Lições de negócios de Albert Camus

O livro “A Peste” destaca a importância de, perante a incerteza, haver um propósito partilhado e do respeito pelo valor da pertença. Mais do que dar respostas, “A Peste” obriga-nos a perguntar: O que é que realmente importa? Por que razão vivemos? Qual a durabilidade dos nossos valores? O que devemos uns aos outros? O que é o heroísmo? O que é a decência?

Publicado pela primeira vez em 1947, em francês, e no contexto daquela que foi a cidade colonial de Oran, na Argélia, o romance é muitas vezes entendido como uma alegoria, talvez para a França ocupada pelo domínio nazi. Camus viveu a ocupação em Paris, arriscando a sua vida ao estar à frente do jornal da resistência, o Combat.

Nesta fase de isolamento e confinamento devido à peste dos nossos dias – a pandemia da COVID-19 -, o romancista e escritor na área dos negócios Daniel Akst diz: “Não consigo pensar num livro melhor para recomendar. Os leitores de publicações de negócios, em particular, acharão a obra de Camus atraente por várias razões.” Na sua opinião, “A Peste” é “um conto que adverte sobre como gerir mal uma crise e também uma enciclopédia sobre psicologia humana. A personagem principal é um funcionário público que passa o tempo livre a reescrever incessantemente a primeira frase de um romance, demonstrando os riscos de deixar que o perfeito seja inimigo do bom.

Num artigo para a revista strategy+business (s+b), uma publicação da multinacional de consultoria PwC, Daniel Akst diz que mais importante do que as respostas são as perguntas que esta obra nos obriga a fazer. É que, como defende, uma pandemia pode colocar certas preocupações humanistas no foco dos líderes.

Os líderes devem preocupar-se com o bem-estar dos seus funcionários, clientes, investidores e vizinhos. As empresas podem dar meios de subsistência a milhares de famílias em todo o mundo. Os atuais e futuros pensionistas também podem contar com os líderes. Todas estas partes interessadas estão a contar que o líder tome as decisões certas.

“Acredite ou não, a obra “A Peste” pode ajudar”, diz Akst na s+b, refletindo: “Camus era um filósofo, mais do que um romancista, e, portanto, mais preocupado com as possibilidades éticas da sua premissa do que com a trama da ação.”

O livro é a história do Dr. Bernard Rieux e de um punhado de voluntários que arriscam as suas vidas na luta contra a peste. No romance, os mortos acumulam-se, a cidade fica em quarentena e os habitantes isolados do mundo exterior. “Aqui aprendemos muito sobre como as pessoas reagem perante uma catástrofe deste tipo.”

Na sua narrativa, Camus sugere que estamos todos condenados à ignorância; “as pessoas não podem explicar as suas vidas, os seus sofrimentos ou o seu mundo. Elas respondem à praga com terror e fé, mas à medida que a doença se espalha e o controlo oficial se torna cada vez mais draconiano, a resignação instala-se. As subtilezas e os tabus começam a desmoronar-se; os mortos, uma vez enterrados com reverência, estão sujeitos a métodos de eliminação cada vez mais insensíveis.”

O padre católico que surge no livro, que no início encara a praga como um julgamento severo de Deus, mas merecido numa cidade pecaminosa, acaba por vê-la como o teste final da fé. Outros, apesar de ateus, tiram uma conclusão análoga. Mas a fé destes últimos é no dever e na decência, em fazer a coisa certa. O seu desafio é defender o bem maior sem transformar qualquer indivíduo em algo menos do que humano.

“Hoje, o mundo inteiro parece-se com Oran. A nossa praga é nova, mas levanta as mesmas velhas questões.” O que importa? Por que vivemos? Quão sérios somos em relação aos nossos valores? Mesmo antes do novo coronavírus, estava claro que as pessoas procuravam mais nos negócios do que apenas lucro ou emprego. Cada vez mais os trabalhadores e investidores mostram que querem “significado” e “comunidade”.

Com a sua sobrevivência em jogo, as empresas precisam de se esforçar para fornecerem bens e serviços essenciais, sem falar no sentido de propósito e de pertença. “Não existe um roteiro para navegar nestes tempos tão extraordinários, mas Camus recorda que já vivemos pragas no passado – e que nada cria um sentido de propósito e de pertença mais poderoso do que a luta para superar as pestes em conjunto”, conclui o autor americano de Hudson Valley, em Nova York.

© Henri Cartier-Bresson/ Magnum

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