Para compreender porque o mundo pode ser (é) um lugar perigoso, é fundamental prestar atenção ao papel das lideranças destrutivas. Mas essa observação é frequentemente enviesada. Sobrestimamos a atuação das pessoas que lideram – e nem sempre nos damos conta do papel dos liderados, ou seguidores. Usarei esta última expressão para significar que alguns líderes […]
Para compreender porque o mundo pode ser (é) um lugar perigoso, é fundamental prestar atenção ao papel das lideranças destrutivas. Mas essa observação é frequentemente enviesada. Sobrestimamos a atuação das pessoas que lideram – e nem sempre nos damos conta do papel dos liderados, ou seguidores. Usarei esta última expressão para significar que alguns líderes são particularmente destrutivos porque são seguidos, de modo mais ativo ou mais passivo, por inúmeras pessoas. Eis a interrogação chave: o que conduz tantas pessoas a seguirem líderes que, estando particularmente centrados nas suas necessidades ou nas da sua clique, operam através da coerção, do medo e da manipulação? A questão releva para o mundo político, mas também para o empresarial. Se dúvidas houver, atente-se a escândalos que semearam destruição na vida de milhares de empregados, clientes, fornecedores, e mesmo comunidades.
A resposta frequente à questão aponta para um malfeitor, ou um bando de malfeitores. Mas a liderança destrutiva também requer seguidores suscetíveis – liderados que, por razões várias, nutrem o “monstro” destrutivo. Cinco grandes tipos, ou perfis, de seguidores exercem esse papel facilitador. Alguns conformam-se e obedecem acriticamente, outros são coniventes e perpetradores ativos da destruição. Entre os primeiros estão as “almas perdidas”, os “autoritários” e os ‘espetadores’. Entre os segundos encontram-se os ‘oportunistas’ e os ‘acólitos’. Eis uma descrição breve dos cinco perfis:
- “Almas perdidas” são seguidores vulneráveis que buscam sentido de orientação, um caminho claro, uma fonte de autoestima, e um espaço de pertença que confira sentido de comunidade. Procuram essa energia num líder carismático persuasivo, manipulador e sem pudor. Encontram orgulho na atenção que esse líder lhes concede. Obedecem-lhe cegamente. Ficam desprovidos de sentido crítico e são capazes de aderir a uma missão que, no final de contas, pode ser perversa para eles próprios.
- Os “autoritários” obedecem ao líder, não por se sentirem perdidos e vulneráveis, mas porque perfilham crenças e atitudes autoritárias. São pouco tolerantes à ambiguidade. Encaram o mundo e a vida de modo linear, a preto-e-branco. Acreditam que quem lidera tem o direito e o dever de mandar – e quem é liderado tem a obrigação de obedecer. No seu quadro de valores, “lealdade” e “obediência acrítica” ocupam o mesmo lugar no dicionário.
- Os “espetadores” são seguidores passivos. São movidos pelo medo ou pelo comodismo. Podem pensar criticamente sobre a atuação do líder – mas não querem “chatear-se” e antes preferem “seguir com a sua vida”. A sua obediência é instrumental e acomodatícia. Se puderem, distanciam-se. Mas, se necessário, para seu autointeresse, expressam apoio. Podem ser moralmente cobardes.
- Os “oportunistas” são movidos pelo desejo de ganhos financeiros, profissionais, políticos ou carreiristas. Num certo sentido, são eles próprios que instrumentalizam o líder destrutivo em busca de proveitos. O que os move é a ambição.
- Os “acólitos” são genuínos crentes na visão e na missão que o líder carismático corporiza e veicula. Identificam-se fortemente com a sua ideologia. Obedecem e empenham-se nas orientações do líder porque acreditam francamente nos valores por ele perfilhados.
O mundo político e a vida partidária são espaços férteis para esta população de seguidores. Alguns leitores ter-se-ão cruzado com estes perfis na vida empresarial. E cada um de nós deverá refletir sobre os riscos de, pontualmente ou consistentemente, encaixar num destes perfis. Apenas nos salva o pensamento crítico, o respeito pela diferença, a compreensão das razões e das necessidades do outro. Quando estes valores falham, a emergência de processos destrutivos é provável. E, para derrotar a destrutividade, não basta procurarmos a solução milagrosa num, ou numa líder. Antes precisamos de, como liderados, assumir o papel de seguidores críticos e responsáveis.

