Juntemo-nos ao grupo dos heróis da normalidade

Usando duas das palavras do ano, continuamos confinados no desconfinamento. Sondagens reveladas este fim-de-semana informam que “por causa do medo, portugueses resistem ao desconfinamento” e que estão com “muito medo do regresso à rua”. É natural: depois de meses a ver imagens de caixões e de ouvir que o pior estava para vir as pessoas convenceram-se mesmo que o pior está mesmo para vir. E pode estar: sob a forma de uma segunda vaga ainda mais terrível e mortífera do que esta (uma hipótese que faz caminho nas “agências de notícias” das redes sociais). Mesmo a imprensa séria continua a publicar notícias passíveis de criar medo fóbico (do tipo “vamos quase todos ficar infetados”).

Por esta ordem de razões, pensa o povo, na dúvida o melhor é ficar confinado. Também, a bem dizer, nesta primeira fase para quê desconfinar? Para ir ao cinema? Ao restaurante? Ao centro comercial? À livraria ver as novidades que não há? Ao futebol? À praia? Ao museu? Na verdade, não tem havido muito onde ir. E, com máscara, a vontade de ir ainda é menor. E no Verão, iremos ao Algarve para ficar à espera que abra o semáforo balnear?

Em suma, para proteger a “vida normal” podemos aprender com os que lidaram melhor com a situação: fazendo muitos testes, promovendo se necessário confinamentos seletivos, dando informação clara e removida da tentação sensacionalista, proporcionando proteção eficaz aos grupos de risco. Estes factos podem ajudar a responder com flexibilidade, se necessário voltando atrás mas evitando lockdowns generalizados e longos, cujos custos, incluindo humanos, como os de pessoas que se recusam a ir ao hospital por medo do vírus, ainda estão por conhecer. Nós portugueses gostamos de nos ver como mestres na improvisação: a ocasião é propícia para praticar a arte de responder aos problemas com agilidade. Da parte dos que nos lidera, as instruções têm sido geralmente claras e apropriadas. O resto compete-nos a nós. Recordemos: pode-se morrer do mal mas também da cura, particularmente se esta implicar não ir ao médico por causa do vírus. E se passámos estes meses a agradecer aos heróis que mantiveram a sociedade a funcionar, talvez esteja na hora de nos juntarmos ao grupo dos heróis da normalidade.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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