Mais crianças nas organizações?

O teletrabalho emergente do confinamento originou muitas reuniões e aulas em que as crianças, ao colo ou perto do pai ou da mãe, também têm “participado”. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Afinal, as crianças fazem parte da nossa existência. Nenhuma sociedade sobrevive sem crianças. Todavia, o mundo organizacional transformou-se num espaço “segregacionista” para elas. Algumas empresas conquistaram fama e proveito por terem adotado políticas amigas dos animais, sobretudo cães. Outras erigiram políticas “amigas da família”. Mas são escassas as “empresas amigas das crianças”. Tenho refletido sobre essa estranha realidade e pergunto-me se não haverá razões para mudarmos o paradigma – para benefício das crianças, dos pais e mães, e da comunidade humana.

A Nova Zelândia tem dado alguns passos. Em 21 de junho de 2018, Jacinda Ardern, a primeira-ministra, deu à luz uma menina, registada como Neve Te Aroha. Jacinda havia tomado posse no cargo poucos meses antes, em outubro de 2017. Foi a segunda vez na história que uma chefe do governo deu à luz durante o mandato, a primeira tendo sido Benazir Bhutto, então líder do Paquistão. Três meses após o parto, Jacinda participou na 73.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, fazendo-se acompanhar de Neve. Durante as suas intervenções, a criança ficou ao colo do pai, Clarke Gayford. Foi a primeira mulher a fazê-lo. Jacinda explicou que pretendia abrir caminho para outras mulheres e reafirmou que pretendia que a Nova Zelândia fosse o melhor país do mundo para ser criança. Em algumas ocasiões oficiais, Neve acompanha-a.

Na Nova Zelândia, condutas deste teor são menos incomuns do que possa supor-se. Em 2017, o Parlamento neozelandês criou regras mais amigáveis para a presença de crianças no espaço parlamentar. O seu speaker, Trevor Mallard, com três filhos adultos e seis netos, deu o exemplo quando tomou ao colo o filho de um deputado e alimentou o bebé através de biberão – ao mesmo tempo que pedia ordem durante o debate. Publicou os seus “dotes” cuidadores num tweet. Não foi a primeira vez que, na cadeira presidencial, tomou ao colo uma criança. Pedidos têm sido feitos pelos neozelandeses para que esta possibilidade seja replicada nos locais de trabalho em geral.

Não sei quais os desenvolvimentos mais desejáveis, em contexto organizacional, para este tipo de políticas e práticas. Não tenho ideias claras sobre o futuro mais recomendável. Mas sei, como todos, que ter filhos é, frequentemente, um obstáculo à progressão na carreira, sobretudo das mulheres. Alguns casais optam por não ter filhos por razões de carreira. Nos casais que os têm, a azáfama e o stresse são a marca de todos os dias.

Removemos as crianças da vida organizacional, e remetemo-las ao “seu lugar”– as organizações não são para crianças. Tomamos decisões e adotamos condutas nas organizações que teríamos vergonha de assumir perante as crianças – pois temos consciência de que seriam pouco exemplares para a sua educação como cidadãos bem-formados!  Jacinda Ardern afirmou à BBC algo que nos conduz à reflexão: “Tenho muito orgulho em ser uma política empática e focada na compaixão. Ensinamos amabilidade, empatia e compaixão aos nossos filhos, mas quando se trata da liderança política, desejamos uma total ausência dessas qualidades”. A mesma descrição poderia ser aplicada à liderança das organizações. E essa é uma das razões pelas quais não queremos que nelas haja crianças. O foco na eficiência, em detrimento de outros valores, também entra fortemente na equação. Reitero que não é para mim claro se, e em que grau, é desejável a presença de crianças nas organizações. Mas, baseando-me em investigação liderada por Francesca Gino, professora em Harvard, tenho um pressentimento: com crianças por perto, algumas práticas menos éticas nas organizações talvez fossem menos frequentes – e comportamentos pró-sociais talvez fossem mais comuns. Food for thought!


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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