José Tribolet: “Temos hoje know-how para colocar pulseiras eletrónicas em todas as pessoas”

Com a disseminação da COVID-19, “descobrimos uma coisa bestial: até agora, a grande medida tomada para controlar a pandemia tem estado em nós, ou seja, no comportamento dos atores humanos”, afirmava José Tribolet, professor emérito do Instituto Superior Técnico durante um webinar da Universidade Portucalense que decorreu esta semana no âmbito da 2.ª Semana Virtual de Ciência e Tecnologia.


Do ponto de vista do também investigador emérito do INESC-ID, instituto que cofundou em 1980, a resposta para esta crise de saúde pública está no controlo do sistema ou sociedade que é composta por pessoas – estas têm de ser responsáveis e alterar o seu comportamento em função do coletivo.

Como se trata de um surto altamente infecioso, “uma pessoa não pode estar ao pé de mais ninguém e ponto final”, exclama o especialista em sistemas informáticos e humanos. “É uma questão de dotar o coletivo de consciência em tempo real, saber exatamente quem está a fazer o quê, para quê, e assim monitorizar a situação e poder controlá-la.”

“Claro que vamos, e bem, usar telemóveis, Bluetooth, etc.”, diz, advertindo, contudo, que é preciso desenhar o sistema de modo a ser controlável, auditável e verificável. “É preciso perceber quais os níveis de responsabilidade e de autoridade para tomar decisões. O coletivo tem de estar articulado para se conseguir saber o que se passa e responder a desafios.”

Havendo responsabilidade, precisamos de conhecimento. E esse temos, defende. “Temos hoje o know-how científico para, em última análise, podermos colocar pulseiras eletrónicas em todas as pessoas.” E aí, cada um, como ser responsável, deve assumir o compromisso de que se está doente deve ficar em casa, por exemplo.

Depois, o passo seguinte é o coletivo, o Governo, tomar as medidas necessárias. As regras de sistema operativo têm de estar no sistema. E nesse caso tem de haver mecanismos instituídos.

O académico e consultor em sistemas de informação, com décadas de experiência em projetos no terreno, tanto em empresas como na administração pública, acredita no papel da Engenharia Organizacional na construção de uma sociedade centrada e controlada pela humanidade. Aliás, foi este o tema da sua aula de jubilação no Técnico.

O seu raciocínio decorre da aplicação às organizações da Teoria Geral dos Sistemas desenvolvida nos últimos 60 anos. Na sua opinião, todo o corpo de conhecimento científico e tecnológico sobre Sistemas Dinâmicos aplica-se integralmente às organizações.

E o que é uma organização? “A organização é constituída por elementos ativos – atores – com capacidade autónoma de agirem no mundo exterior a eles próprios – atuando em rede, em tempo real.” Mais: “a responsabilidade pelos atos realizados é sempre imputável, em tempo útil, a atores humanos concretos. A culpa não está nos sistemas, está nos humanos.”

A questão da responsabilidade individual no seio do coletivo é essencial. “Se nos demitirmos da responsabilidade, muito em breve não temos controlo sobre o que se passa, diz Tribolet, repetindo que “não nos podemos demitir da nossa responsabilidade ou delegar a responsabilidade nas máquinas.”

Este não é um cenário inimigo da democracia nem das liberdades individuais, sublinha o doutorado, desde 1977, em Engenharia Elétrica e Computação pelo MIT-Massachusetts Institute of Technology. Não estamos perante uma questão de limitação de liberdade, mas sim de entendermos que cada pessoa faz parte de um coletivo e que por isso tem responsabilidades.

Em suma, a Covid-19 no seu entender é uma boa oportunidade para a humanidade perceber o que é um sistema global e fenómenos em tempo real. “A capacidade de cada humano de ver em tempo quase real o que se está a passar, é um poderoso incentivo à orquestração positiva da ação das pessoas.”

Falta de controlo pelos dirigentes

O que está a acontecer neste momento, diz, “mostra que não está a haver controlo nenhum.” Deste ponto, a conversa deu um salto para a eficácia dos sistemas nas organizações, empurrada por uma questão que surgiu no chat da conversa moderada por Fernando Moreira, professor catedrático e diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia da Universidade Portucalense.

“Os dirigentes empresariais e da administração pública não têm brevet, não sabem pilotar. A maior parte não tem ideia do que é um sistema, o que é inconcebível, grave e crime. São incompetentes e eu não lhes perdoo”, diz, reconhecendo-se ele próprio um critico das organizações portuguesas- “tanto falo bem como mal.”

A maior parte das organizações não tem mecanismos para saber o que se passa, vivem no Excel. E os dirigentes tomam decisões financeiras com base nesses dados.

“E tanto que se podia fazer. Até porque há dinheiro, mas o problema é que o chefe muda sempre que muda o Governo. Conclusão: com estas mudanças frequentes, são anos e anos de trabalho que vão para o lixo.”

Do seu ponto de vista, isto – entenda-se, Portugal- está entregue a gestores que seguem o modelo de Harvard, ou seja, em que o que interessa é saber fazer folhas de Excel. “Tanto sabem decidir sobre assuntos de uma fábrica de salsichas como de uma central nuclear. É malta que nunca entra no contexto. Mas há esperança. Contudo, esta não nasce por milagre. Hoje, na Administração Pública há muita coisa boa, há pessoas excecionais que trabalham muito, mas há também outros que não fazem nada.”

Por Maria João Alexandre

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