Influência e Inspiração

Se, por um lado, grande parte das marcas procura ter cada vez mais relevância e tornar-se influente através da sua comunicação, a outra face da moeda mostra-nos que tem sido cada vez mais difícil ter uma opinião de destaque, e tendo-a, esta será sempre, e cada vez mais, passível de ataque.

Esta exposição pode gerar alguma vulnerabilidade para as marcas que a assumem, e assim resultar numa reação que se espelha na escolha por uma posição neutra. Esta exige, e demonstra, uma menor envolvência com o público e, também, uma menor capacidade de identificação e aproximação da sua parte. E, evitando esse risco, talvez se torne também menos inspiracional. Isto porque, acredito, que tanto as pessoas como as marcas são inspiracionais quando genuínas, e essa característica baseada em autenticidade pede uma transparência que advém da partilha sincera de posições e opiniões próprias, nas quais as pessoas se conseguem rever e com a qual querem, de algum modo, ter algo em comum.

O assumir e expor desta honestidade é que leva à influência ou, pelo menos, assim deveria ser. A capacidade de influenciar pessoas sempre existiu mas a verdade é que, atualmente, muito mais pessoas têm meios para o fazer. E esta posição tem um poder que nem todos sabem controlar, tanto pessoas como organizações e marcas.

A democratização da comunicação tem sido cada vez mais evidente. Os meios disponíveis são abrangentes, têm um maior alcance e agora é viabilizado o acesso à informação para um muito maior número de pessoas. Se a nível social as vantagens são claras, para as marcas o facto de conseguirem chegar a tantas pessoas, de várias formas diferentes, e ainda perceber perfeitamente por que meio, e de que modo, o devem fazer para chegar a cada segmento do público, deveria ser a solução para várias questões a nível de notoriedade e engagement. No entanto, o caminho neste campo não tem sido totalmente percorrido e, acredito, que maioritariamente pela falta de consciência da persona que é a própria marca.

As pessoas não se relacionam com produtos ou serviços apenas, mas sim com a personalidade da entidade que os fornece. É com esta que se identificam e é também nela que investem. Isto implica que questões como a missão, visão, valores e até as próprias formas de atuação nas tarefas de trabalho diárias da organização sejam entendidos por todos, por serem reais e identificáveis. Por serem inspiracionais. É aqui que encontramos o valor da marca para o consumidor e cliente, e até um sense of purpose para os colaboradores.

Para além disso, nas organizações, e também como resultado desta liberdade, a comunicação interna e externa estão em fusão, já não podendo ser distinguidas e tratadas isoladamente. Até porque a notoriedade da marca começa dentro de casa e quanto mais consolidado o engagement interno, mais fácil será estabelecê-lo externamente. Serão os colaboradores os primeiros a transparecer aquilo que se passa realmente na organização, portanto, o caráter inspiracional da marca deve começar exatamente com estes, porque serão eles os melhores brand ambassadors, se forem também os principais inspirados pela organização que integram.

Por: António Eloy Valério, CEO do grupo Multipessoal

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