Quatro dias. Seis horas por dia. Portas fechadas às politiquices. Foi assim que o Nova SBE Public Policy Institute (NPPI) concebeu o programa Liderança em Políticas Públicas, a primeira iniciativa do género em Portugal destinada a dirigentes de juventudes partidárias. No campus de Carcavelos da Nova SBE, vários jovens partilharam a mesma sala, os mesmos casos, os mesmos grupos de trabalho, separados apenas pelo suficiente para continuarem a discordar, e juntos o necessário para perceberem que vale a pena fazê-lo. José Tavares, professor da Nova SBE e um dos formadores do programa, fala de uma geração que está a dizer, com afinco e à ensurdecida, à que a precedeu: «deixem-nos avançar».
Este programa parte de uma premissa ambiciosa: a ideologia fica à porta, entra a técnica. É mesmo possível despir um jovem político das suas crenças mais íntimas sem o deixar politicamente desarmado?
Não deixamos necessariamente toda a ideologia à porta. Também nos interessa promover o debate entre pessoas com ideias diferentes. Mas queremos dar uma estrutura comum, um esqueleto que ajude a pensar o mundo, a saúde, a educação, a imigração, de forma estruturada. Se quisermos falar de economia, há conceitos estruturais que iluminam as decisões independentemente daquilo que queremos. Se queremos mais saúde através do Serviço Nacional de Saúde ou através dos privados, há conceitos que nos permitem perceber qual é a escolha que estamos a fazer. É isso que queremos dar: esse esqueleto. Mas também queremos suscitar o debate entre o esqueleto e a carne.
As políticas públicas aplicam-se a pessoas de carne e osso que sofrem e que esperam. Como se ensina a frieza do desenho técnico sem perder pelo caminho a lucidez da compaixão?
Há uma imagem da economia que é um pouco estereotipada. Uma parte importante da nossa disciplina é precisamente perceber onde não podemos tomar decisões puramente técnicas. Podemos querer um país com mais equidade ou com mais crescimento. Essas são escolhas de preferência, não escolhas técnicas. Mas o que importa é percebermos: queremos um país mais justo, sendo isso também abstrato, e ainda bem,
quanto é que temos de sacrificar de crescimento para sermos justos? E estamos dispostos a fazê-lo ou não? Pôr essa carta na mesa não é dizer que há só uma solução. Os economistas têm muita consciência disso. Não têm uma solução única para tudo. Nem nada que se pareça.
Há quem diga que o grande mal da política moderna é o excesso de opinião e a escassez de dados. A vossa intenção é criar governantes mais competentes ou salvaguardar o debate público da cegueira do mero soundbite?
Se eu dissesse que era formar governantes mais competentes, era pouco. O que queremos é ajudar na competência, mas também criar governantes que saibam dialogar com outros governantes de outros partidos que também são competentes, mas que discordam na implementação ou nos objetivos. Não é apenas uma questão de competência: é de diálogo entre pessoas competentes com opiniões diferentes. E devo dizer que ficámos muito impressionados com o nível técnico de argumentação dos participantes.
Notamos que esta é uma geração que, quase à ensurdecida, está a dizer à geração anterior: deixem-nos avançar.
E há uma coisa que acontece em Portugal que é particular: a diferença de educação entre gerações — entre uma pessoa de cinquenta ou sessenta anos e uma de vinte e poucos — é muito maior do que noutros países. Sente-se. Estes não são o tipo de políticos que vemos muitas vezes na televisão. E se pudermos fazer parte desse processo, é fantástico.
Avaliar políticas públicas pressupõe confrontarmo-nos com o erro. Estarão estas novas gerações, tão habituadas à narrativa da infalibilidade nas redes sociais, preparadas para aceitar que uma política pública pode simplesmente falhar?
Pela minha interação até agora, tenho a sensação de que sim. Aliás, vários deles eram capazes de dizer, à hora de almoço: «Eu em relação a isto penso assim, e não é como pensa o meu partido.» O que me parece revelar uma maturidade grande. Fiquei mesmo surpreendido com o nível técnico, mas sobretudo com a maturidade para o debate. Parece-me que temos aqui qualquer coisa que pode ser muito interessante.
Quando a Nova SBE decide ensinar estratégia e fundamentação técnica a jovens partidários, está a tentar mudar a natureza do ecossistema político português ou apenas a dar-lhes ferramentas mais sofisticadas para as velhas batalhas de sempre?
O estereótipo da pessoa que está nas juventudes partidárias — devo dizê-lo — não o reconheço nesta sala de aula. O que não quer dizer que o próprio funcionamento dos partidos não puxe, às vezes, por um tipo de protagonista que corresponde a esse estereótipo. Mas se alguns destes formandos se tornarem protagonistas, não espero que as pessoas pensem que chegaram onde chegaram por colar cartaz. Esse é o estereótipo. Estes não são isso.
Onde termina a soberania da competência técnica e onde deve começar legitimamente o livre-arbítrio da decisão política?
Houve vários sistemas que pensaram que podiam salvar o mundo através da burocracia. Alguns deles acabaram em 1991 com a queda do Muro de Berlim. Os sistemas que funcionam têm consciência da escolha — a iniciativa, a concorrência, o reconhecimento de que há coisas que não são decididas por burocratas, mas por pessoas que olham para os recursos que têm e escolhem entre alternativas. Não há nenhuma ilusão de que as questões mais difíceis vão ser resolvidas só com técnica.
Há uma distinção que em inglês é clara: politics e policy. Em Portugal dizemos política e durante muito tempo não havia grande noção da diferença. Hoje, o próprio eleitorado já percebe que as políticas públicas são um elemento central. Quando vemos filas na saúde, problemas na educação, percebemos que se só houver política e não houver políticas públicas, não vai resultar.
O eleitorado português está a mudar a forma como vota ou continua refém da lealdade ideológica herdada?
Acho que há muitos eleitores que já não votam pela ideologia. Votam pelo que querem, e pela pergunta: esta pessoa vai fazer acontecer ou não? Podem estar enganados, claro. Mas as pessoas já não são tão ingénuas ao ponto de dizer: a política dos meus avós era assim, a minha vai ser igual. As pessoas estão a fazer trade-offs. Gosto da mensagem deste partido, mas o que é que ele está a fazer? Não gosto daquele, mas nesse ponto até tem razão. Isto é, no fundo, o equilíbrio entre política e políticas públicas. Os eleitores já estão conscientes disso. E os políticos ou começam a ficar mais conscientes disso ou é possível que percam votos no futuro.
Imagino a sala: JS, JSD, IL, CDU, outras siglas. O que se dissolve primeiro — as barreiras partidárias ou o preconceito em relação ao pensamento do outro?
A primeira coisa que cai são as barreiras pessoais do preconceito com os outros. Não as barreiras políticas — acho que a escolha de campo político destas pessoas é muito pensada e estruturada, vem de longe, de valores. Mas penso que eles vão sair daqui a perceber que falar com o outro lado não é tão difícil assim. E isso é bom para a política. Acrescento ainda: os grupos de trabalho foram montados de forma completamente transversal. Ninguém está num grupo só com o seu partido ou só com a sua área. E trabalham todos em prol de uma solução, muitas vezes uma solução com a qual alguns não estão confortáveis, mas que os obriga a perceber que os outros têm argumentos. Que são argumentos, não são apenas posições.
O discurso político em Portugal parece estar a ficar menos cuidado. Sente-se isso também dentro da sala?
Sente-se lá fora, isso sim. Há palavras que ficaram menos polidas, basta olhar para alguns comentários recentes de figuras com responsabilidade pública. Mas dentro desta sala, o que encontro é precisamente o contrário. E talvez este tipo de experiência — pôr pessoas de campos diferentes a trabalhar juntas, a respeitarem-se — possa contribuir para que haja mais respeito no futuro. É uma esperança, pelo menos.
Portugal tem uma dificuldade histórica em dar continuidade às reformas que funcionam. Saramago escreveu que a viagem não acaba nunca, só os viajantes acabam. Por que razão trocamos tão frequentemente de viajante antes de chegar ao destino?
Em parte porque temos privilegiado demasiado o discurso em detrimento da transformação mais estrutural. Quando olhamos para países que consideramos mais chatos para viver, mas que são mais ricos, notamos que são muito bons nos processos. Tenho alunos alemães que chegam à primeira reunião de tese com vinte e cinco pontos organizados por alíneas. O meu primeiro passo é dizer: vamos começar por cinco. Mas a pessoa sabe que vai fazer isto, depois vai fazer aquilo, e que não pode fazer aquilo sem antes fazer isto. Nós não somos assim.
Temos muitas qualidades, mas ser bons em processos não é uma delas.
Esta urgência na capacitação técnica surge por virtude dos novos tempos ou por falha óbvia das estruturas partidárias tradicionais?
As duas coisas, diria. Os partidos em geral têm um défice em termos de centros de pensamento que possam apoiar as políticas quando chegam ao poder. Na Alemanha, os partidos têm fundações associadas que estudam continuamente política fiscal, política de saúde, quando chegam ao poder, têm referências que os ajudam.
Em Portugal não há think tanks partidários com credibilidade.
Vou ganhar inimigos ao dizê-lo, mas é verdade. Há muita dificuldade em juntar um conhecimento mais objetivo com a sua aplicação, que depende de escolhas políticas. Pensa-se que tem de ser uma coisa ou outra e essa é uma das consequências mais visíveis dessa dificuldade.
Fala-se muito de responsabilidade na atuação pública. Mas a responsabilidade é antes de mais um dever moral perante o cidadão. Como avaliar se um jovem líder saiu daqui mais responsável ou apenas mais instruído?
É muito difícil. Não há um conteúdo específico que transmita só por si a responsabilidade. Uma das esperanças é que ao saberem falar melhor com pessoas com opiniões muito diferentes, ao encontrarem um espaço comum de discussão, se tornem naturalmente mais responsáveis. Mas eu não usaria apenas a palavra responsabilidade moral, porque às vezes o que precisamos não é de mais ética no discurso, mas de processos bons em que o escrutínio seja automático: transparência, imprensa independente, prestação de contas real. Temos muito caminho a fazer aí. E esse caminho também vai melhorar as coisas.
Qual é a grande verdade técnica que gostaria que estes jovens não esquecessem, mesmo quando a pressão do partido os obrigar a escolher o caminho mais fácil? E não correm o risco de fechar um novo dialeto tecnocrático, inacessível ao homem da rua?
Que a técnica é necessária, que a clareza conceptual é necessária e não pode ser esquecida, mas que também quase nunca é suficiente. E é precisamente aí que eles entram. Quanto ao dialeto tecnocrático, não acho que seja um risco real. Eles fazem bem essa tradução de conceitos ou de mundos muito estilizados para um discurso que seja apelativo. Se falarmos de equidade, é uma palavra que funciona bem tecnicamente. Se falarmos de inclusão, as pessoas já sabem o que é. Estes jovens sabem isso. Têm os pés no chão. E isso, neste contexto, não é pouca coisa.


