Liderar em tempos de crise, parte II

Esta parte dois não se refere a qualquer parte anterior deste artigo mas antes ao facto de ainda há poucos anos ter sido escrita uma torrente de textos sobre a gestão em tempo de crise, então tratando-se da chamada crise financeira global. Colocados perante uma nova crise global, eis duas ou três notas sobre o que costuma ser recomendado aos líderes nestes casos.

Primeiro, que não deixem de liderar. Ou seja, em vez de deixarem o processo levá-los atrás não deixem de ser eles a liderar o processo, assumindo os perigos mas não perdendo o controlo. Não perder o controlo significa apontar um caminho, ter um plano. O plano pode ser revisto, mas mostra que sabemos o que queremos. Este simples facto tem um efeito calmante. Uma das grandes forças de liderança é manter a serenidade em momentos de crise; apresentar um caminho é revelador de serenidade.

Segundo, compete aos líderes cuidar das pessoas e manter o grupo unido. Mesmo que vão para casa, os trabalhadores de conhecimento, os que Toffler chamava cognitários, têm trabalho para fazer. Esta é aliás uma soberana oportunidade para testar formas de trabalho à distância para quem ainda não o costumava fazer. Importa também manter o contacto com os clientes e fazer o que for possível para preparar um recomeço suave.

Terceiro, há que focar o lado positivo. Crise, costuma dizer-se nestas ocasiões, também significa em línguas como a grega, oportunidade. Neste momento de reclusão, a capacidade digital de uma organização é posta à prova e o tempo é bom para experimentar, para transformar a ameaça em oportunidade. Como a maioria das organizações propende para a exploitation (a extração de mais valor dos mesmos processos), o tempo é bom para enfatizar a exploration (a descoberta de novos modos de criar valor).

Finalmente, este é o tempo de testar o provérbio inglês segundo o qual o mar calmo nunca fez os bons marinheiros e para começar desde já a apetrechar a organização com as capacidades necessárias para a próxima crise – financeira, geopolítica, bacteriológica, de cibersegurança, o que for. Habituemo-nos ao chamado “Novo Normal” e, entretanto, recordemos que há vida para além do vírus.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

Artigos Relacionados: