Líder de Líderes

Ram Charan é um consultor empresarial, autor e palestrante de renome internacional, que passou os últimos 35 anos a trabalhar com muitas das grandes empresas, CEO e conselhos de administração do nosso tempo. No seu trabalho com grandes empresas mundiais, é conhecido por cortar através da complexidade de gerir um negócio no atual ambiente em rápida mutação e se concentrar nos problemas empresariais essenciais. As suas soluções do mundo real, partilhadas com milhares de pessoas através dos seus livros e artigos publicados nas principais revistas de negócios, têm sido muito aplaudidas por serem práticas, relevantes e muito pragmáticas – o género de conselhos que podem ser executados logo na segunda-feira de manhã.

Por: Ricardo Vieira
Fotos: DR

Líder (L): Até há pouco tempo as pessoas discutiam a crise de liderança, mas crises éticas recentes parecem ter conferido uma nova dimensão a este pensamento. De que forma é que os líderes das empresas têm destruído a nossa fé na liderança?

Ram Charan (RC): Em qualquer comunidade, seja a comunidade política ou a comunidade empresarial, existem sempre pessoas excelentes e outras que nem por isso. Recentemente, têm aparecido pessoas cujos comportamentos éticos – assédio sexual, etc. – são cada vez mais visíveis. E agora essas pessoas são causa de preocupação e falta de credibilidade na comunidade em geral.

L: As novas ferramentas sociais alteraram a relação que existia com os líderes? Afetam o seu carisma?

RC: Não, acho que a liderança é mais do que carisma. A liderança tem de produzir resultados. Existem muitos líderes que não têm carisma, mas concentram-se nas coisas certas, escolhem as pessoas certas e produzem resultados. Portanto, o carisma pode ajudar, mas se não possuirmos as competências e se não tivermos seriedade, não teremos êxito. O carisma é sobrevalorizado.

L: A transformação digital em curso está provavelmente a mudar a forma como a liderança é vista. Considera possível anteciparmos tendências?

RC: Acho que atualmente a digitalização traz transparência e hoje todos os consumidores, todos os cidadãos têm acesso a informação, portanto a liderança tem de ser inclusiva, a liderança não pode esconder, a liderança tem de ser transparente, a liderança tem de ser capaz de fazer as pessoas entenderem o que estão a fazer. Portanto, a liderança é muito mais persuasiva agora.

L: O que devem os líderes fazer hoje para se adaptarem ao mundo digital que os rodeia?

RC: Acho que os líderes precisam de se ajustar à ideia de que o consumidor é a chave e os dados são o capital, pelo que devem conhecer as ferramentas que os fortalecem. Têm de transformar as suas empresas analógicas em empresas digitais. Isso requer coragem, requer seriedade, requer força, e os que não possuem estas qualidades correm o risco de se tornarem obsoletos.

L: Como é que percebeu que a sua vocação era ajudar os outros a resolver os problemas dos seus negócios?

RC: Acho que foi uma evolução natural, não foi em nenhum momento em concreto. E depois tornei-me professor, portanto foi automático.

L: A sua introdução no mundo empresarial chegou cedo, enquanto trabalhava na sapataria que pertencia à família. Em que medida é que essa experiência o influenciou a si e às suas escolhas de vida? E que lições daquela altura é que trouxe consigo para a sua carreira enquanto consultor empresarial?

RC: Na sapataria aprendi a essência do negócio de uma forma muito simples. Também enfrentei dificuldades, porque não possuía as ferramentas, não tinha formação, portanto foi daqui que vieram as minhas bases. Mais tarde frequentei um colégio indiano, depois trabalhei quatro anos na Austrália e por fim cheguei à Harvard Business School. Pelo caminho, tudo o que aprendi durante a minha infância começou a fazer sentido, a pouco e pouco, peça a peça.

L: O que mais o entusiasma?

RC: Aprender. Tenho de aprender todos os dias.

L: Qual a sua definição de liderança?

RC: Acho que a liderança possui muitas definições… e não apenas uma. Há séculos que é estudada, pelo que depende do contexto. Existem líderes que trabalham bem em situações de crise, outros que só funcionam bem em períodos proveitosos, e há líderes que têm de sair. Portanto, a liderança consiste em conhecer o contexto, reunir as pessoas certas, e depois saber como conduzir o negócio e as pessoas juntamente em direção ao futuro, e produzir resultados.

L: Quais as principais características de um bom líder?

RC: Um bom líder depende sempre do contexto. Uma boa liderança requer sempre uma boa ligação entre líder e a sua equipa. Portanto, não existem bons líderes, mas existem as características básicas como carácter, credibilidade, confiança, disciplina. Estas são as qualidades essenciais, mas muitas vezes um líder pode ser bom num contexto e menos bom noutro contexto

L: A liderança é algo que se pode aprender ou é inata?

RC: Sabe-se hoje que nascemos com certas características cognitivas, mas nas nossas vidas somos obrigados a fazer muitas escolhas que nos obrigam a desenvolver algumas competências em detrimento de outras. Por exemplo, sabemos que uma pessoa que joga basebol, provavelmente não joga muito bem golf, portanto não podemos dizer se a liderança “nasce connosco ou não”, se a “desenvolvemos ou não”. No final de contas, temos de descobrir em que é que somos bons e depois tornarmo-nos os melhores nisso através da prática.

L: Na sua opinião, quais são os elementos mais importantes para gerir uma empresa com sucesso?

RC: Depende do negócio. Não se pode generalizar, mas tudo tem elementos em comum como: é preciso aprender o que faz avançar uma empresa; é preciso perceber que pessoas se tem, de que pessoas se necessita e de que pessoas se vai precisar, e como se deve encorajar e inspirar essas pessoas a levar a cabo a missão; é preciso conhecer as metas do negócio; saber em que é que nos diferenciamos; e como é que fazemos mexer a engrenagem para oferecer aos clientes produtos novos. Existem questões básicas que já vêm respondidas de empresa para empresa.

L: O seu trabalho leva-o a viajar por toda a parte sem descanso e oferece-lhe uma visão privilegiada, atualizada e única sobre como funcionam as economias e as grandes empresas. À luz da sua experiência, quais são, na sua opinião, os desafios mais complexos que os nossos líderes têm de enfrentar nos dias de hoje?

RC: Os desafios são praticamente os mesmos, mas antes de mais, hoje eles são mais complexos, mais incertos e mudam muito rapidamente. Muitas pessoas estão a desenvolver a forma de lidar com isso, mas atualmente temos falta de talento crítico: como contratar, como motivar, como reter o talento crítico. E depois há a globalização e a cibersegurança, que constituem problemas relevantes para todas as grandes indústrias e empresas.

L: O que é que o futuro tem de reserva para os líderes mundiais? Acredita que a liderança tal como a conhecemos irá mudar muito?

RC: O contexto da liderança está sempre a mudar e os líderes ajustam-se a essa mudança. Desenvolvem competências novas e novas ferramentas para se adaptarem às novas realidades.

L: Para onde vamos agora?

RC: Construímos o futuro. O futuro é construído por líderes.

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