Liderança: Uma ideia em mudança?

Os últimos anos têm sido ricos em movimentos em defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres, uma evolução na direção certa, como as lideranças femininas de várias nações têm mostrado durante a pandemia de COVID-19. Esta emergência de líderes mulheres parece correr em paralelo com uma mudança social igualmente profunda: a mudança do conceito de masculinidade. Dois livros recentes ajudam a compreender o processo.


Um desses livros foi escrito por Tomas Chamorro-Premuzic, Why do so many incompetent men become leaders? (And how to fix it), da Harvard Business Review Press. Tal como o livro sugere, os homens não são necessariamente promovidos por mérito, mas por muitas outras razões, incluindo maior capacidade de promoverem as competências que têm (e mesmo algumas que não têm). No fundo, o argumento não difere muito do de Jeffrey Pfeffer, de Stanford, que há anos nos avisa sobre os limites da ideia de que são promovidos os mais capazes.


Outro livro é A Revolução do Homem de Phil Barker (Bertrand). O autor discute as implicações de ideias como a de que um homem não chora, não dá parte de fraco, é viril e dominador. Defende uma nova conceção da masculinidade, menos estereotipada. Em entrevista ao Público o autor resumiu a ideia dizendo que com esta mudança “O sexista será um idiota a falar sozinho”. Como estas coisas demoram, haverá muita gente a falar sozinha durante algum tempo, mas o caminho está a ser percorrido. Estas ideias aliás, já estão presentes nas conceções de liderança: o líder enquanto coach, cuidador e emocionalmente inteligente é apresentado como o ideal a seguir. A lógica da virtude, de vir, a valentia masculina do guerreiro, vai dando lugar à lógica do cuidado, mais feminina.

Resta saber se a nossa dimensão primal, animal, nos permitirá dispensar o mito do chefe dominador, que nos protege das agruras do mundo, especialmente em tempos de crise. A ver vamos.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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