Liderança não é (só) líderes

A liderança é um manancial de curiosidade, interesse, debate – e também wishful thinking. Ou seja, o tema é importante mas está também envolto em pensamento fantasioso. Frequentemente, confunde-se desejo (ou crença) com realidade. Tendemos a considerar que os líderes têm um impacto crucial no desempenho das equipas e das organizações, pelo que a eles atribuímos as causas de todos os sucessos e de todos os males. Veja-se o que ocorre no mundo futebolístico: ao treinador são atribuídas (quase) todas as derrotas e (quase) todas as vitórias.

Naturalmente, não devemos subestimar o papel dos líderes. Os líderes podem influenciar o desempenho das equipas e organizações. Porém, tão obcecados estamos com os líderes que esquecemos frequentemente os liderados, a situação e numerosos fatores alheios ao controlo dos líderes e dos liderados. Um trabalho recente levado a cabo pela revista The Economist sugere que o papel de treinadores como Mourinho, Klopp e Simeone no desempenho das equipas é relativamente modesto. Maior impacto é exercido por jogadores como Neymar, Messi e Ronaldo. Daqui não decorre que o papel dos treinadores deva ser subestimado. De facto, se Mourinho fizer a diferença, no final de uma época, com mais um ou dois pontos conquistados pela sua equipa, esse contributo pode representar a conquista de um campeonato. Por conseguinte, o que essa evidência sugere é que precisamos de valorizar mais o papel dos liderados e de considerar os aspetos da situação que nem líderes nem liderados controlam.

Este cuidado é extensivo às organizações em geral. Entronizamos tanto os CEO e outros líderes que, frequentemente, subestimamos a importância dos empregados, a todos os níveis. E essa subestimação tem impacto: ao sentirem-se menos valorizados e injustiçados, os liderados desenvolvem menores empenhamento e dedicação ao trabalho. A esta análise há que acrescentar outra, bastante mais exigente: os males da liderança não podem ser atribuídos apenas aos líderes. As lideranças perversas e destrutivas não são o fruto exclusivo de líderes tóxicos e perigosos. Esses líderes produzem toxicidade porque numerosas pessoas participam ativa ou passivamente na maldade. Trump é o que se sabe – mas a sua toxicidade é alimentada por numerosos sicofantas e cúmplices silenciosos. Pessoas que dele disseram cobras e lagartos tornaram-se seus apoiantes e bajuladores depois da eleição e sentaram-se à mesa das benesses. O senador Ted Cruz que, durante a campanha para as presidenciais, afirmou que o “narcisista” Trump é “totalmente amoral”, diz agora que as decisões do presidente Trump são “arrojadas” e “corajosas”, e que se sente orgulhoso por ter trabalhado com ele.

O que ocorre no mundo empresarial não é muito diferente e sugere que mais coragem é necessária. Leia-se o que afirmou um ex-membro do conselho de administração do BES: “Em seis anos nunca abri a boca, entrava mudo e saía calado. Bem como todos os restantes administradores”. Assumiu que “sabia tanto de bancos como de calceteiro”. E afirmou que os administradores não executivos eram “verdadeiros verbos de encher”, um “detalhe”, “um acessório na toilete de uma senhora”. Recebia cerca de 2400 euros líquidos por reunião do conselho de administração (cerca de 10-12 mil euros por ano). Mas não lhe ocorreu “bater com a porta” e, pior, lavou as mãos de qualquer responsabilidade pelo sucedido: “Onde há um falhanço total é por parte do Banco de Portugal, por parte da CMVM e por parte das empresas de auditoria, que nunca se aperceberam do que quer que fosse”.

Se, como liderados, queremos edificar lideranças mais virtuosas, não devemos esperar passivamente que os líderes virtuosos saiam vencedores e que os destrutivos descarrilem. Cabe-nos adotar uma postura crítica perante as condutas dos líderes. Em vez de simplesmente atendermos ao sucesso material desses líderes e das suas organizações, cabe-nos prestar atenção ao modo como alcançam esse sucesso e reagir em conformidade. Em vez de simplesmente esperarmos que os líderes virtuosos saiam vencedores, importa que sejamos corajosos e sábios para escolhê-los e apoiá-los. Por conseguinte, a ideia de que os líderes não são a fonte de todos os sucessos deve ser acompanhada de outra: as lideranças tóxicas não são fruto exclusivo dos líderes. Se queremos construir melhores processos de liderança, precisamos de bons líderes – e de liderados mais responsáveis.

Por: Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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