ISQ, uma casa que vive das pessoas

O ISQ é uma entidade privada e independente com 50 anos de atividade, que presta serviços de inspeção, ensaio, formação e consultoria técnica. Com 1400 colaboradores, 600 deles espalhados pelo mundo, é apelidada de maior infraestrutura tecnológica privada em Portugal.
Em entrevista à Líder, o presidente do ISQ falou sobre os desafios e estratégias para o futuro e, também, dos vários projetos internacionais em que a multinacional portuguesa está integrada. Pedro Matias confessou ainda que, para si, “liderança será sempre: ter os olhos postos no futuro, definir uma estratégia e mobilizar equipas”.

Líder (L): Liderar o ISQ apresenta, certamente, um conjunto de desafios profissionais e pessoais. Pedia-lhe que me identificasse os três principais desafios profissionais e os três principais desafios pessoais.

Pedro Matias (PM): O ISQ é sobretudo uma casa de engenharia, uma casa de inteligência, de desenvolvimento constante de novos projetos e de inovação que posteriormente transforma em valor acrescentado e apresenta soluções integradas aos seus clientes. É, por isso, uma casa que vive das pessoas. Nesse sentido, a gestão das pessoas e das equipas, e a multidisciplinariedade de áreas de competência em que trabalhamos (que vão da aeronáutica ao automóvel, das energias renováveis ao Oil&Gas, das indústrias de processo ao aeroespacial, ou mesmo à farmacêutica), são o maior desafio.
A nível pessoal o maior desafio é passar 12 horas por dia a acompanhar todos estes projetos em várias latitudes do mundo (sim, muita gente não sabe, mas somos uma multinacional portuguesa com presença em mais de 20 países) e ainda ter tempo para três filhos. Andar de bicicleta com eles. Ir ao futebol, construir Legos ou mesmo ter algum tempo para o ski na neve. Conjugar tudo é o maior desafio… (risos).

L: Quais são as grandes apostas estratégicas do ISQ para o futuro?

PM: Atualmente, estamos muito empenhados no processo de digitalização da economia e da indústria. As questões da Internet of Things, do Machine Learning, da Big Data, da Impressão 3D ou da Inteligência Artificial e da Indústria 4.0 estão a mudar o modo de operar das empresas e das indústrias. O ISQ está a preparar-se para estar na linha da frente da prestação de serviços aos seus clientes neste âmbito.

L: O ISQ é uma entidade privada cuja atividade, nos domínios científicos e tecnológicos, tem vindo a assumir grande preponderância. Estou, por exemplo, a pensar no programa “Infante” onde estão diretamente implicados. Quais os grandes objetivos desta iniciativa?

PM: Pela primeira vez vai ser desenvolvido de raiz um satélite em Portugal através de um consórcio de entidades portuguesas que hoje em dia já têm maturidade e o know-how para tal. É um salto enorme. É colocar a engenharia portuguesa a disputar a Liga dos Campeões. O Aeroespacial é a Fórmula 1 da engenharia e Portugal vai passar a lá estar. O objetivo é colocar em órbitra, nos próximos anos, a primeira constelação de microssatélites portugueses.

L: O que pode ganhar o país com o programa “Infante”?

PM: Estes processos são muito complexos, multidisciplinares e altamente absorventes. Se o conseguirmos fazer, conseguimos fazer qualquer outro projeto. É esse o desafio e a motivação. A partir desse momento, muitos países e empresas olharão para Portugal e para a engenharia portuguesa com outros olhos.

L: Outro projeto com dimensão e grande relevância, também internacional, é o “ITER”. Pode falar-nos sobre ele?

PM: É um projeto impressionante. O Santo Graal da energia na Terra… É, provavelmente, o maior projeto de Investigação e Desenvolvimento à face da Terra. São cerca de 13 000 milhões de euros e reúne praticamente todos os países desenvolvidos. Queremos construir na Terra um reator de fusão nuclear que permite simular a energia do Sol e das Estrelas. Se isso acontecer, teremos fonte de energia sem grande poluição disponível por muito anos. Uma revolução.

L: E o projeto “Grow to Green”? Será que o ISQ vai conseguir alavancar esta iniciativa e incorporá-la na economia do país e fora dele?

PM: É um projeto em que acreditamos muito e em que somos pioneiros em Portugal. A produção de alimentos em ambientes controlados (“indoor farming”) é uma das tendências e vai crescer muito nos próximos anos. O ISQ e a empresa ARALAB foram pioneiros nisso. Foi um projeto que demorámos três anos a amadurecer e está prontíssimo para ir para o mercado. Vamos produzir alimentos sem bactérias (99,4%), com mais 23% de fibra, 84% menos de nitratos, 0% de pesticidas, 0% de contaminação química e, repare, com 90% de poupança de água.

L: Há mais algum projeto relevante que nos queira destacar? Qual ou quais e porquê?

PM: É importante as pessoas perceberem que o ISQ é de facto uma entidade única em Portugal, pois conjuga de forma dinâmica as características e uma gestão empresarial profissional com a aposta permanente na Investigação e Desenvolvimento Tecnológico e Inovação de projetos de ponta que a levam a ser apelidada de maior infraestrutura tecnológica privada em Portugal. São 1400 colaboradores, 600 deles espalhados pelo mundo, 16 laboratórios acreditados e trabalhos nas mais diversas áreas.

L: Como vê a liderança no futuro, imagine, daqui a dez anos?

PM: Pergunta complexa. Será certamente mais complexa e abrangente onde fatores como a Inteligência Artificial vão também fazer parte dos processos de decisão. Para além disso, teremos de fazer o balanceamento entre pessoas e máquinas (robôs) e até arranjar novas formas de estimular os robôs… Mas, para mim, liderança será sempre: ter os olhos postos no futuro, definir uma estratégia e mobilizar equipas.

L: Sente-se entusiasmado com isso?

PM: Claro que sim. Nós só temos futuro.

L: Quais são os seus principais receios quando pensa no futuro?

PM: A tecnologia hoje em dia está a chegar a patamares nunca antes conseguidos. A mente humana tem uma capacidade única e é capaz de atingir coisas fantásticas. Agora imagine a mente humana “exponenciada” por mecanismos de Inteligência Artificial. Para o bem, e para o mal…

L: Acha que o tempo deveria abrandar ou vamos bem a esta velocidade?

PM: Abrandar? Nem pensar. Isto só vai acelerar… O melhor é retermos bem a célebre frase de Mario Andretti: “If everything seems under control, you’re just not going fast enough…”.

L: Quem são os seus líderes de eleição?

PM: No campo mais pessoal admiro pessoas como o Nelson Mandela. Provavelmente não haverá outro na Terra.
No campo político gosto particularmente da ambição que John F. Kennedy demostrou quando no célebre discurso na Rice University traçou como objetivo para a Nação Americana ir à Lua. É tão simples e ao mesmo tempo tão galvanizador: “We choose to go to the Moon”. Lindo, não é?
No campo empresarial, Bill Gates pela visão e consistência ou até mesmo Richard Branson pelo “desassossego” constante.

L: Quais serão os líderes do futuro?

PM: Elon Musk é um candidato, mas ainda tem muito para provar. Talvez mais um visionário que líder. Jack Ma construiu um império através do Alibaba. Mas, hoje em dia, temos jovens inteligentíssimos e altamente preparados, e com mundo desde muito cedo. Vivemos uma época em que as novas gerações têm ferramentas e skils como nunca. Daí vão emergir vários líderes.

L: Na próxima Leadership Summit Portugal, vamos procurar responder à seguinte questão: How fast can we go? Quer ajudar-nos?

PM: Duas das grandes questões nos dias de hoje são o Digital e a Inteligência Artificial.

E isto porquê? Porque a digitalização e a Inteligência Artificial estão mesmo a entrar em todos os setores, em todos os mercados e a penetrar fortemente na própria sociedade. A questão não se prende com determinado setor, fábrica, modo de produção ou até mesmo estilo de vida. A questão, hoje, é que a digitalização está de tal forma patente na nossa vida e influencia de tal forma o nosso dia-a-dia que não vai ser possível voltar para trás… Hoje em dia, tudo (quase tudo) está à distância de um click ou na ponta dos dedos…
E a questão do Digital não vai passar de moda porque há toda uma nova geração que já nasceu com esta base e lida com este mundo na ponta dos dedos praticamente desde a nascença. Os Millennials andam por aí, os pós-Millennials já cá estão e os Linksters também.
Atualmente, realidades como a Internet of Things, o 3D Printing, o Machine2Machine, as Smart Factories, as Smart Cities, a Indústria 4.0, os sensores inteligentes, a Inteligência Artificial, o Big Data, tudo assente numa “híper-cloud” que funciona à velocidade do 5G, estão a revolucionar o modo de produção e de vida.

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