Os diferentes usos da inteligência artificial (IA) generativa e o acesso a aplicações e chatbots têm aumentado tão rapidamente que a investigação científica rigorosa sobre os seus efeitos nos humanos e na sociedade não tem conseguido acompanhar o mesmo passo. Ainda assim, já começamos a ter algumas pistas sobre os efeitos do uso da IA em áreas como a saúde mental, a produtividade e o bem-estar dos trabalhadores, e a educação.
No caso da educação, o uso da IA pode ajudar a aumentar a eficiência dos professores, permitindo agilizar tarefas administrativas e rotineiras, mas pode também ter efeitos negativos sobre a forma como os professores ensinam, como os alunos percecionam o processo de ensino e aprendizagem e, em última instância, afetar negativamente a forma como os humanos aprendem e abordam novas tarefas a longo prazo.
A questão mais estudada tem sido como o uso da IA poderá afetar a aprendizagem. Os resultados indicam efeitos negativos na aprendizagem a longo prazo, possíveis alterações na forma como o cérebro processa informação, e ilusões de aprendizagem que fazem com que os alunos sobrestimem a sua aprendizagem e conhecimentos.
Os alunos têm também referido que o uso de IA por parte dos professores leva a uma falta de confiança no ensino e a uma quebra no respeito entre professores e alunos, especialmente quando os professores usam IA mas proíbem os alunos de o fazerem.
Professores e alunos: duas fases do desenvolvimento neuronal
Uma questão importante é como a adoção da IA no ensino poderá ter efeitos diferentes em professores e alunos, que se encontram em fases de desenvolvimento neuronal muito diferentes. O uso de IA começa cada vez mais cedo na vida escolar e, enquanto os professores são adultos que cresceram sem acesso a estas ferramentas, os alunos são crianças e adolescentes que têm sido expostos à IA desde muito cedo.
No caso dos adultos, o uso da IA poderá ser menos eficiente e exigir uma maior adaptação do que no caso das crianças e adolescentes, mas os perigos também são menores.
A adolescência é um período crítico para o desenvolvimento cerebral, caracterizado por muitas mudanças rápidas, o que faz com que: 1) os adolescentes estejam mais suscetíveis a informação errada e às características sicofânticas da IA, e; 2) a substituição de situações de aprendizagem ativa, que requerem esforço e são mais eficazes, pelo consumo passivo de informação gerada por IA possa ter um maior impacto no desenvolvimento cerebral.
No entanto, os efeitos do uso de IA no cérebro não se limitam ao cérebro adolescente. Um estudo recente indicou que participantes adultos que utilizaram IA na escrita de ensaios viram a sua conectividade neuronal reduzida enquanto estavam a escrever e, durante quatro meses, tinham pior desempenho em termos neuronais e linguísticos, em comparação com os participantes que não tinham utilizado IA. Estes resultados levantam sérias preocupações sobre os custos cognitivos e as implicações educacionais da substituição do pensamento crítico pela IA.
Alguns investigadores têm vindo a sugerir que o uso excessivo de IA pode prejudicar mecanismos essenciais à aprendizagem, raciocínio, pensamento crítico e criatividade. Por exemplo, a psicologia cognitiva diz-nos que memorizar e reproduzir o que memorizamos (prática da recuperação) é uma das estratégias mais eficazes para aprender; se a IA substitui a prática de recuperação poderá pôr em perigo a capacidade de memorizar, aprender, resolver problemas e transferir aprendizagens entre contextos.
A ilusão da aprendizagem
Outro efeito do uso da IA parece ser a ilusão de que se sabe ou aprendeu mais do que de facto se sabe. Esta ilusão metacognitiva também poderá afetar de forma diferente adultos e crianças e adolescentes, uma vez que a capacidade de monitorizar estados de aprendizagem está mais desenvolvida em adultos. No entanto, mesmo em adultos, diferentes níveis de capacidade de monitorização parecem influenciar o uso que fazem da IA e os seus efeitos.
Investigação recente indica que quem mais beneficia do uso da IA é quem é capaz de avaliar as limitações da IA e tem capacidade de monitorizar e regular a sua atividade mental para resolução de problemas. Por exemplo, um estudo indica que o uso de IA pode aumentar a criatividade em contextos de trabalho, mas apenas para aqueles com elevados níveis de capacidade metacognitiva.
Apesar destes possíveis efeitos negativos do uso da IA, a sua proibição não parece ser uma alternativa viável. Regulamentação informada pela investigação científica, e que considere as limitações do uso da IA aliada a uma aposta na literacia digital adequada a diferentes níveis etários e diferentes ocupações, podem ajudar a maximizar os benefícios da IA e minimizar os seus efeitos negativos. O uso da IA pode aumentar a eficiência e até ajudar ao desenvolvimento cognitivo, permitindo desviar o tempo que se gasta em tarefas rotineiras ou desagradáveis para tarefas enriquecedoras, mas apenas se a sua utilização obedecer a certos princípios que respeitam as características do desenvolvimento e funcionamento humanos.
Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.


