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Entrevistas

Luis Paixão Martins: « As pessoas veem os partidos como ferramentas para os seus objetivos»

«As pessoas veem os partidos não como máquinas ideológicas, mas como ferramentas para os seus objetivos»

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5 Março, 2024 | 12 minutos de leitura

Apresenta-se como um marketeer da política e define-se como tendo uma visão objetiva sobre a realidade portuguesa, cético, mas não pessimista. Aponta para a diminuição da fidelidade dos eleitores às marcas partidárias e é convicto de que os indecisos ganham-se nos debates da televisão. Em conversa com a Líder, Luís Paixão Martins, autor de Como […]

Apresenta-se como um marketeer da política e define-se como tendo uma visão objetiva sobre a realidade portuguesa, cético, mas não pessimista. Aponta para a diminuição da fidelidade dos eleitores às marcas partidárias e é convicto de que os indecisos ganham-se nos debates da televisão.

Em conversa com a Líder, Luís Paixão Martins, autor de Como Mentem as Sondagens e Como Perder uma Eleição (Zigurate), explica o perfil do eleitor/ consumidor, que vota conforme as conveniências e atributos que o levam a escolher um candidato a primeiro-ministro.

A poucos dias das próximas eleições legislativas fala ainda da dificuldade em se recrutar políticos para uma carreira profissional. Afinal, atrair e manter talento não parece ser um desafio que se apresente apenas no horizonte da vida corporativa.

 

No repto lançado pela Líder questionamos se, nestas próximas eleições legislativas, a extrema-direita vai ganhar mais relevância. Começa logo por afirmar quem sim.

Todos os indicadores dizem que a extrema-direita vai crescer, são indicadores, não é uma opinião pessoal. Não há ninguém que acha que a extrema-direita não vá crescer, porque tudo indica que assim vai acontecer.

 

O que querem os portugueses que realmente mude? 

Para as minhas análises, eu recorro a estudos de opinião. Por exemplo, recentemente estive a estudar o que leva os eleitores a votar na AD. A maior parte das pessoas dizem que vão fazê-lo por razões ideológicas. Ou seja, porque querem um governo de direita ou não querem um governo de esquerda. Ou, porque historicamente, são pessoas de direita.

A segunda grande razão é que as pessoas estão fartas e querem mudar. Querem ter outro governo, outra pessoa, outra equipa a governar. A questão da mudança aparece para 16% das pessoas que tencionam votar na AD. O que tem graça porque quando a AD fala em mudança, refere uma ‘mudança segura’,  não uma ‘mudança aventureira’. A ideia é colocada de maneira tão cuidadosa pelo partido que quer liderar uma mudança política, que faz supor que, no fundo, os eleitores querem uma coisa diferente, mas não uma mudança.

Quem quer uma mudança de sistema são os eleitores que vão votar no Chega. O Chega não existe porque, de repente, tenha nascido em todo os portugueses um movimento de extrema-direita. Temos dez milhões de cidadãos, mas cinco milhões de eleitores. Metade dos portugueses não votam porque não têm idade, não têm direito, ou porque não lhes interessa a vida política.

O Chega conseguiu atrair essas pessoas e daí construir a sua base eleitoral. Conseguiu inscrever no seu programa, na maneira de comunicar e na sua ação, aquilo a que eu chamo o ‘assobio do cão’ – levou pessoas que não votavam a passar a votar.

Quais são as suas previsões?

Em relação a estas eleições é mais difícil de perceber.  Nas últimas eleições, não se pode dizer que o Partido Socialista tenha tido uma proposta de esquerda porque muitos eleitores, que eventualmente historicamente votavam no PSD, votaram no Partido Socialista. A ideia de esquerda e direita, simplifica a conversa, mas ela não é evidente. Historicamente, há quem diga que a nossa maioria sociológica é de esquerda. Mesmo no tempo de Cavaco Silva, das maiorias absolutas, a direita tinha 50% votos, nunca passou dos 52%.

Há uma massa de eleitores para quem é indiferente dizer se é direita ou de esquerda, e que vota por razões mais pragmáticas, ou então que se abstêm. Há uma frase que costumo dizer: as pessoas votam sempre no mesmo partido, ou abstêm-se.

Uma frase que não parece correta, mas permite perceber o seguinte: nas últimas eleições, houve cerca de 300 mil eleitores a mais. Provavelmente foram esses que se tinham abstido, que deram a vitória da maioria absoluta ao Partido Socialista. Não foram outros, não foram eleitores que tinham votado no PSD ou que tinham votado no Bloco.

Geralmente, quando há uma abstenção maior, significa que os partidos mais pequenos têm maior projeção, porque as propostas dos partidos liderantes não foram suficientemente atrativas para chamar os eleitores de última hora. Os partidos quando falam de esquerda ou direita, é para acusar os outros. Esse atributo ideológico é como se fosse um anátema e, portanto, geralmente são os partidos em competição uns com os outros que o usam. Quem trabalha no marketing eleitoral não pode pensar assim.

 

Qual a sua opinião sobre o papel das redes sociais na captação de votos?

Estou velho demais para dar uma resposta a essa pergunta. Mas da minha última experiência de campanha, que foi há dois anos, olhei como sempre fiz: os indecisos apanhamo-los na televisão. Quando queremos mobilizar eleitores indiferentes e indecisos, é lá que os encontramos. As redes sociais funcionam, sobretudo, para campanhas negativas e de animação de claques. No último debate entre o Luís Montenegro e o Pedro Nuno Santos, estiveram dois milhões e oitocentos mil espectadores. Mesmo que não decidam naquele dia, a imagem que ali passa é muito importante para a decisão..

 

E quem foi, dos dois, o que melhor transmitiu essa imagem?

Luís Montenegro foi durante dois anos o líder da oposição e, portanto, é visto mais como líder da oposição do que como primeiro-ministro. Durante dois anos, todas as frases que dizia começavam por ‘António Costa’. É difícil as pessoas olharem para ele de uma maneira diferente. E Pedro Nuno Santos é quase um desconhecido, aliás, só se conhecem os episódios maus da vida dele. Praticamente ninguém olha para nenhum deles, como há dois anos se olhava, já não falo para o António Costa, mas o próprio Rui Rio.  Os dois tinham um estatuto, um gravitas, que nenhum destes dois candidatos hoje tem.

 

Descrevem-no como o ‘consultor das maiorias absolutas’, algo que o Luís refere estar relacionado ao passado, parte do seu currículo. As coisas mudaram desde então.

O dado essencial em relação à diferença entre as eleições, de uns anos para outros, é algo que também se passa no consumo. Hoje os consumidores, com poucas exceções, são menos fiéis às marcas do que eram no passado e fazem as suas opções de compra em função de preço ou de conveniência. Em função de atributos que não têm a ver com a marca. O mesmo se passa na política.

Hoje, a grande questão é a diminuição da fidelidade dos eleitores às marcas partidárias. Tem havido uma evolução, em todos os países, e em Portugal talvez tenha sido mais lenta, em que as pessoas em vez de serem fiéis a uma determinada marca partidária, decidem, no dia de ir votar, em função ao equivalente ao preço e à conveniência. É por isso que as campanhas eleitorais são cada vez mais importantes – as pessoas decidem muito tarde. Nas últimas legislativas, cerca de 20% dos inquiridos decidiram na semana anterior. Isso também significa que as sondagens têm mais dificuldade em acertar.

Os partidos políticos e as pessoas que estão à frente das campanhas têm noção disso?

Sim, há até um fenómeno, a par deste, que é interessante. Isto quer dizer que os eleitores preocupam-se menos com a ideologia, ou seja, as pessoas não votam num partido por ser socialista, social-democrata ou por ser liberal. E hoje, a maior parte dos partidos, de algum modo, em campanha, mascara-se. Como o caso do PSD que se mascarou de AD. O PC normalmente aparece com uma coligação, a CDU. O Bloco de Esquerda é um conjunto de partidos. Mas há um partido recente, a Iniciativa Liberal, que foi criado com um tom ideológico que já não se usa. Se me tivessem perguntado a opinião sobre a criação da marca, eu teria dito para se chamar ‘Iniciativa’ e não ‘Liberal’, porque é um pouco contrassenso o nascimento de um partido com uma carga ideológica, fica muito reduzido, estreita a narrativa.

 

Se não é uma questão ideológica, então o que faz uma pessoa votar num partido, e o que faz esse partido ganhar as eleições?

Uma coisa é votar no Partido Socialista, outra coisa é votar no partido que defende o Serviço Nacional de Saúde (SNS). A ideologia são agora pequenas ideologias. É aquilo que podemos chamar ‘causas’. As pessoas votam em função de interesses pessoais. O partido que garante as pensões, emprego ou desenvolvimento da Economia.

As pessoas veem os partidos não como máquinas ideológicas, mas como ferramentas para os seus objetivos. Em relação a estas eleições, os portugueses não estão a escolher o partido, estão a escolher o candidato a primeiro-ministro.

Durante muitos anos, os eleitores tinham a ideia de que o primeiro-ministro era o equivalente a um chairman, cujo atributo mais importante era o da confiança. Atualmente as pessoas são mais exigentes, e pedem não só para ser o chairman, mas também o CEO. Ou seja, exigem confiança e competência. É muito importante essa dupla personalidade que os líderes dos governos têm de ter.

 

Qual é o tipo de perfil ideal desse político?

Digo que os eleitores não votam nos programas do governo, nas propostas, nas medidas – os portugueses votam na confiança e na competência. Até agora temos tido dois partidos que lideram a massa de eleitores, o PS e o PSD, que têm cerca de um milhão e duzentos mil eleitores cativos. São pessoas que votam sempre naquele partido, independentemente de quem estiver à frente. Esses eleitores são importantes, mas não são eles que decidem. Os outros eleitores, são chamados a votar por outras razões, que não pela marca do partido. Os que definem as eleições são aqueles que melhor identificam os atributos da competência e da confiança, em relação ao primeiro-ministro.

 

Como se transmitem esse atributos e de que forma as pessoas os avaliam? Há um lado subjetivo.

Há imensa subjetividade, mas é possível avaliar como são construídos esses atributos. Através do estudo das opiniões de amostras de eleitores, nas últimas legislativas, de 2022, foi relativamente fácil perceber. Tínhamos tido uma Pandemia e um ‘comandante supremo’ das forças do combate. Isso gera uma imagem de confiança, um estatuto em relação a esta pessoa que mais ninguém tinha.

 

Segundo o Índice de Democracia 2023, Portugal tem vindo a perder posições, com quedas nos parâmetros de funcionamento do governo, participação e cultura política. Como olha para esses indicadores?

É uma questão geracional – as gerações mais jovens são mais egoístas e menos solidárias, e isso faz com que tenham menos atividade cívica. Nem penso que seja um fenómeno português, passa-se nos países vizinhos e com uma cultura próxima da nossa. Por vezes, tende-se a acusar os responsáveis políticos de práticas que levam os cidadãos a não participar. Mas acho que, no fundo, muitos esperam dos políticos coisas que não podem fazer, e por isso não participam. Sentem-se frustrados. Há mais rotina de participação na vida política, no voto, entre as pessoas com mais idade, do que entre os mais jovens.

 

Habitação, saúde, educação, justiça, estão entre as prioridades das propostas partidárias. Os governantes estão incapazes de as fazer cumprir?

Temos de ter consciência, e vou dizer isso com algum cinismo que, felizmente, as promessas que são feitas durante as campanhas eleitorais, não são depois cumpridas. Porque se elas fossem cumpridas, o país ia à falência. Soluções como aquelas que são feitas em campanha eleitoral, em que aumenta a qualidade dos serviços, aumenta o preço da prestação dos serviços, aumentam os vencimentos e as pensões e, ao mesmo tempo, baixam os impostos – são situações irreais.

Ou as pessoas acreditam e ficam frustradas, porque depois não acontece. Ou as pessoas já não acreditam, estão céticas, como é o caso, e por essa razão acabam por se desligar da vida política, sobretudo as mais novas.

 

Dito assim, parece que um político é um animal quase em vias de extinção. Serve para quê?

É cada vez mais difícil à sociedade recrutar políticos, isso é um dado objetivo. Não estamos disponíveis para retribuir financeiramente os políticos. Das medidas introduzidas pela Troika, há dez anos, quase todos os grupos profissionais foram ressarcidos das restrições introduzidas, menos os políticos. Não há coragem de se chegar ao Parlamento e pedir para aumentar os vencimentos. Depois, a sociedade penaliza os políticos, nomeadamente através da comunicação social. A vida política exige uma capacidade de suportar a pressão, nomeadamente mediática e pública, que não se exige para nenhuma outra profissão. Vai ser cada vez mais difícil ter políticos, e quando digo mais difícil, acrescento um dado, que é ter políticos competentes. Quem tem uma vida profissional ativa, privada não aceita ir para a política. Portanto, acabamos por ter pessoas que têm uma carreira de profissionais da política, ou que são funcionários públicos ou que têm uma vida académica.

Rita Rugeroni Saldanha,
Diretora de Conteúdos

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