Há um modo de fazer arte em que o essencial não se procura como quem procura uma resposta, mas como quem aceita perder o que sobra, e é nesse gesto de perda controlada que a simplicidade, para Luísa Jacinto, vai tomando forma.
Luísa Jacinto, artista visual, trabalha a partir da ideia de que a criação começa onde o excesso termina. Licenciada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e com formação em Fine Arts na Central Saint Martins, em Londres, constrói um percurso onde a pintura e o pensamento sobre o vazio se cruzam de forma contínua.
Defende que a atenção, a espera e a capacidade de não preencher tudo são fundamentais num tempo marcado pela pressa e pela saturação de estímulos.
O que significa, para si, simplificar?
Alio simplificar a perguntar o que é essencial. Não preencher a resposta, tentar deixar espaço e tempo vazio. Saber esperar, estar disposta a ser surpreendida.
Como percebemos que é preciso tirar o excesso?
O excesso desvirtua o fim, despista-nos. Como dizia o Tolkien, desvia-nos do que devemos fazer com o tempo que nos é dado.
Como se decide o que fica e o que é eliminado?
Há alturas para gestos resolutos e há alturas para avanços e recuos mínimos. Se não for percetível, decide-se por tentativa e erro. Gosto de regressar às coisas, fazer num momento e rever noutro.
Qual o impacto da simplicidade no seu dia-a-dia e no seu trabalho?
Ajuda-me a não perder tempo com coisas que não têm valor e que me retirariam tempo e alento para outras realmente importantes. A experiência ajuda a simplificar. Ter errado muito ajuda imenso!
A verdadeira simplicidade exige que compreendamos as raízes da nossa distração. Porque é difícil encontrar a simplicidade?
Acho que é difícil quando falta atenção e curiosidade. Vivemos numa sociedade que nos pressiona a exigir tudo imediatamente. Quase nada se adequa à reivindicação. A simplicidade passa por sair da auto-absorção e prestar atenção aos outros e ao mundo.
Função: Artista Visual
Idade: 41
Educação Académica: Licenciatura em Artes Plásticas, Pintura, Faculdade de Belas Artes de Lisboa, MA em Fine Arts na Byam Shaw School of Art — Central Saint Martins, University of Arts London.
Tempo livre é para: viver! Banhos de imersão, cafés, andar de bicicleta, coser meias rotas, cozinhar para a família, beber gins tónicos com os amigos, fumar às escondidas!
Livros: são tantos…! East of Eden de John Steinbeck, Todos os nossos ontens de Natalia Ginzburg, O Livro das Horas de Rainer Maria Rilke, os poemas da Adélia Prado, a Bíblia.
Podcasts: Em Portugal, o podcast da Appleton tem uma grande amplitude de boas conversas com pessoas das artes visuais. É óptimo para conhecer este campo tão vasto.
Viagem: gostava muito de visitar toda a Itália sem pressa nenhuma nem restrições.
Líder que inspira: Mr. Chance
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui


