«O bem-estar mental dos colaboradores deve ser uma prioridade»

O dia 11 de março veio marcar definitivamente a vida dos 430 colaboradores e o rumo da SAP Portugal. Luís Urmal Carrasqueira, o diretor geral, tomava a decisão de colocar a empresa em teletrabalho, muito antes de ter sido declarado o Estado de Emergência no nosso país. Aliás, precisamente no dia em que a Organização Mundial da Saúde revelava que a COVID-19 tinha atingido o nível de pandemia.


Assim desde o dia 12 que se assume o trabalho remoto como a nova forma de trabalhar na SAP. Neste contexto e porque a atividade se ajusta ao teletrabalho, «não se perdeu produtividade ou capacidade de resposta às necessidades dos clientes. Mas, inevitavelmente, sentiu-se falta da interação e do convívio no escritório, bem como do constante diálogo e brainstorming entre as pessoas», explica à Líder o diretor geral, que assumiu funções em julho de 2017.

Luís Urmal Carrasqueira e a sua equipa de gestão cedo fizeram a leitura do novo contexto e definiram a estratégia a implementar. Identificaram as áreas de crescimento e assumiram a vontade de ajudar os clientes a reagir rapidamente às mudanças no mercado, bem como a evoluir e a prosperar nestes novos tempos. Também incorporaram a vertente de Sustentabilidade (programa Climate 21) nas soluções como uma medida crítica de sucesso para metas relacionadas com o clima.

A SAP, enquanto fornecedora de soluções para empresas, é vista como um parceiro que pode ajudar a resolver problemas e proporcionar mais vantagens competitivas a quem a procura, tirando partido da conjuntura que se vive. «Disponibilizámos o acesso gratuito a uma série de soluções, que não só permitem lidar com os problemas relacionados com a pandemia, mas também antecipar oportunidades», sublinha o diretor geral.

Como alguns dos principais exemplos, destaque para o acesso à rede de negócios Ariba da SAP, onde ainda hoje é gratuita a solicitação de orçamentos e a apresentação de propostas de fornecedores de todo o mundo e; também, a utilização gratuita da solução Qualtrics, que permite às empresas detetar o estado emocional dos colaboradores. «O bem-estar mental dos colaboradores deve ser uma prioridade para as empresas», refere. Luís Urmal Carrasqueira é um líder próximo e atento às equipas, focado na inovação e na criação de valor. Diz, ser tempo de criar rotinas, para conseguir encontrar equilíbrios e um maior sentido de união. «É importante ser empático, estar atento aos sinais dos colaboradores e ser capaz de sentir e compreender o estado das suas equipas, mesmo que não esteja fisicamente junto das pessoas». (…) «E respeitar a vontade das pessoas e promover uma cultura em que todos os colaboradores se sintam integrados».

Em entrevista à Líder, lança também uma série de temas para reflexão.

Ainda que seja uma incógnita a forma como se vai sair da crise, quais é que são os argumentos de sucesso para a vossa reinvenção organizacional na Era do “novo normal”?
Num contexto tão complexo como aquele em que vivemos, não é fácil encontrar uma fórmula mágica. Qualquer reinvenção organizacional, para ser de sucesso, terá de criar condições para ultrapassar o isolamento dos recursos humanos e uma maior ausência das equipas. No caso da SAP, porque a sua atividade ajusta-se bem ao teletrabalho, não se perdeu produtividade ou capacidade de resposta às necessidades dos clientes. Mas, inevitavelmente, sentiu-se a falta da interação e do convívio no escritório, bem como do constante diálogo e brainstorming entre as pessoas.
Se no mesmo espaço físico de trabalho é possível harmonizar as condições de trabalho para os colaboradores e, ao mesmo tempo, mitigar quaisquer constrangimentos que limitem a criatividade ou a produtividade das pessoas, agora é tempo de criarmos novas rotinas, para conseguirmos encontrar equilíbrios e um maior sentido de união.

Como é que as empresas devem pensar o day after?
Devem-no encarar como uma oportunidade. Devem fazer a leitura do novo contexto em que se encontram inseridas e definir uma estratégia que lhes permita sair vencedoras. Mesmo numa crise com esta dimensão e gravidade é possível encontrar oportunidades de inovação e de criação de valor. Aliás, apenas, assim, podem fazer sentido os planos que tanto se têm discutido para a recuperação económica do País, através de empresas que identifiquem áreas de crescimento e que assumam a vontade de evoluir e prosperar.

Fala-se muito na reinterpretação do papel dos líderes. Sente que o seu papel de líder exige novas competências?
Mais do que novas competências, um bom líder, hoje, terá de exponenciar as que já tem. É importante ser empático, estar atento aos sinais dos colaboradores e ser capaz de sentir e compreender o estado das suas equipas, mesmo que não esteja fisicamente junto das pessoas.
A autenticidade e a partilha da experiência são outros aspetos, cuja relevância cresce num contexto como o atual. As equipas precisam de senti-lo, e com isso entender que todos estão no mesmo barco, que todos estão a par do estado da empresa e dos negócios. É crucial que os colaboradores tenham a noção que integram um grupo coordenado, com objetivos comuns e com um papel fundamental no mesmo.

O que é que o coronavírus acelerou e o que alterou por completo na vossa empresa?
Esta pandemia acelerou a massificação do trabalho remoto. Algo que na SAP era passível de implementação, desde que acordado entre o colaborador e o responsável pela equipa, hoje ganhou uma nova dimensão por força do cenário que atravessamos.
Quanto às alterações, a SAP foi sempre muito ativa e muito próxima dos seus clientes e parceiros, e isso foi algo que teve de mudar, em especial no que concerne à estratégia de Marketing, a qual passou a ter um enfoque 100% virtual. Dou como exemplo a nossa recente conferência mundial, o SAPPHIRE NOW, que costuma juntar no mês de maio cerca de 30 mil pessoas em Orlando, nos EUA. Ora, este ano todo o evento foi realizado em formato digital, com muitos mais participantes.

Para quando a recuperação do setor?
A recuperação está já aí. Notamos a vontade das empresas em contar com a nossa ajuda para os seus projetos de transformação, que a crise teve o dom de acelerar. Claro que as empresas, com fundos financeiros, e que menos sofreram com a pandemia estão já a desenvolver novos investimentos, como forma de se posicionarem e ganharem competitividade no mercado. Quanto às que mais sofreram ou que foram mais impactadas, observamo-las a redefinir o seu negócio, a alargar o âmbito a novas áreas e a encontrarem novos produtos para comercialização e geração de receitas.

Até aqui, quais os impactos no negócio desta pandemia?
Notamos uma tendência, no imediato, por projetos temporalmente mais curtos, com resultados rápidos, no curto/médio prazo. A SAP, enquanto fornecedora de soluções para empresas, está a ser vista como um parceiro que pode ajudar a resolver problemas, tirando partido da conjuntura em que vivemos, e proporcionar mais vantagens competitivas a quem nos procura.
Outro impacto que verificamos é o aumento da preferência pelas soluções baseadas na cloud, para simplificação das infraestruturas de TI e para incremento da segurança face aos permanentes ciberataques que se verificam nas redes empresariais.

Que medidas foram desenhadas a esse nível?
Disponibilizámos o acesso gratuito a uma série de soluções, que não só permitem lidar com os problemas relacionados com a pandemia, mas também antecipar oportunidades. Como principais exemplos, destaco o acesso à nossa rede de negócios, onde ainda hoje é totalmente gratuito a solicitação de orçamentos e a apresentação de propostas de fornecedores de todo o mundo e; também, a utilização gratuita da nossa solução Qualtrics, que permite às empresas detetar o estado emocional dos colaboradores. O bem-estar mental dos colaboradores deve ser uma prioridade para as empresas. E, por último, destacaria os pacotes que criámos para as empresas se capacitarem para o desenvolvimento do seu comércio eletrónico e para a presença dos seus produtos no mercado digital.


Como é que está a ser preparado o regresso ao local de trabalho?
Numa primeira fase, que teve início a 1 de junho, implementámos uma estratégia de serviços mínimos. Ou seja, a sede da SAP Portugal tem em funcionamento a receção, com todas as condições sanitárias para receber quem se desloque ao nosso escritório e, também o suporte técnico, para os colaboradores que evidenciarem essa necessidade através da sua presença física. Numa segunda fase, de acordo com as normas governamentais em Portugal e em data que ainda não foi apontada, iremos implementar uma estratégia de rotação dos colaboradores no escritório, com uma ocupação máxima de 30% da capacidade total.
Gostaria de realçar que efetuámos um inquérito interno, junto dos nossos colaboradores, com o objetivo de verificar quem está em condições ou demonstra confiança para regressar ao local de trabalho, sempre com a salvaguarda de todas as exigências sanitárias. Acima de tudo, queremos respeitar a vontade das pessoas e promover uma cultura em que todos os colaboradores se sintam integrados. Será, portanto, imperativo criar as condições para que não se assista a um isolamento dos colaboradores que, pelos mais variados motivos, se vejam obrigados a exercer as suas funções a partir de casa.

Que lições gostaria de partilhar?
Numa perspetiva interna à empresa, retiramos o ensinamento que os colaboradores não precisam de estar juntos para manterem um sentido de grupo e elevarem o espírito de compromisso para com a empresa. Quando está claro, para todos, o propósito de determinadas medidas, verifica-se que cada um de nós está predisposto a dar, sempre, mais um pouco pela sua consecução.
Com referência aos líderes empresariais, entendo que quem conseguiu pensar para lá da gestão corrente e imediata, e concentrar-se na construção do futuro, irá se mostrar mais capaz de enfrentar as turbulências que se adivinham e, apesar da grave situação, ganhar uma robustez que será seguramente diferenciadora.

E que conselhos deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Prefiro lançar alguns temas para reflexão. Se as últimas crises têm servido para Portugal como catalisadores de crescimento – e para tal basta recordarmo-nos da explosão do Turismo e dos Centros de Serviços ou de Inovação no nosso país -, gostaria de deixar para discussão qual será a melhor forma da nossa indústria produtiva criar produtos que se adaptem às oportunidades que as circunstâncias ditam? Pela dimensão de Portugal, sabemos que é impossível competir pela produção em larga escala. Porém, por via de um elevado nível de sofisticação e precisão, é possível ganhar mercado e endereçar nichos de mercado específicos.
Por outro lado, as empresas portuguesas devem criar planos de contingência, que lhes permitam definir outras cadeias de abastecimento. A generalidade das empresas mundiais começa a considerar as crises sanitárias como de risco elevado para o normal funcionamento das suas organizações. E certamente serão necessárias alternativas mais rápidas (ou locais), seguras e capazes de garantir o fornecimento de produtos, mesmo num momento complexo como o que vivemos.
É aí que Portugal se deve posicionar. Mesmo que os seus produtos sejam mais caros, a qualidade dos mesmos e a maior proximidade aos mercados ocidentais devem ser aproveitadas, pelo tecido industrial português, para se posicionar e oferecer uma viável alternativa.

© Fotografias gentilmente cedidas por APDC/ Vítor Gordo

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