A tecnologia acelera, as estruturas transformam-se, as carreiras alongam-se e é a Condição Humana que emerge como o verdadeiro centro da liderança. Para esta edição da Revista Líder lançamos um desafio ao nosso grupo de conselheiros: escrever uma Carta ao CEO do Futuro. Que conselhos deixariam aos líderes que hoje estão a formar-se? Que alertas fariam? Que valores defenderiam de forma inegociável? Que capacidades humanas serão críticas?
Carta à Joana Oliveira,
Esta carta é dirigida à Joana Oliveira – nome que escolhi usar no início da minha carreira. “Garoupa” parecia-me difícil, pouco elegante num contexto profissional onde tantos nomes soavam neutros e previsíveis. E, quando estamos a começar, o impulso é encaixar, não levantar ondas. Durante algum tempo, fui essa versão mais discreta de mim.
Hoje brinco com esta minha fase. O que parecia um detalhe embaraçoso revelou-se, afinal, uma força. Num mundo cheio de nomes iguais, o que tentei suavizar foi precisamente o que me tornou distinta no mercado. Leva tempo perceber que não precisamos de nos diluir para sermos levados a sério – muitas vezes, é na diferença que está o reconhecimento.
Se pudesse deixar alguns conselhos, começaria por um essencial: prepara-te para a realidade. A vida profissional raramente é linear ou justa. Haverá conquistas, mas também momentos difíceis, decisões imperfeitas e situações em que o mérito não é imediatamente visível. Convém saber isso desde cedo. E saber lidar com isso.
As empresas não são família nem clubes de amigos. São feitas de pessoas, interesses e pressões. Isso pode causar desconforto, sobretudo quando sentimos que as coisas podiam ser mais humanas. Mas é nesse espaço imperfeito que a liderança ganha sentido: não em contextos ideais, mas na capacidade de manter humanidade apesar deles.
Haverá dúvidas. Momentos em que parece que temos de provar mais, fazer mais, resistir mais. A pergunta vai surgir: «Sou suficientemente boa?» – não vaciles, a diferença está em continuar.
Com o tempo, vais perceber que algumas das tuas maiores forças – a empatia, a escuta, a leitura do ambiente – não são sempre as mais valorizadas à partida, mas serão as que mais vão marcar a tua forma de liderar. Num mundo dominado por métricas, essas qualidades tornam-se raras – e valiosas.
Vai chegar também o momento de quereres construir o teu próprio caminho. Quando isso acontecer, reconhece essa inquietação. Nem sempre é desvio – muitas vezes é alinhamento.
Ao longo de tudo, haverá uma constante: os valores de família que trouxeste contigo. O respeito, a integridade, o sentido de responsabilidade. Quando tudo parecer confuso, serão a tua bússola.
Com o tempo, perceberás também que a liderança raramente se resume ao lugar que se ocupa numa hierarquia. Ela manifesta-se na forma como se tratam as pessoas, na maneira como se reage quando algo corre mal, na capacidade de reconhecer o mérito dos outros e de construir confiança.
As estratégias mudam, as empresas evoluem – mas as pessoas lembram-se sempre de como as fizeste sentir.
E talvez a maior ironia seja esta: nunca foi preciso esconder o apelido para caber no mundo.
A Joana Garoupa já era, desde o início, exatamente quem precisava de ser.
Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.
Leia aqui todas as Cartas ao CEO do Futuro:
Elsa Carvalho: «o futuro não precisará tanto de líderes brilhantes quanto de líderes lúcidos»
Joana Garoupa: «Nunca foi preciso esconder o apelido para caber no mundo»

