
Leadership – The Power of Giving Back é um projeto de liderança que se vai materializar num livro da autoria de Pedro Afonso, CEO da VINCI Energies Portugal, baseado nas conversas que teve com o filósofo António de Castro Caeiro, a neurocientista Luísa Lopes e a maestrina Joana Carneiro. Através da Filosofia, da Música e da Neurociência, aprender a servir – ou a devolver – mais e melhor é o grande objetivo de uma liderança consciente. Neste projeto, Pedro Afonso procurará encontrar pontes que o ajudem a servir melhor uma organização inclusiva e sustentável cujo propósito é gerar valor de longo prazo para todos os seus stakeholders, nomeadamente os seus colaboradores e as suas famílias, a sociedade e o planeta, para além dos acionistas, clientes ou parceiros.
Pedro, acredita que a liderança é um Giving Back? Porquê?
Pedro Afonso (PA): No contexto empresarial, a liderança nem sempre vem do chefe formal. O líder revela-se, sobretudo, em ambiente de dificuldade. É nessa altura que as relações humanas, no seu melhor e no seu pior, são testadas. O ato de liderar é, antes de mais, um exercício de relacionamento com os outros. É aí que o carácter individual se torna evidente. A melhor forma que temos de perceber o líder é ver como ele atua com os outros em várias situações, sobretudo nas de dificuldade. Sendo a liderança um exercício de relacionamento humano, ela só é completa quando conseguimos dar de volta àquilo que o privilégio de liderar nos traz. Vemos muitos gestores falar de liderança quando querem apenas dizer que entregaram os resultados… ora o que é importante é saber o que se faz com esses resultados. Vão todos para o acionista? São partilhados com a sociedade? E com os colaboradores? E para o líder, o que é mais relevante? O seu próprio objetivo, ou a garantia da partilha com outros stakeholders? Será o coletivo ou o individual que importa? Então a liderança não é um exercício de relacionamento com os outros? Penso que nos devemos questionar.
O que está na origem deste projeto? E porquê a Filosofia, a Música e as Neurociências?
PA: Acredito mesmo que um líder deve saber aprender com outras profissões, com outras Pessoas. E a primeira coisa que pode fazer é escolher com quem o deve fazer. Devem ser pessoas com diferentes experiências, com diferentes perfis, com diferentes perspetivas. Para um determinado tema, pode escolher receber o feedback de mais do que uma pessoa, mas deve sempre pensar pela sua cabeça e construir uma ideia clara sobre esse tema. Este tem sido um modelo de atuação que tento seguir, e sempre que deixo de o fazer, arrependo-me. A Tema Central, por outro lado, partilhou a ideia de convidar diferentes personalidades que pudessem trazer outros pontos de vista para um tema tão rico como o da liderança. Foi um casamento imediato de conceitos e de ideias. Penso que este projeto é um exercício riquíssimo para um gestor empresarial, que procura ser melhor Líder, aprendendo com pessoas especiais de profissões tão diferentes.
Quais as maiores aprendizagens que retirou da Filosofia?
PA: Entre muitas que ficarão retratadas no livro, adorei este insight do António de Castro Caeiro que, a certa altura da nossa conversa, me diz que na Grécia antiga os reis eram escolhidos pelo que conheciam dos Humanos. O que sabiam dos assuntos específicos era pouco importante. Hoje, a progressão na carreira é feita com base no conhecimento e demonstração de competências técnicas. Ora, esta é uma diferença brutal na forma de escolher os líderes. Permitam-me que deixe as grandes conclusões para o próprio livro, mas foi este tipo questões que procurei explorar para poder servir melhor, para poder devolver melhor.
E das Neurociências?
PA: Numa das nossas conversas, a certa altura, a Luísa Lopes disse que quando nascemos somos biologicamente egoístas. Choramos porque temos sono, choramos porque temos fome. O instinto traz-nos este comportamento de chamarmos a atenção sobre nós para resolvermos os nossos próprios desconfortos. Quer dizer que, à nascença, o nosso instinto é profundamente egoísta.
Quando criamos uma empresa, ela tem o mesmo tipo de característica: nasce com o princípio egoísta dos acionistas que é retirar dela o respetivo rendimento. Sem diabolizar o lucro, porque ele é importante e é a medida para identificar a saúde duma empresa, os pontos importantes são: como se gera esse lucro? Como se distribui esse lucro? Como se coloca ao serviço das várias comunidades em que está inserida?
São os princípios de vivência em sociedade – de dar ao outro, ou melhor, de dar de volta ao outro – que podemos trazer para a liderança de uma empresa.
E da Música?
PA: Em certo momento a Joana confessou: “O meu papel é ajudar a refletir sobre quem somos; a música só serve para isso. A arte permite transformar o que não é bonito, em bonito. O giving back na arte é isto: aqueles que compram bilhetes têm de sair mais felizes. A música é expressão de sentimentos através de sons e a sua função é trazer felicidade às pessoas, tirá-las da rotina diária, ajudá-las a resolver questões e dramas”. Ora, sendo esta uma enorme responsabilidade, acrescentou: “O maestro tem de tornar um som – naturalmente – heterogéneo numa mensagem homogénea. É assim que se cria beleza”. E, sobre a hierarquia, comentou: “Vem da necessidade de haver uma disciplina para tornar o nosso trabalho mais eficaz”.
Entre muitas aprendizagens que cada leitor – acredito – terá oportunidade de retirar, sublinho algo fascinante: a consciência bem presente e a relevância de um propósito maior em cada gesto mais particular de liderança.
A interação com estas áreas diferentes do conhecimento deixou-o desconfortável?
PA: Aprender é um exercício fantástico porque nos sentimos melhores no momento seguinte. Mas forçarmo-nos a desaprender para voltarmos a aprender pode deixar-nos muitas vezes sem chão. As nossas crenças são os nossos alicerces. Há crenças que custam muito a desconstruir. Para este caminho ser eficaz, devemos ter esta consciência clara, e assumir que temos de fazer uma viagem que, por vezes, obriga a enfrentarmos a nossa própria personalidade. Este é um exercício complexo, e, na maior parte das vezes, bem doloroso.
Acha que as lideranças atuais precisam de fazer este movimento de sair da sua zona de conforto para aprenderem com outros domínios do conhecimento?
PA: As lideranças atuais têm de escolher, por vezes, se querem ser apenas gestores competentes, ou líderes empáticos. Somos treinados ao longo da vida, quer académica quer profissional, para a competência técnica, para a execução, para “fazer”. A viagem a realizar conduz-nos para outros campos diferentes, como o do relacionamento humano, do cuidado com os outros, do desenvolvimento da empatia e até garantir que o edifício moral dos nossos comportamentos tem uma coerência e congruência que revisitamos em todas as nossas ações e decisões.
O que mais o entusiasmou neste projeto?
PA: A possibilidade de passar tempo com pessoas que são referências na sua profissão, e que também elas abraçaram o projeto para deixar um testemunho sobre liderança. Depois do trabalho, existe o testemunho escrito que vai ser materializado num livro. A ideia de “fazer” um livro, em vez de apenas o escrever, entusiasmou-me muito. Porque uma coisa é desenvolvermos sobre um conteúdo que adoramos, outra é passar por uma experiência específica e partilhar com as pessoas os insights que recebemos dessa experiência. Agora que o trabalho está feito, e “só” falta passá-lo a escrito, posso dizer que tem sido fantástico.
Que grande mensagem gostaria que ficasse para quem vier a ler a obra que resultará também desta iniciativa?
PA: É a introdução de uma atitude mais altruísta, por contraponto à naturalmente egoísta de uma organização, que este trabalho pretende evidenciar. Sem pretensões a que sejamos perfeitos, ou seja, sem afirmar que vamos deixar de ser egoístas – até porque seria uma utopia – para passarmos a ser altruístas absolutos, acredito que existe um equilíbrio que devemos construir, considerando que hoje o pêndulo está mais próximo do egoísmo do que do altruísmo. Sempre que tratamos as matérias sociais com absolutismos, estamos com certeza a deixar muitos de fora, e algo que aprendi é que há assuntos que não podem ser tratados de forma mecânica. A filosofia de gestão que seguimos tem uma enorme influência sobre os comportamentos que adotamos nas nossas decisões e ações. E, como sabemos, orquestrar grandes organizações é um papel que tem várias ordens de complexidade, sendo que o essencial é que a maestrina – ou maestro – não toca nenhum instrumento. Mas para o resultado ser perfeito, o conjunto tem de treinar, tem de sentir o que está a fazer e a sua importância.
O Pedro é um líder que sabe devolver? Como faz isso?
PA: Penso que só as pessoas à nossa volta podem avaliar se sabemos devolver. E não devemos cometer o erro de medir o que é uma boa devolução. Por vezes, o nosso tempo é o maior give back que podemos dar. Também acredito que o poder pode ser usado de outra forma. Uso a palavra poder, correndo o risco de ferir suscetibilidades de algumas pessoas. A palavra nem sempre é bonita, e é quase sempre associada a atos de força, a comportamentos de alguém que se sobrepõe a outros. Ora, quem tem o poder tem o dever de revisitar o que isso significa constantemente. E, lá está, tem o poder de o devolver. As pessoas confiam, hoje, menos nos políticos, no poder, e nós, lideranças empresariais, temos contacto com essas pessoas que deixaram de confiar no poder. Cabe-nos, por isso, devolver uma visão – com a nossa comunidade – que ajude a criar um propósito maior, um propósito poderoso. É esta procura diária que me realiza. Nesta viagem, é a maneira que temos de apoiar os que viajam connosco que nos indica se devolvemos. Pode ser apenas tempo para a sua vida pessoal, mas pode mesmo ser partilha de capital na empresa. É a noção do coletivo sobre o individual que está na génese desta devolução. Em vez de nos servirmos, podemos, antes de mais, escolher servir!
