José Eduardo Carvalho: “As pandemias não são apenas parte da nossa cultura, muitas vezes têm origem nesta”


A pandemia de COVID-19 suscitou uma já relevante bibliografia sobre o tema. De Portugal e com sensibilidade ao caso português chega Economia COVID-19, de José Eduardo Carvalho (Edições Sílabo).

Para saber mais sobre o livro fomos falar com o autor. Eis o resultado da nossa conversa.

 

O livro tem por subtítulo “A Catástrofe com Face Humana”. O que levou à escolha desta ideia?
A resposta, no essencial, está contida na sinopse da contracapa onde se diz “As pandemias, como a que vivemos agora, não são apenas parte da nossa cultura, muitas vezes têm origem nesta.” Acrescento o argumento do biólogo Rob Wallace: “As pragas não são apenas parte da nossa cultura; elas são causadas por esta”. Penso que, sobretudo, a torrente imparável de gente que, crescentemente, se desloca de um território a outro, designadamente em turismo de massa, está na base da disseminação dos vírus e causa das pandemias como a que estamos a viver.

Qual a motivação principal para escrever sobre a COVID? E quais os desafios envolvidos na escrita de um fenómeno em andamento?
O propósito foi servir de contraditório à “pandemia de informação” que grassa na comunicação social. O modo cético e contundente como as notícias são divulgadas nos media – números de infetados, internados e óbitos – ganha uma relevância desmedida e preocupação acrescida na população.
Como fiz questão de acentuar, há outras doenças a matar anualmente mais pessoas do que a COVID-19, inclusive outras gripes (mais de 3 mil) e pneumonias (mais de 5 mil). Daí que, não ignorando os cuidados que o novo coronavírus deve merecer, importa não esquecer que nenhuma das outras doenças que já existiam desapareceu.
Naturalmente, escrever sobre um fenómeno em andamento põe qualquer escritor perante o dilema de saber quando parar e publicar, sabendo que no dia seguinte à edição do livro novos factos podem surgir. Mas penso que no essencial o que escrevi – sem alarmes – constitui uma reflexão sobre o crucial da pandemia e as consequências económicas e sociais.

Quais as lições principais que vamos retirar desta pandemia? Escreveu que a pandemia pode vir a alterar radicalmente o nosso modo de vida. O que podemos antecipar?
A lição a tirar é que o futuro é subjuntivo, isto é, apresenta-se de forma incerta. Temos de nos habituar a viver permanentemente com um plano de contingência com os vírus e bactérias. Esta não foi a primeira pandemia que atingiu a humanidade e não será a última.
Naturalmente, cada país e cada população vive os acontecimentos de forma diferente consoante as respetivas características naturais, económicas e sociais. Na situação presente constatou-se que os países, que assentaram a economia numa parcela importante no sector do turismo – o caso de Portugal – foram mais notoriamente atingidos pelas consequências da recessão com impacto no desemprego.
O que podemos antecipar é talvez a necessidade de alguma desglobalização, no sentido, por exemplo, de refrear a dependência excessiva da Europa, comercial e produtiva, do bloco asiático.

Planeia continuar a acompanhar o fenómeno para uma atualização desta edição?
Sim, diariamente, estou atento ao evoluir da situação, quer no caminhar da pandemia quer nos impactos económicos e sociais. Obviamente, se o livro tiver aceitabilidade e implicar uma eventual reedição, não deixarei de introduzir novos factos relevantes que, entretanto, surgirem.
Confesso que, no estado de incerteza que vivemos, sou cético à obsessão das projeções económicas onde, como mostro no livro, o PIB dança com alguma incredibilidade ao sabor de “cada cabeça, sua sentença”, com variações para 2020, que vão desde -3,4 a -20 por cento. Até porque, como fiz questão de acentuar, a métrica do Produto Interno Bruto (PIB) não garante, por si só, indicador de desenvolvimento económico e social de uma população.

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