Liderança em tempos de crise

Em poucos meses conseguimos transformar toda a nossa existência conhecida até então numa nova realidade que obrigatoriamente desafiara as normas e os compêndios da gestão, e que nos atiçara a criatividade para pensarmos nas novas formas de liderança organizacional. Sim, é mesmo verdade que as crises despoletam oportunidades e que é usualmente nos contextos mais extremos e complexos que somos capazes de dar os saltos mais elevados. Afinal, todos nós sabemos bem que as crises promovem novos líderes à mesma velocidade que destronam os anteriores.  Aproveitemos então o momento, para realizar uma retrospetiva serena, mas ágil, que nos aponte o que temos que urgentemente começar a fazer, bem como tudo aquilo a que temos que pôr um ponto final.

Cristalizámos o presente e lançámos um ultimato ao que estava em execução, pincelando diariamente de anseio e agoiro a ambição que anteriormente havíamos descrito nos nossos planos, de forma irrefutável. Subitamente, as estratégias e os objetivos, os modelos de negócio, as arquiteturas operacionais, os sistemas de governação e as competências dos atores, bem como as suas capacidades de liderança foram postas em causa. E todos concluíram apressadamente que o novo terroir pandémico seria povoado por novas espécies desconhecidas até então, ou quiçá talvez apenas esquecidas e desprezadas pelos inabaláveis gurus da mudança. Neste novo cenário, consta que os elementos que aparentemente estão sob o nosso controlo, promovendo o equilíbrio das coisas e desencadeando o tão desejado progresso, atuam de forma intempestiva e desordenada, não se voluntariam para ensaios de laboratório, e detestam participar em modelos preditivos. Convém então não paralisar, não deixar que o tempo nos atropele. Se clicarmos em pause, o presente continua, em modo indicativo.

Mas fomos mais longe e não nos ficámos pelo momento atual. Com efeito, também conseguimos protelar o futuro. Um ato bem mais atrevido, creio. Pois se o descaro já foi grande ao enfeitiçar o agora, imagine-se a insolência humana ao pretender adiar o inevitável dia seguinte. Faço notar, para total clareza de entendimento, que o diferimento do amanhã não significa necessariamente que fiquemos numa espécie de limbo, sem dar passo e sem avançar numa qualquer direção. Não, na verdade, continuamos a caminhar, todos os dias, de forma incessante e convictos que é essa a opção que nos resta e que “parar é morrer” como se costuma por aí clamar. Falo antes daquilo que atrasamos propositadamente e que nos impede assim de avançar. De tudo aquilo que teimamos em deixar de lado, que nos retarda a evolução, e que, por obstinação cega, irá inevitavelmente comprometer a forma como nos organizamos e nos relacionamos entre si. E claro está, a maneira como encaramos a liderança. No final do dia, temos medo de viver no presente, mas ainda mais receio de avançar para o futuro. E como o passado só se apresenta por ora como opção ficcionada, e não creio que estejamos capazes de descobrir a tempo outro tempo verbal, dá-me ideia que vamos ter mesmo que “agarrar o touro pelos cornos” e fazer lide à crise.

É hora de liderar. E liderar, liderando. Que é como quem diz, mostrar caminhos a quem está à nossa volta, enquanto caminhamos lado a lado. Já basta de teorias, conceitos, modelos, planos, conjeturas, projeções, hipóteses, pressupostos, suposições, intenções…. E sobretudo, acabe-se com o receio, com o medo de fazer e falhar, com temor da decisão. E não tendo tudo já sido dito em matéria de liderança, é um facto que não nos falta obra realizada neste campo, e suficientemente ampla e diversa para se aplicar a qualquer ADN organizacional.

Ao longo dos vários anos de experiência que levo na condução de organizações e pessoas, fui desenvolvendo um conceito que me tem ajudado a compreender melhor aquilo que significa liderar, bem como a forma prática de envolver equipas, de as motivar, de aproveitar ao máximo as energias individuais em prol do coletivo, e sobretudo na construção de um propósito comum, algo de que todos se sintam parte e que permita ter o melhor de cada um. É um conceito bastante simples, prosaico até, mas que tem resultado. E acho que pode ser muito útil no atual contexto que atravessamos.

Com efeito, a liderança a meu ver não é mais do que uma viagem. Uma viagem singular, entusiasmante ambiciosa, com todos os ingredientes que normalmente fazem uma boa história, mas acima de tudo feita por viajantes apaixonados, que estão pela viagem, pela aventura e pela descoberta, e não pelo destino final. Até porque este não existe. Não tem coordenadas GPS e não se encontra localizado num mapa. O líder garante que todos estão na viagem de corpo e alma. O sucesso de uma viagem em grupo não admite viajantes ocasionais, acidentais ou negligentes. O líder garante que ninguém se sente perdido ou desorientado. Uma vez mais, importa que todos sigam a mesma direção. E é por isso que por vezes a melhor opção é optar por largar passageiros a meio, que claramente não desejavam continuar a viagem. Tal como é importante estar aberto a embarcar novos participantes durante a jornada. O líder assegura que a viagem é também um espaço aberto à reflexão, que permite partilhar e aprender através das etapas e estórias que cada um vai percorrendo e vivendo. A viagem é para ser vivida enquanto se viaja, e o líder deve por isso garantir que os descansos existem e são utilizados para o crescimento e a renovação de energias do grupo. O líder não sabe tudo e a ignorância não é um flagelo. Na verdade, é importante que todos os viajantes sintam que a viagem é fundamentalmente uma descoberta, uma ferramenta para o conhecimento, para despertar a curiosidade e desafiar a criatividade. A direção pode manter-se, mas os caminhos não estão traçados, as rotas não são definitivas. Qualquer caminho é possível, e por vezes um atalho é mesmo a melhor alternativa.

Ah, e convém não esquecer que podemos ter que voltar para trás, recuar, fazer o mesmo caminho novamente, abrir novos trilhos que não existem. A viagem faz-se numa estrada em permanente construção. E por último, o líder está lá, sempre, a todo o instante, para acudir a qualquer situação, para ajudar o grupo ou qualquer indivíduo. O líder não desiste, persiste. O líder não se conforma, reage. O líder é o que guia o grupo, mas é também o que é guiado pelo próprio grupo. O líder é o indivíduo, mas é igualmente todo o grupo. E quando assim é torna-se numa das viagens das nossas vidas!


Por Nelson Lopes, CEO Sodexo

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