Liderança: a importância de ser Alfa

O conceito de “macho Alfa” foi cunhado pelo biólogo e primatólogo Frans de Waal a partir do seu famoso livro publicado em 1982 chamado Chimpanzee Politics: Power and Sex Among Apes. Desde então a expressão popularizou-se embora nem sempre da forma mais correta.

É sabido que na natureza, como nas sociedades, os recursos são escassos, por definição, e a organização dos grupos, em particular entre os primatas, é vital para a sua, sobrevivência, manutenção e reprodução, uma das razões pelas quais a liderança é tão importante.

É justamente por causa dos problemas associados à organização, coordenação e movimentação dos grupos que o trabalho se divide entre os seus membros e é a partir dessa divisão e do contributo de cada um que nascem processos e dinâmicas de hierarquização social. Isto é válido não só nos grupos humanos como entre outros símios sociais.

O ranking social permite a coesão do grupo e a sua coordenação reduzindo os conflitos internos, donde a função e capacidade de controlo pelo líder ser crítica tal como os processos de hierarquia interna de acordo com as várias conveniências e interesses de cada um.

A ascensão social nos grupos[1] e sociedades humanas e o alcance das posições de maior status como catapulta para o poder possui duas vias: a dominância (através da intimidação e do uso da força) e o prestígio (através do estatuto livremente atribuído e reconhecido a cada membro pelos outros). Enquanto a primeira é tributária do potencial ou efetivo uso da força, a segunda resulta das capacidades cognitivas e do valor que cada indivíduo aporta para o grupo, sendo por isso mesmo por ele reconhecido.

Seja pelo prestígio ou pela força, ambas as estratégias de alcance do poder implicam a deferência dos indivíduos de menor posição no ranking social aos de mais alta posição, sendo que no caso da dominância os seguidores são sobretudo movidos pelo medo e a intimidação.

Contrastando com esta estratégia, o status via prestígio é uma abordagem filogeneticamente mais recente e, ao contrário do primeiro, implica a deferência por livre vontade. [2] Com a evolução do processo cultural o prestígio ganhou preponderância na atribuição de status e, por essa via, de poder e influência social.

Contudo, a hierarquização dentro das sociedades e grupos tendem a seguir os efeitos e as pressões não só culturais como ecológicas em que decorrem. Onde os ambientes são mais pobres e fenómenos como “códigos de honra” tendem a ser mais explícitos como pressão comportamental, a via da dominância pela força tende a ser mais utilizada e é mais bem sucedida. Mas, em ambientes mais ricos, com melhores condições, a estratégia do prestígio para obtenção de status tenderá a ser mais adequada e preferida.

Voltando ao princípio, o ser ou não ser um “Alfa” depende fundamentalmente do contexto, porquanto aquele que pode ser Alfa num ambiente pode não o ser noutro. Por exemplo, em ambientes onde o prestígio é sem dúvida a melhor base para obter reconhecimento e por essa via posições de mais alto status e influência, o uso da intimidação ou da força para impressionar ou controlar o grupo mostra-se deslocado e mesmo contraproducente. E vice-versa. O “ponha-se no seu lugar” traduz a ameaça do uso da força quando o prestígio não funciona. Na verdade é um “Alfa” deslocado que não sabe ler o ambiente. Porque a força impõe-se, o prestígio conquista-se.


Por Paulo Finuras, Professor Associado Convidado ISG Business & Economics School

 

[1] Já o escrevi noutro sítio Finuras, P. (2018). Bioliderança: porque seguimos quem seguimos? Lisboa: Ed. Sílabo

[2] Van Vugt, M. (2008). Follow me: The origins of leadership. New Scientist, 14 June 2660; e Van Vugt, M. (2009). Despotism, democracy and the evolutionary dynamics of leadership and followership. American Psychologist, 64, 54-56. Ver também Henrich, J., & Gil-White. “The evolution of prestige: Freely conferred deference as a mechanism for enhancing the benefits of cultural transmission.” Evolution and human behavior 22, no. 3 (2001): 165-196.

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