Lições de gestão da obra O Verdadeiro Crente

Os clientes procuram há muito o significado do consumo, mas hoje, além disso, muitos procuram um sentido de propósito. Será que as empresas são locais adequados à realização das aspirações morais e até espirituais das pessoas? Poderão preencher o vazio que muitos sentem como resultado do declínio da família, comunidade e instituições? Quando a fé no governo diminui, será que as empresas privadas podem servir de compensação?

O escritor Daniel Akst, autor de um artigo publicado na Strategy+Business, cita Eric Hoffer e a sua obra The True Believer ou O Verdadeiro Crente para daí retirar lições de liderança. Pouco se sabe sobre os primeiros anos de Hoffer, mas provavelmente nasceu na cidade de Nova York em 1898 e mudou-se para a Califórnia, onde passou a maior parte de sua vida.

Mas muito ainda é desconhecido sobre a sua vida. Sabe-se que teve uma série de trabalhos manuais, inclusivamente como trabalhador agrícola migrante, e guardou cartões da biblioteca em alguns dos muitos lugares por onde passou antes de se estabelecer em São Francisco, onde morreu em 1983. Escrevia sobre natureza humana, trabalho, sociedade, tecnologia, revolução, religião e história.

Num dos seus ensaios, Eric Hoffer diz que as coisas são difíceis para os trabalhadores, não apenas quando os gerentes têm poder ilimitado, “mas também quando a divisão entre administração e trabalho deixa de ser evidente.”

Na sua opinião, “qualquer doutrina que pregue a unidade entre a administração e o trabalho, quer seja uma unidade de classe social, raça, nação ou até religião, pode ser usada para transformar o trabalhador num instrumento nas mãos da administração.”

Algo que, como diz, é especialmente claro no comunismo e no fascismo: “A crueldade que deriva de uma busca própria é ineficaz em comparação com a crueldade baseada na dedicação a uma causa santa.”

Hoffer, apesar da sua mentalidade conservadora, conclui: “É melhor ser mandado por homens de pouca fé, que colocam os seus corações em brinquedos, do que por homens animados por ideais elevadas que estão prontos para sacrificar a si mesmos e aos outros por uma causa.”

O foco que Hoffer coloca na separação entre a gestão e o trabalho pode parecer que contradiz a sua crença na necessidade de significado e pertença. Mas, como a sua própria vida demonstra, acredita que as pessoas precisam de fontes de significado e sentido de pertença fora do trabalho.

 

Movimentos de massa

Publicado em 1951, The True Believer chamou a atenção do público quase que imediatamente graças em parte ao seu subtítulo: “pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massa.” Quando a obra foi lançada tinham passado apenas seis anos da morte da Alemanha nazi e o comunismo rapidamente ganhou poder como uma ameaça global à liberdade- estes dois movimentos de massa coloriram a perspetiva de Hoffer, escreveDaniel Akst.

Parte da mística do livro vem da sua origem. Em 1951, Hoffer ainda trabalhava nas docas de São Francisco, onde morava numa pensão e passava o seu tempo livre a ler e a fazer anotações para os que viriam a ser os seus 11 livros.

A sua obra não é menos relevante hoje do que quando foi publicada pela primeira vez, apesar da sua visão pessimista da natureza humana e do ceticismo em relação aos movimentos de massa.

Dela podemos extrair vários elementos com muito interesse para os líderes. Por exemplo, Hoffer reconhece que a paixão dos frustrados é pertencer- e assim o autor incentiva os empregadores a cultivar “um sentimento vivo de solidariedade” nos funcionários por meio de esquemas de remuneração coletiva e outros meios, à medida que o trabalho em equipa aumenta a produtividade.

Outra fonte importante de pertença é a família. Movimentos de massa perigosos, na visão de Hoffer, tendem a minar e a ter ciúmes da família- mais uma razão pela qual as empresas devem ser amigas da família, defende.

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