Imperfeições do perfecionismo

O ótimo é inimigo do bom. E a busca pelo perfecionismo pode ser uma fonte de imperfeições. Levada a cabo por líderes, essa busca pode resultar em três perversidades.

Primeira: o líder perfecionista, receoso de cometer erros, pode tornar-se indeciso e procrastinar. Os erros fazem parte da vida organizacional e são inerentes ao trabalho de quem lidera. São inevitáveis porque a inovação requer experimentação – a qual, por definição, pode gerar resultados indesejados. É isso que explica que as empresas inovadoras denotem elevada tolerância a erros e fracassos. Portanto, obstinado com a perfeição, o líder perfecionista pode acabar por fazer jus à expressão: “quem não comete erros nada faz”.

Segundo efeito perverso: obcecado com os detalhes e avesso a erros, o líder perfecionista torna-se híper controlador e não delega. Absorto pelo trabalho, pode experimentar dificuldade em conciliar afazeres profissionais com responsabilidades familiares, daí resultando prejuízos para o seu bem-estar e a saúde. O nosso compatriota Horta-Osório, líder do grupo Lloyds e “Mourinho da banca”, viu-se compelido a uma baixa médica gerada por exaustão. Ele próprio reconheceu que se tinha focado excessivamente em numerosos detalhes e que necessitava de alterar o seu estilo.

O terceiro efeito perverso, que a investigação recente tem vindo a identificar, é o seguinte: líderes perfecionistas podem tornar-se abusivos. Steve Jobs era perfecionista – mas também é conhecida a sua veia relacional abusadora. Elon Musk é um génio perfecionista, obcecado com detalhes, chegando a dormir na empresa – mas a sua fraca empatia é igualmente conhecida.

Este pendor abusivo é fruto de vários fatores concomitantes. O líder perfecionista veicula expectativas muito elevadas, por vezes extremas, a quem com ele trabalha. Encara o desempenho dos liderados como sendo o dele próprio. Por conseguinte, torna-se intolerante ao fracasso e ao erro – que encara como ataques à sua identidade. Quando as coisas correm mal, reage com condutas abrasivas e acusadoras. Para evitar imperfeições, o líder perfecionista investe exageradamente no controlo, daí resultando menor autoconfiança nos liderados, conduzindo-os à perda de autonomia e a sentimentos de desrespeito. O fracasso e a má notícia conduzem-no ao sentimento de que afinal, nem tudo controla – o que lhe causa irritação e ira. Os liderados tornam-se mais “obedientes e cumpridores”, mas perdem espírito de risco e vontade de experimentar e inovar.

A falha do líder perfecionista não reside na busca da perfeição. Antes radica na incapacidade de se consciencializar de que o erro e o fracasso não são inerentes à vida organizacional. Esta incapacidade impede os liderados de arriscar, de assumirem erros e de partilhá-los. A equipa fica menos capacitada para aprender. Investigadores de Harvard que estudaram o resgate dos 33 mineiros chilenos que ficaram soterrados mais de dois meses na Mina San José , escreveram: “Tolerar a execução imperfeita é essencial em situações dinâmicas. Poucas novas ideias podem ser executadas, sem falhas, à primeira. Contudo, a tolerância ao erro não significa ser menos exigente. Os líderes necessitam de criar a segurança psicológica para aprender, para integrar responsavelmente a aprendizagem [com os erros], e para motivar as pessoas a fazerem o seu melhor”.

Poucos contextos requerem tanta perfeição quanto o da aviação. Mas é precisamente esse foco na perfeição (ou seja, na segurança) que requer a aprendizagem com a imperfeição. Por essa razão, foi instituído um sistema de reporte de erros (Aviation Safety Reporting System). O reporte, “confidencial, voluntário e não-punitivo”, pode ser feito por pilotos, controladores e outras pessoas que tenham cometido, ou dado conta, de erros e deficiências. Sublinhe-se o paradoxo: os erros (honestos, naturalmente) cometidos em organizações onde os mesmos “não podem” ocorrer são assumidos, não são punidos e são encarados como oportunidades para que novos erros não ocorram.

Procurar a perfeição é desejável e rejeitar a mediocridade é recomendável. Mas é igualmente conveniente apreciar a estética da imperfeição. Há muito que a farmacêutica Eli Lilly se pauta por uma cultura que encara o fracasso como elemento inevitável do processo de descoberta, encorajando os cientistas a arriscar. Durante anos, a empresa celebrou “as festas dos fracassos” para honrar esforços pioneiros falhados. Descobriu que o efeito motivador era modesto, pelo que se deixou dessas festas. Mas a filosofia de aprendizagem com o erro mantem-se. Eis a lição: o perfecionismo pode conduzir à imperfeição, e a estética da imperfeição pode conduzir à aprendizagem, à melhoria e à inovação.


Por
Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

Artigos Relacionados: