Liderança VUCA e os riscos psicossociais do trabalho

Ao dia de hoje faz todo o sentido recuperar o conceito inglês VUCA, pela necessidade de uma estratégia adaptada a mudanças de cenário permanentes. É isto que estamos a viver! Tempos de Volatilidade (V), Incerteza (U), Complexidade (C) e Ambiguidade (A). Estas características significam que vivemos situações ainda pouco claras para podermos ter o tal necessário “Big Picture” que aumentará a probabilidade de afinal sairmos de tudo isto.

Até lá, fica uma certeza: é preferível e avisado que, daqui para o futuro, os líderes não sejam líderes VUCA! Ou seja, melhor será que os líderes evitem ser “voláteis”, “incertos”, “complexos” ou ambíguos.

Exige-se líderes presentes, cientes, simples e adaptáveis. Líderes que combatam os riscos que os liderados estão a correr, como muitas vezes não combateram, atempadamente, o surgimento da pandemia. “O covid-19” não pode significar apenas estatística dos casos e mortes, ou “rankings” de necrologia. Exige reação atempada, em gestão de cenários e antecipação estratégica.

Se em relação ao combate à doença, já ganhámos, à força, competências necessárias, quanto à identificação dos riscos e respetiva tomada de decisões acertadas e urgentes, ainda há um longo caminho a percorrer.

Urge que os líderes façam uma gestão criteriosa e corajosa e antecipem o futuro, bem como identifiquem o que se está a passar ao nível dos riscos que os seus liderados estão a viver com “tudo isto”. Essa identificação permitirá algo essencial na liderança mais avisada: agir com urgência! Agir com o dever de cuidar da equipa. Sem atrasos. Sem adiamentos por necessidade de mais informação. Sem cristalização do processo decisório e inércia próprias de quem (os líderes), embora estando a sofrer, tem de ultrapassar as adversidades para cumprir o principal desígnio da liderança: servir!

O que está agora em causa não é, não pode ser, o risco para a popularidade dos líderes, mas antes os riscos que todos os liderados estão a correr. Quer os que estão a trabalhar presencialmente, pelas razões “à vista de toda a gente”. Quer, principalmente, os liderados em trabalho remoto, pelas razões que escapam, normalmente, à atenção.

Ressalvada a autorresponsabilidade, como competência presente no portfólio de competências dos profissionais de elevado desempenho e, por isso, não dependentes dos líderes, todos gostaríamos que os líderes tivessem sido treinados para (re)agirem de modo eficaz em ambientes austeros, complexos e de mudança permanente. Para agirem rapidamente! Porque a isso obriga o “ataque” que estamos a viver! Decisões rápidas e profundamente antecipatórias do perigo, porque a vida humana não se substitui.

Devem, pois, os líderes pelo menos os mais prudentes, identificar os riscos de toda a espécie que os liderados estão a viver. Ao identificá-los, poderão esses líderes tomar as medidas de cautela, reativas e outras que se impõem. Porque se os liderados ultrapassarem o combate ao COVID, poderão, ainda assim, ficar com graves sequelas físicas, emocionais, mentais ou até financeiras. Sendo preciso, a este passo, recordar que ao cuidar dos liderados o líder cuida da organização, da sociedade e do país. No fundo a concretização deste dever de cuidado pode ser vista como uma causa infinita que agora tanto se fala nos meandros da liderança e ao cuidar hoje, cuida também no futuro.

Para que os líderes possam saber o que estão os liderados a viver têm de comunicar de modo claro, verdadeiro e compassivo. Devem de facto colocar ao serviço dos liderados a empatia, com total escuta ativa e permitir – sem julgamentos – que os seus liderados possam dizer “o que lhes grassa a alma”.

Cremos, de modo convicto, que os líderes encontrarão toda a espécie de riscos e certamente serão identificados riscos físicos, emocionais, mentais, ergonómicos, financeiros, de violação da privacidade, de assédio e até ao nível do desenvolvimento profissional e pessoal dos liderados. Embora esta identificação dos riscos não seja a melhor das notícias, os líderes deverão agir de modo urgente e certeiro tomando as medidas necessárias para atenuá-los e desejavelmente, se for possível, erradicá-los.

Fica em jeito de conclusão um desejo: que os líderes possam agir mediante a tomada de decisões corajosas e urgentes, antes de terem notícia total ou informação integral acerca desses riscos, pois agir antes do futuro estar claro poderá atenuar ou erradicar a excessiva complexidade de muitas vidas, criando atempadamente um caminho de esperança e otimismo e a forte sensação para os liderados que, afinal, não estão sós.


Por António Paulo Teixeira, consultor de RGPD, Liderança e Gestão de Pessoas

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