de Simplex, agilização de licenciamentos e medidas para acelerar a habitação, mas a verdade é que ainda existe um enorme bloqueio administrativo. Enquanto isso não mudar, vamos continuar a perder tempo, investimento e capacidade de resposta.

Onde está a falha mais grave: nas universidades, nas empresas ou nas políticas públicas?

Acho que houve uma falha global de estratégia. Faltou visão relativamente à formação de engenheiros, faltou investimento consistente no setor e faltou uma política clara para a habitação e para o crescimento sustentado das empresas da construção. Tudo isso acabou por nos trazer até aqui.

A escassez de habitação acessível, a falta de engenheiros, os atrasos nas obras e a dificuldade de crescimento das empresas não surgiram do nada. São o resultado acumulado de muitos anos sem uma estratégia consistente para o setor.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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