Um novo relatório mostra que a inteligência artificial amplifica preconceitos históricos: 56% das respostas classificam jovens mulheres como frágeis e redirecionam as suas vocações para áreas tradicionais.
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma ferramenta pontual para se tornar num interlocutor central que está a moldar a identidade e as ambições da juventude. O relatório ‘A miragem da IA, um reflexo incómodo com alto impacto nos jovens’ elaborado pela LLYC no âmbito do Dia Internacional da Mulher, revela que, longe de ser neutra, esta tecnologia está a validar estereótipos do passado e a amplificar preconceitos históricos.
Os dados recolhidos pelo estudo demonstram que a IA não atua da mesma forma com rapazes e raparigas. 56% das respostas classificam as jovens como «frágeis ou fracas», o que as coloca numa posição de fragilidade. Além disso, a inteligência artificial recomenda às mulheres procurar validação externa seis vezes mais do que aos homens e redireciona 75% das suas vocações para a saúde e as ciências sociais.
«Não é a IA que está enviesada, mas sim a realidade. O relatório confirma que a inteligência artificial não corrige os défices que temos. Reflete e amplifica uma maior proteção a elas até reduzir a sua autonomia, eterniza os telhados de vidro ou reforça a pressão estética. Em última análise, não questiona os papéis tradicionais, mas antes legitima-os. A verdade é que, se a realidade não mudar, não podemos pedir à IA que mude as suas respostas», afirma Luisa García, sócia e CEO Global de Corporate Affairs na LLYC e coordenadora do estudo.
O estudo, realizado em 12 países, incluindo Portugal, durante 2025, analisou o impacto da inteligência artificial em jovens dos 16 aos 25 anos através de uma análise massiva de 9.600 recomendações e do exame de 5 grandes modelos de IA (entre eles, ChatGPT, Gemini ou Grok).
O teu futuro nas mãos de um chatbot: o fim do conselho neutro
A dependência dos jovens dos modelos de linguagem (LLMs) atingiu um ponto de viragem: 31% dos adolescentes afirmam que falar com um chatbot lhes é tão ou mais satisfatório do que com um amigo real, segundo um relatório da Plan Internacional. Esta deslocação relacional atribui à máquina um papel de conselheira cuja orientação não é neutra, mas formativa. O relatório da LLYC conclui, neste sentido, vários números preocupantes:
- A “amiga tóxica” digital: nas interações com mulheres, uma em cada três respostas da IA adota um tom de “amizade”, um padrão 13% mais frequente do que com os homens;
- Validação versus ação: a IA personifica-se 2,5 vezes mais com elas, através de fórmulas como “eu entendo-te”, priorizando a empatia artificial em detrimento da solução técnica. Para os homens, a linguagem é direta, repleta de imperativos (“faz”, “diz”, “vai”), o que reforça a ideia de que o homem é um sujeito de ação.
O ‘telhado de vidro programado’: segregação a partir do algoritmo
A IA orienta as vocações. O algoritmo redireciona as mulheres até três vezes mais para as ciências sociais e a saúde, enquanto incentiva nos homens a liderança e a engenharia:
- Sucesso sob suspeita: a IA considera “impressionante” que uma mulher ganhe mais do que um homem – uma reação que não se verifica no sentido inverso. Em nove em cada dez consultas em que elas aparecem em minoria profissional, a IA constrói cenários laborais hostis;
- Duplo critério emocional: perante conflitos, a IA “politiza” o desconforto feminino relacionando-o com o sistema ou o patriarcado em 33% dos casos, enquanto despolitiza o dos homens, remetendo-o para o autocontrolo ou para a patologização individual.
O olhar tendencioso do algoritmo: quando a repetição define “o normal”
Uma das conclusões mais alarmantes do relatório é a forma como a IA treina os jovens para aceitarem a desigualdade como uma norma geracional. Este ‘olhar enviesado’ manifesta-se na construção da identidade e do corpo:
- A armadilha da estética: perante inseguranças, a IA responde com conselhos de moda 48% mais às mulheres do que aos homens. Em modelos de código aberto como LLaMA, as menções à aparência feminina são 40% superiores;
- Corpos úteis vs. corpos únicos: enquanto associa os homens à “força e funcionalidade”, relaciona o bem-estar feminino com a “autenticidade” e “sentir-se única”. De facto, recomenda aos homens ir ao ginásio até duas vezes mais do que às mulheres para superarem ruturas emocionais.
A programar a família do século passado
Mesmo na esfera privada, a IA legitima papéis tradicionais. O afeto surge como atributo materno numa proporção três vezes superior à paterna. Ao pai é atribuído um papel de “ajudante” em 21% das respostas, em vez de corresponsável. Esta lógica desemboca na ‘sobrecarga da heroína’, uma narrativa na qual a mulher não só cuida, mas, como em tantas áreas, tem de o fazer com excelência moral permanente.


