Liderança em teletrabalho – distanciamento físico e não social

Os contextos de incerteza ou de mudança são terrenos férteis para o surgimento de novas e distintas lideranças – seja para quem já tinha esse papel, seja pela emergência de novos líderes. A capacidade de adaptação, de ajustar comportamentos e de ter maior elasticidade para compreender os outros, orientá-los e dar-lhes suporte, tornam-se, em períodos de maior tensão e incerteza, competências distintivas dos líderes.

As circunstâncias atuais acarretam por si só mais ansiedade e stresse mesmo em atividades até então rotineiras, como tomar uma refeição, andar na rua ou deslocar-nos num transporte público. Por essa razão, as pessoas que regressam ao seu local de trabalho, trazem uma carga acrescida de preocupação – consigo e com os outros, o que provavelmente se converterá em maior reação, menos foco e mais tensão. Por outro lado, as que se mantêm em teletrabalho, a interação permanente através de suporte tecnológico também pode ser fonte de stresse e cansaço, quer pela simples perceção de que tem de estar exposto (por exemplo em frente a uma câmara), quer seja porque tem de dar conta do seu trabalho em moldes diferentes do que fazia anteriormente.

Neste enquadramento, poderá o líder cair na falácia de reduzir o distanciamento social – na verdade, distingue-se aqui o distanciamento que devemos manter das pessoas em contexto social, e esse é físico, embora devamos manter a proximidade social, com as possibilidades que existam e mantendo as regras de segurança. Acontece, porém, que este mesmo distanciamento físico poderá conduzir a uma maior necessidade e incidência do contacto tecnológico, o que pode trazer algum desgaste para o líder e suas relações.

Os principais papéis sociais, que até há uns tempos, desempenhavam-se primordialmente num espaço e em circunstâncias conhecidas, dominadas e tipicamente diferentes – por exemplo, os comportamentos de uma mesma pessoa podem variar significativamente da esfera trabalho para a esfera familiar. Aprendemos a viver com essa delimitação, e um líder saberia como desempenhar esse papel, em cada um dos respetivos círculos. Acontece que atualmente, e sobretudo para quem está em teletrabalho, os papéis sociais “misturam-se” em tempo, espaço e canais de comunicação, e a possibilidade de delimitação dos círculos de relação/influência, nem são óbvios, nem tão pouco fáceis de aprender ou gerir.  Isto pode levar a que o líder com maior necessidade de proximidade ou controlo, aposte num contacto mais regular, continuado e prolongado, nomeadamente pela afirmação do seu papel e, claro está, também pela genuína preocupação com os outros ou necessidade de revelar disponibilidade, suporte e apoio.

No entanto, pode ser esta a oportunidade de dar “empower”, promover autonomia e “descobrir pessoas que estavam escondidas” devendo inibir-se desse contacto permanente, estabelecendo-o não por rotina, mas porque é efetivamente necessário. De facto, trocas que aconteciam numa pausa de café, num corredor ou até junto à impressora, para que se realizem hoje é necessário um telefone, uma videochamada ou entrar numa agenda. Naturalmente isso aumenta o tempo de contacto, e o líder deverá ganhar a sensibilidade para perceber nos seus liderados, quem precisa de mais contacto e quem é mais autónomo, quem quer mais contacto e quem o dispensa e também para se disciplinar e fazer anotações para “tratar vários assuntos de uma só vez”, e só com quem for estritamente necessário.

É necessário que esteja atento à necessidade e direito ao desligamento das pessoas, que respeite rotinas e outros papéis sociais – inclusive os seus, e que fuja à tentação do permanente contacto. Por exemplo, uma das práticas que se tornou comum, mesmo em coletivos sociais de trabalho, foi a criação de “momentos de convívio online” – “happy hours virtuais”. Se podem proporcionar alguma aproximação, que sentido fazem se não era prática da equipa? Promovidos por vezes, apenas por necessidade de contacto, talvez mais pessoal que exatamente da equipa, importa moderar esta necessidade, pois muitas pessoas começam a manifestar bastante cansaço com todo este permanente “keep in touch”. Valerá a pena pensar se este contacto não virá provocar mais cansaço e saturação e perguntar-se se as pessoas o fazem porque realmente querem e entendem importante, ou porque sentem que devem. Distanciamento físico enquanto for essa a diretiva, mas distanciamento social com ponderação, recomenda-se.


Por Isabel Moço, professora da Universidade Europeia

 

 

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