O conflito entre a Ucrânia e a Rússia fez regressar à Europa a sombra dos conflitos armados do passado. Quis a história que, neste complexo momento, a União Europeia conte com duas mulheres nos mais altos cargos da União: Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia e Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu desde 12 de janeiro de 2022, e cuja recente intervenção no Parlamento Europeu sobre este conflito mostrou uma coragem e frontalidade poucas vezes vista nos políticos.
Não deixa de ser irónico, num mundo que a nível político e empresarial é incompreensivelmente dominado por homens, sejam duas mulheres a liderar o destino da União Europeia num dos momentos mais críticos da sua história recente, o que me deixa particularmente tranquilo e com esperança.
Os dois exemplos, anteriormente citados, não são únicos. Trabalhei com muitas mulheres ao longo da minha atividade profissional, em órgãos de administração de diversas entidades, públicas e privadas, bem como conheço outras de excecionais capacidades, que por vezes delas próprias duvidam, o que me permite concluir, convictamente, que as mulheres são mais persuasivas, conseguem uma liderança mais inclusiva, gerando mais empatia e, sendo mais flexíveis, realçando, ainda, as fortes e melhores capacidades no relacionamento interpessoal e a sua resiliência e assertividade.
No âmbito da política, entre diversos nomes marcantes na história, Jacinda Ardern que, com apenas 37 anos, se tornou primeira-ministra da Nova Zelândia, é um exemplo da enorme capacidade de liderança no feminino, a que acrescentaria, a menos conhecida mas com um percurso de vida fascinante, Alexandria Ocasio-Cortez, congressista na Câmara dos Representantes por Nova Iorque.
Nas organizações, como na política, a liderança no feminino tem uma marca própria, diferente. Para melhor. Por esse motivo, é incompreensível a dificuldade de acesso que as mulheres encontram para aceder a lugares de topo na gestão e administração das empresas.
São muitos os exemplos de liderança bem sucedida no feminino. Sem querer ser injusto para as milhares de mulheres com competências e capacidade para ocupar cargos de liderança, recordo-me de Sheryl Sandberg que, depois do exemplar trabalho desenvolvido na Google – foi seu o contributo preponderante, ou mesmo essencial, para tornar o Facebook numa empresas mais rentáveis do mundo, tornando-se a primeira mulher a ocupar um cargo na administração da sociedade -, mostra-se, também, interessante o percurso de Susanne Madsen no Standard Bank, Citigroup e posteriormente na JPMorgan Chase.
Não posso deixar de concordar com um artigo da economista Francine Mendes na revista FORBES, onde pude ler “todas nós, mulheres, desenvolvemos ao longo das nossas vidas características de liderança: somos ensinadas a liderar os filhos, a casa, a família. Algumas de nós têm a oportunidade de aprender a liderar também fora do ambiente doméstico, um privilégio num mundo ainda tão desigual para as lideranças femininas”.
Ora, tal possibilidade de ter mulheres em cargos de liderança não deve ser encarado para as próprias como privilégio, antes, um privilégio para a sociedade, para as organizações, para todos nós.
O atual paradigma faz com que muitas mulheres duvidem das suas capacidades, duvidem a sua excecional competência para liderar e governar empresas.
A desigualdade de oportunidades no acesso a cargos de liderança entre homens e mulheres, inquestionável, não é justa nem aceitável e, no nosso país, não faltam exemplos de mulheres com competência e aptidão, com valor demonstrado na sua vida pessoal e profissional para aceder e garantir iguais ou melhores resultados que os homens na gestão e administração das organizações. Aceitar e alterar a desigualdade existente entre homens e mulheres, corrigindo com urgência essa assimetria representa um claro sinal de evolução da nossa sociedade. Afinal, e a título de exemplo, não nos podemos satisfazer com uma percentagem de aproximadamente 5,5% de mulheres CEO a nível mundial. É pouco. É grave. É urgente que todos nós, homens e mulheres, alteraremos mentalidades e consigamos mudar paradigmas.
