Jorge Batista: «Há um antes e depois da COVID-19»

2019 foi um ano de grandes crescimentos, a Primavera BSS obteve os melhores resultados de sempre. Em 2020 estava tudo alinhado para voltar a crescer acima dos dois dígitos, mas o contexto fez os seus estragos. Ainda assim, Jorge Batista, cofundador e co-CEO da Primavera Business Software Solutions, garante que a empresa está apetrechada para fazer deste o ano da reinvenção.


«A equipa e a gestão estão comprometidas em dar tudo o que têm», explica com convicção. Antes de mais, garantindo que nenhum dos colaboradores, clientes e parceiros fica para trás e assegurando que é a empresa que mais rápido, e com maior qualidade, responde à avalanche legislativa que está a ser publicada. «E digo-o com a confiança de uma organização que há mais de duas décadas dá respostas atempadas às empresas e a milhares de escritórios de contabilidade que têm que lidar com esta problemática», lembra, reforçando que estão a ser criadas soluções «que vão ser muito importantes para os clientes poderem competir numa economia mais digital».

Mas comecemos do início, a Primavera faz parte do rol de empresas que pode dizer que nasceu em plena crise. Em 1993, Jorge Batista e José Dionísio criavam a Primavera, em Braga, que desenvolvia soluções de gestão. A co-liderança mantém-se e é assumida como um dos grandes trunfos da empresa. Hoje, é uma multinacional portuguesa, com 341 colaboradores, presente em Portugal, Espanha, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau. A Primavera BSS posiciona-se como um parceiro e fornecedor de soluções tecnológicas para mais de 40 mil clientes, espalhados por mais de 20 países.

Em conversa com a Líder, Jorge Batista contou a forma como a pandemia está a alterar o rumo da empresa e de alguns projetos, e as oportunidades desta nova economia.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
Sem dúvida, as perdas humanas. O número de vítimas mortais que está sempre a aumentar, em todo o mundo, é impressionante não obstante todos os esforços que vemos das várias entidades e profissionais de saúde, que merecem bastante o nosso apoio. Depois, a incerteza. Estamos todos a viver um período de elevada incerteza e instabilidade, sem poder planear e prever o amanhã. A verdade é que esta pandemia está a alterar o rumo das nossas vidas. E aqui, tenho de enaltecer o papel fundamental das pessoas que estão, estoicamente, a desempenhar os seus papéis na saúde, na distribuição e no comércio aberto, correndo riscos para si e para os seus entes mais próximos, ao manterem-se nos seus postos de trabalho. Até existir uma vacina efetivamente a incerteza continuará a ser uma grande preocupação.

 

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
Começámos a tomar medidas logo no início de março, com o cancelamento de todas as viagens, assim como das reuniões presenciais com clientes e parceiros, que passaram a decorrer remotamente. Começámos por colocar dois terços dos 341 colaboradores, em Portugal, em regime home office, num modelo de trabalho rotativo, mas desde 16 de março que estamos todos a trabalhar a partir de casa, incluindo noutras geografias em que estamos presentes.
Também a Primavera Academy, que anualmente forma milhares de pessoas, cancelou todas as ações de formação em sala, nos edifícios de Lisboa e Braga, e as mesmas estão a ser reagendadas ou a decorrer online. O projeto Primavera Education, que consiste num programa de literacia digital que aproxima os estudantes dos ensinos secundário e superior do mundo do trabalho, também está neste momento suspenso. Para além disso, estamos atentos e em contacto para monitorizar alguma eventual situação de infeção. Felizmente temos todos os nossos colaboradores bem.

Que impacto no negócio?
Podemos dizer que na Primavera há um antes e um depois da COVID-19. Crescemos de forma significativa em 2019 e obtivemos os melhores resultados de sempre. Abordamos 2020 num contexto de grande dinâmica das economias, com uma equipa forte e alinhada para voltar a crescer acima dos dois dígitos. Esse objetivo está obviamente comprometido. Ainda assim, a equipa e a gestão estão comprometidas em dar tudo o que têm para se reinventar e fazer de 2020 um grande ano dentro deste contexto adverso.

É possível já começar a desenhar algumas medidas a esse nível?
Garantindo, antes de mais, que nenhum dos nossos clientes e parceiros fica para trás. E assegurando que somos a empresa que mais rápido, e com maior qualidade, responde à avalanche legislativa que está a ser publicada e digo-o com a confiança de uma organização que há mais de duas décadas dá respostas atempadas às empresas e a milhares de escritórios de contabilidade que têm que lidar com esta problemática. Estamos a criar novas soluções que vão ser muito importantes para os nossos clientes poderem competir numa economia mais digital.

Já tinham vivido um desafio destes?
A Primavera nasceu em tempos de crise, em 1993, e afirmou-se precisamente no período que durou essa crise. Nos 26 anos de existência que temos, vivemos outras crises importantes. Estou a lembrar-me da crise de 2003, da crise do subprime em 2008/2009, e dos tempos de intervenção da Troika, 2011/2014. O facto da dupla fundadora se manter na liderança da empresa, bem como uma boa parte da equipa de gestão, permite-nos, antes de mais, olhar para o momento com realismo e confiança, aplicar medidas vencedoras que resultaram no passado e obviamente não cometer os erros que se cometeram em crises anteriores. Mas todas as crises se apresentam com desafios diferentes à gestão e uma crise desta dimensão nenhum gestor viveu.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
Vivemos num País de micro e pequenas empresas, na sua grande maioria descapitalizadas, e para as quais a faturação de cada mês é um exercício, regra geral, difícil, em muitos casos até de sobrevivência. Diria que é sobre estas que o Estado deverá ter uma atenção maior, protegendo os trabalhadores, principalmente aqueles que têm rendimentos mais baixos e estão em situações mais precárias, e abrindo vias de esperança ao próprio empresário. Mas as médias e grandes empresas também estão a ser fortemente impactadas com esta crise e é importante o Estado não se esquecer que estas empresas empregam centenas ou milhares de funcionários e têm um papel fundamental na economia e na balança de transações do País. Os apoios que agora se disponibilizam às empresas sustentáveis são poupanças no futuro em apoios ao desemprego e emergência social.

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Agora que certamente já colocaram em prática todas as medidas necessárias à proteção das suas equipas e do negócio, é tempo de olhar para as oportunidades da nova economia que irá resultar desta crise. Uma economia em que as pessoas vão estar mais confinadas, o comércio será eletrónico e vai crescer a digitalização, fazendo diferença na produtividade.

E aos portugueses em geral?
O conselho mil vez repetido pelas autoridades: protejam-se. É a única vacina conhecida até ao momento. Mantenham-se em casa e respeitem ao máximo as diretrizes do nosso Governo e das entidades oficiais de saúde. Temos todos que fazer sacrifícios neste momento para ajudarmos a travar o aumento de infeções, protegermos as nossas famílias e amigos, e podermos voltar às nossas vidas que tanto desejamos. Se cada um fizer a sua parte, mais rápido estaremos fora da quarentena e das medidas mais restritivas que são necessárias para se evitar situações graves como vemos acontecer noutros países dentro e fora da Europa.
É duro e estamos a aprender uma nova forma de viver, de trabalhar, de socializar, de partilhar e de cooperar, mas acredito que esta crise nos permitirá valorizar mais as nossas pessoas e os momentos com elas. Precisamos esperar pelos melhores dias porque irão chegar.
Vamos ultrapassar esta fase da forma que tão bem nos define: com otimismo e esperança no futuro.

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