Kurt Lewin: A dinâmica do comportamento grupal

Para Kurt Lewin, a personalidade dos indivíduos deveria ser compreendida como um campo de forças em equilíbrio. Essas forças resultam do significado que os objetos, as situações e os outros indivíduos têm para cada indivíduo, significado que é adquirido pela pertença do indivíduo a determinado grupo. O grupo torna-se assim a unidade de análise privilegiada, adquirindo um papel preponderante no seu campo de forças, isto é, na sua personalidade. Lewin criou uma disciplina que possui dois objetivos fundamentais, a Dinâmica de Grupos: (i) o estudo dos pequenos grupos e das leis que regem o seu comportamento, e, (ii) a utilização dos pequenos grupos para agir sobre as pessoas e mudá-las. O primeiro objetivo, o estudo dos pequenos grupos e das leis que regem o seu comportamento, esteve na base do desenvolvimento de algumas experiências.

A primeira experiência a que nos iremos referir é a que Lewin, juntamente com Lippitt e White (1939), conduziu com o objetivo de analisar três tipos de liderança – autocrática, democrática e laissez-faire – no comportamento, na satisfação e na produtividade de diferentes grupos de escuteiros (grupos de rapazes de 10 anos). Como resultados, Lewin obteve que a liderança democrática era mais eficaz, em termos de satisfação e cooperação; que a liderança autocrática conduziu a uma maior produtividade, e, que na liderança laissez-faire, quer a produtividade quer a satisfação diminuíram. Outra experiência a destacar neste âmbito, conduzida por Lewin e pela sua equipa de colaboradores, ocorreu por solicitação do governo norte-americano, tendo em vista a modificação dos hábitos alimentares da população americana durante a II Grande Guerra Mundial. Perante a ineficácia dos métodos de propaganda tradicionais na alteração dos hábitos instituídos, Kurt Lewin e colaboradores empreenderam uma série de estudos, nomeadamente o que apresentamos de seguida, com o pressuposto de que se o processo que conduz à mudança de valores fosse realizado em grupo teria mais impacto e seria mais duradouro. Para prevenir problemas de má nutrição, era necessário que as donas de casa americanas cozinhassem pedaços de carne considerados menos “nobres” (coração, tripas, rins, etc.). Lewin constatou que eram as donas de casa que representavam o elemento de decisão em toda a compra de carne consumida pelas famílias. Decidiu então atuar sobre pequenos grupos de donas de casa. Ao iniciar os trabalhos, Lewin e a sua equipa de colaboradores encontraram-se diante do seguinte problema: ou acentuavam as características positivas do consumo de carnes consideradas menos “nobres”; ou diminuíam as reticências diante desses alimentos julgados negativamente. Reuniu vários grupos, cada um com cerca de 15 elementos, com a seguinte intenção: em metade desses grupos, especialistas qualificados (médicos, nutricionistas, etc.) explicavam como e porque se deveria comer tais pedaços de carne. Os resultados obtidos não foram satisfatórios, pois só cerca de 3% dos membros dos grupos aceitaram realmente as informações modificando os seus hábitos alimentares. Na outra metade dos grupos, os investigadores colocaram um problema aos participantes: tendo em atenção a difícil situação económica com grave escassez de carne, de que modo é possível mudar o consumo para que haja disponibilidade de carne para toda a população? A seguir a esta questão deixou a discussão desenvolver-se sem qualquer tipo de intervenção da parte deles, exceto para fornecer informação quando era solicitada. Essas discussões permitiam a cada dona de casa a possibilidade de falar do seu próprio comportamento, analisar as suas atitudes, etc. Ficou para todas claro que a sua recusa se devia a receios subjetivos e preconceitos que poderiam ser facilmente ultrapassados. Resoluções foram tomadas em comum, e as participantes comprometeram-se a modificar os seus hábitos alimentares, através de um simples gesto (levantar a mão) para testemunhar a sua decisão. Este gesto (levantar a mão) foi determinante, já que 32% de entre elas servira, efetivamente, os pedaços menos nobres (Joule & Bernard, 2005).

O segundo objetivo da Dinâmica de Grupos, a utilização de pequenos grupos para agir sobre as pessoas e mudá-las, pode ser compreendido no seguimento da utilização dos pequenos grupos na prática terapêutica, que começou a ser referida no início do século XX. O grupo passou a ter um valor de autoformação, isto é, o grupo passou a ser visto como um agente de mudança da sua própria dinâmica e, consequentemente, dos membros que dele fazem parte. Na prática clínica é importante aqui destacar o papel de Moreno. Lewin preocupou-se mais com a ideia da utilização pedagógica dos grupos, e esta surgiu-lhe na sequência de uma sessão de formação de animadores. Durante esta formação, foram dados ao grupo de formandos diferentes problemas, que deveriam ser resolvidos através da interação livre e espontânea dos diferentes elementos. Através da observação e análise dos diferentes elementos, Lewin, concluiu que os diferentes elementos do grupo quando confrontados com um problema, se centram não só na sua resolução, mas também na análise do seu comportamento, na análise do comportamento dos outros participantes e nos respetivos efeitos desses comportamentos. Depois desta experiência de Kurt Lewin muito trabalho tem sido feito no sentido de utilizar o funcionamento do grupo como prática pedagógica, nomeadamente no que diz respeito à formação profissional.

Em forma de conclusão acerca dos trabalhos desenvolvidos por Kurt Lewin podemos dizer, de forma consensual, que constituem um dos mais importantes e significativos marcos históricos no estudo dos grupos, pela forma como contribuíram para compreender o funcionamento dos grupos e os seus efeitos ao nível das condutas individuais e como se repercutiram no domínio da organização e gestão do trabalho.


Por Ana Pinto, Professora Universitária e Consultora em Recursos Humanos

 

 

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