Liderar na adversidade

Não há pior do que ter de tomar decisões na adversidade. Layoff, despedimentos, falta de liquidez, devedores que não pagam, credores a quem não se consegue pagar. Os economistas e gestores desfazem-se em soluções, umas razoáveis, outras nem tanto, quase todas aproximativas e dubitativas.

Não pretendo ter uma solução, longe disso. Não faço ideia de quanto tempo ainda teremos pela frente de queda de produtividade; não sei como será a curva – se em U, se em V, se em L ou se, como diz Roubini para nosso desespero, em I, ou seja, uma queda a pique, que nem estabiliza nem volta a subir.

No entanto, mesmo perante tantas interrogações, há algo de que tenho a certeza. Por muitos hábitos e formas de fazer que o pós-COVID-19 traga, uma coisa é extremamente difícil de alterar: a natureza humana. Quem pretender manter equipas unidas e coesas tem de levar esta premissa em consideração. A tendência de cada um, individualmente, ou de um grupo, caso não seja liderado de forma convincente, é voltar ao “business as usual”, muitas vezes de forma ainda mais despreocupada, como nos “loucos anos 20” que se seguiram à pandemia da pneumónica, ou “gripe espanhola”.

Esta tendência é, aliás, muito bem ilustrada no segundo livro da Bíblia, o Êxodo, quando o povo segue Moisés pelo deserto. Bastou o “líder” retirar-se para o alto de um monte, onde Deus lhe daria as tábuas da lei, e logo o povo, fundindo anéis, pulseiras e brincos, faz o célebre bezerro de ouro, imagem do deus que pretendem passar a adorar. “Um deus que marche à nossa frente, porque esse Moisés, que nos tirou do Egito, não sabemos o que é feito dele” (Êxodo 32:1). E fazem o bezerro, que deixa Moisés, quando volta, irado ao ponto de partir as tábuas escritas por Deus. Este, que como sempre no Antigo Testamento, era um Deus vingador, quer castigar o povo, mas Moisés consegue aplacar-lhe a ira, depois de controlar a sua própria.

Ora, uma tradição que, na sua forma escrita, terá pelo menos 2700 anos, revela muito sobre a natureza humana. Diz ainda a Bíblia que por causa de terem querido (mais do que uma vez) adorar falsos deuses, o povo de Israel andou perdido no deserto durante 40 anos. Moisés, o seu líder, nunca chegou ao objetivo, a terra prometida, pois morreu pouco antes de a alcançar, quando já a podia ver.

Daqui se retira a ilação de que, se neste momento não podemos prever como e quando sairemos desta situação, podemos, ao menos, preparar bem as formas de comunicar e de dirigir novos modos de produzir, bem como as prioridades e as possibilidades que se abrem com esta experiência.

É possível que se possa recorrer mais ao teletrabalho, à descentralização e desmaterialização de muito o que fazemos. Mas, para tal, é preciso assegurar novos métodos de liderança, controlo e avaliação de desempenho, que não passarão pelos velhos horários e relógios de ponto.

Mas é, igualmente, possível que passado este tempo e o susto que ele trouxe, se queira voltar aos velhos hábitos, nada aprendendo nem retirando desta experiência que, embora de modo forçado, nos mostra que é possível ser eficaz com métodos muito diferentes de abordar os problemas.

Liderar nestes tempos difíceis mostra verdadeiramente quem está e quem não está à altura de desafios futuros. Muito enganado se encontra aquele que pensa que algo assim não voltará a existir.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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