Do coliseu romano às torres de Manhattan, o cinema ensinou-nos que liderar é mais do que mandar. É resistir, inspirar e, às vezes, cair de pé. Há líderes que nasceram de votos e outros que nasceram de guião. Alguns nascem da literatura e Hollywood sempre os tratou como mitos vivos — homens e mulheres capazes de mover exércitos, redigir leis morais ou desafiar impérios com um só olhar. Neste Dia Mundial do Cinema, revisitamos sete filmes com lideranças que sobreviveram à película e à época. Ícones que nos entregam lições de coragem, poder e vulnerabilidade.

Nelson Mandela — Invictus (2009)
O poder não se mede pelo medo que impõe, mas pela esperança que inspira. Em Invictus, Clint Eastwood filma Mandela (Morgan Freeman) nos primeiros anos de presidência, diante de uma África do Sul devastada pelo apartheid. Mandela percebe que não basta governar e que é preciso unir. Escolhe o rugby — o desporto dos brancos — como terreno simbólico para curar o país. O filme mostra o líder que transforma estratégia em empatia, e empatia em ação política. A lição é simples e luminosa: liderar é compreender antes de convencer.

Ben Bradlee e Katharine Graham — The Post (2017)
Steven Spielberg transforma o jornalismo em épico moral. Katharine Graham (Meryl Streep) é uma mulher a lutar por autoridade num mundo de homens, e Ben Bradlee (Tom Hanks) o editor que prefere enfrentar o poder a corromper o ofício. Quando o Washington Post decide publicar documentos secretos do governo norte-americano — os Pentagon Papers — arrisca a sua sobrevivência para defender um princípio: o direito à verdade. A liderança aqui é dupla: a coragem de decidir, e a coragem de sustentar a decisão. O filme é um tributo à lucidez cívica do jornalismo e uma demonstração que liderar é também resistir ao silêncio.

Atticus Finch — To Kill a Mockingbird (1962)
Gregory Peck dá corpo a um dos heróis mais serenos da história do cinema num filme adaptado do romance premiado com o Nobel da literatura de Harper Lee. Atticus Finch é advogado numa pequena cidade do sul dos EUA, onde o racismo é lei não escrita. Defende um homem negro acusado injustamente, sabendo que a derrota é inevitável. Mas a sua luta é outra: educar os filhos para ver o mundo sem ódio. O filme é uma carta de amor à decência, e Finch o seu mensageiro. Ele ensina que o poder mais forte é o da consciência e não precisa de aplausos.

King George VI — The King’s Speech (2010)
A voz é uma arma. E quando falha, o poder fica nu. Colin Firth encarna o rei que teme falar ao seu povo, até perceber que a autoridade sem comunicação é apenas fachada. Com a ajuda do excêntrico terapeuta Lionel Logue, descobre o valor da vulnerabilidade e transforma a hesitação em elo com o público. Tom Hooper filma um homem que aprende a comandar com humanidade, não com pompa. Liderar é falar mesmo quando a voz treme.

Erin Brockovich — Erin Brockovich (2000)
Soderbergh oferece-nos a mais improvável das líderes. Erin (Julia Roberts) é mãe solteira, sem estudos, que descobre que uma multinacional está a envenenar a água de uma pequena cidade. Com obstinação e instinto, transforma-se na consciência moral do sistema. A sua força é a da indignação informada, o impulso de não se calar. Erin prova que o carisma também pode ser suado e imperfeito. Liderar é persistir quando ninguém aposta em ti.

Maximus Decimus Meridius — Gladiator (2000)
Ridley Scott constrói uma tragédia clássica em pleno império romano. Maximus (Russell Crowe) é general traído por um imperador cobarde e lançado à escravidão. Mas mesmo nas arenas, continua a inspirar os homens à sua volta — não pelo título, mas pela dignidade. Gladiator é o retrato da liderança que sobrevive ao poder, e não o contrário. «O que fazemos na vida ecoa na eternidade» — a frase tornou-se lema de gerações. A autoridade de Maximus não é hierárquica, é moral.
Miranda Priestly — The Devil Wears Prada (2006)
Meryl Streep faz da perfeição uma forma de terror. Miranda Priestly é diretora de uma revista de moda e símbolo do poder que exige — e destrói — excelência. A sua liderança é fria, mas eficaz: um estudo sobre controlo e vulnerabilidade. David Frankel constrói, por trás da comédia, um retrato amargo do sucesso feminino num mundo que o cobra com juros. Miranda é a líder que impõe respeito sem pedir amor. E talvez por isso, continue a ser a mais realista de todas.
Quando o cinema nos ensina a mandar e a seguir
Estes sete filmes partilham pouco em aparência, mas tudo na essência. Alguns dos líderes comandam exércitos, outros tribunais ou redações. Uns levantam bandeiras, outros olhares. Mas todos enfrentam o mesmo dilema: como liderar sem perder a alma.
O cinema é o espelho onde a liderança ganha cor e peso, onde o erro se torna lição e a vulnerabilidade força. No ecrã, percebemos que liderar é expor-se, é estar à frente, sozinho, com o mundo inteiro à espera do próximo passo. E talvez seja por isso que, no fim, ainda procuramos em Maximus, Atticus ou Erin algo que os manuais de gestão nunca ensinarão: a coragem de continuar, mesmo depois de cair.



