Imigrantes: a nossa obrigação

O assassinato de Bruno Candé é um crime hediondo. Não precisa de enquadramento nem de aproveitamento. Ora, na análise do caso, o mesmo jornal referia no mesmo dia: na capa, que a polícia, depois de ouvir as testemunhas, não tinha encontrado referência a motivações racistas; noutra página, que essas motivações estavam na origem do crime, com pormenores a servir de prova, incluindo a formulação: “Vai para a tua terra”. Obviamente, não sei quais os motivos do crime, nem qual das versões é verdadeira. Nem vejo interesse em fazer de todos os crimes envolvendo pessoas de diferentes raças, oportunidades para usar argumentos de política identitária. Sei que é preciso que se faça justiça, como de resto em todos os crimes de sangue. E julgo saber outra coisa: que este crime constitui uma oportunidade para discutir o papel dos imigrantes em Portugal, venham de onde vieram e tenham a cor da pele que tiverem.

Portugal é um país de emigração e de imigração. Temos atitudes complexas e preconceitos face a emigrantes e imigrantes, umas vezes generosas, outras não. Podemos aprender com os bons exemplos. O melhor que encontro foi formulado por Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia. Eis as suas palavras, traduzidas de forma algo livre, na sequência do massacre numa mesquita de Christchurch, perpetrado por um supremacista branco:

“Independentemente de alguém estar na Nova Zelândia há uma geração ou há um ano, esta é a sua casa. Estas pessoas deviam ter estado seguras e poderem fazer as suas preces. Foi por isso que escrevi estas palavras: elas e nós somos o mesmo. A pessoa que perpetrou esta violência contra nós, não é.” (Radio New Zealand, 2019).

O discurso de Jacinda une; as políticas identitárias desunem. Troque-se Nova Zelândia por Portugal e esta verdade, creio, aplica-se a todos, estejam cá há gerações ou desde ontem. A raça, a religião e tudo o resto, face a isto, interessam pouco.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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