Mais do que nunca, o que é nacional é bom (mesmo)!

A COVID-19 traz enormes desafios a prazo indefinido para as famílias, as empresas e o Estado. A resposta rápida de Portugal, com resultados positivos até à data, tem um preço económico associado e baralha as contas de todos nós a médio e longo prazo. As decisões já foram tomadas e seria irrelevante estarmos a discuti-las agora. Importa sim estudar os impactos do momento que vivemos, do contexto que nos espera e preparar a melhor recuperação económica possível. Nesse cenário, seja nas compras da mercearia ou na escolha das próximas férias, tenhamos sempre presente a importância de, mais do que nunca, valorizar e comprar o que é português!

O mercado de bens e serviços é o grande mercado. Este é o mercado que agita a economia e em que todos intervimos direta ou indiretamente. A COVID-19, de forma ímpar, gerou uma crise do lado da oferta e da procura em simultâneo e aqui é que está o desafio. Com as empresas a terem de fechar as suas linhas de produção, dado o confinamento obrigatório, criou-se de imediato uma redução na oferta, o que fez com que diminuísse o rendimento das empresas. Esta diminuição da receita nas empresas levou em muitos casos ao despedimento ou lay-off, facto que, independentemente da decisão de cada empresário, levará sempre a uma diminuição do rendimento disponível das famílias. Consequentemente o lado da procura é afetado. A procura está também a ser influenciada pelo encerramento dos mais variados espaços comerciais, pela limitação nas deslocações, pela incerteza e desconfiança gerada pelo momento em si.

A diminuição dos rendimentos auferidos pelas empresas e famílias vai também causar alguns problemas à banca, quer pela moratória nos empréstimos contraídos (medida já em execução mas com bastantes arestas por limar) quer pelo incumprimento (é importante ter em mente que estávamos a atravessar um período de elevados preços no imobiliário que inflacionaram naturalmente os montantes contraídos em empréstimos). Um setor do qual a nossa economia depende bastante e para o qual não se encontrou, para já, solução, é o do turismo. Com o encerramento de fronteiras, medidas de deslocação restritivas e o próprio medo de contrair o vírus fica muito difícil perceber quando e como este setor pode vir a ganhar o fulgor que recentemente impulsionou positivamente a economia nacional.

Fica assim percetível, dada a relação de proximidade muito estreita entre o mercado bens e serviços e o mercado de trabalho, que este último sofreu também um impacto pelo aumento do desemprego. Este indicador ainda não atingiu valores significativos, mas pode vir a ser um dado preocupante dado o peso de setores como o turismo, que pode atirar os níveis de desemprego para taxas semelhantes às dos anos de intervenção da Troika muito rapidamente. Basta para isso pensarmos que cerca de 20% da população empregada está em áreas afetas ao Turismo.

Para além destes indicadores, já de si preocupantes, temos de contar também com o nível de precariedade existente no que toca aos contratos de trabalho a termo, que podem facilitar os “despedimentos”, neste caso, através da opção pela não renovação dos contratos em curso devido ao contexto em que vivemos.

Muito sucintamente, mais do que a destruição do PIB em cerca de 8%, de acordo com as projeções do FMI – Fundo Monetário Internacional, temos de olhar para a queda do PIB potencial. As projeções do FMI apontam para uma destruição da capacidade de criar riqueza na ordem dos 3,5% para 2020. Só para se ter uma ideia da gravidade desta quebra, entre 2011 e 2014, a quebra totalizada ascendeu aos 2%, sendo que o ano mais grave foi o de 2012 com uma quebra de 1,2%. E todos nós recordamos as dificuldades que tivemos de ultrapassar, imagine-se agora um fenómeno com o triplo da força.

Uma condicionante, única na crise da COVID-19, que tanto pode melhorar a previsão do PIB potencial como torná-la ainda mais grave passa pela incerteza de uma segunda vaga de infetados que possa surgir com o aliviar das medidas de confinamento. Outro aspeto determinante e incerto será o tempo de espera até chegarmos a uma cura. Estes dois factos podem fazer com que os efeitos de destruição do tecido económico avancem para lá de 2020, o que seriam péssimas notícias, ou que tenhamos uma recuperação mais rápida que o esperado.

No lado das certezas está a ideia de que serão necessários mecanismos de resposta bastante fortes e coesos por parte da União Europeia. Será necessária a tal “bazooka”, caso contrário, e dado o nosso nível de endividamento externo, estaremos mais uma vez extremamente expostos e debilitados em Portugal.

É assim essencial que, neste momento, depois de termos cumprido com a primeira parte do plano e o confinamento ter sido respeitado com uma contenção do crescimento da famosa curva, continuemos a ter um papel vital na recuperação do nosso país. Quando sair à rua, quando estiver nas compras ou quando pensar em  marcar as próximas férias, lembre-se que o que é nacional é bom. Vá para fora cá dentro.

São chavões, bem sei, mas se não formos os primeiros a apoiar o que de melhor se faz em Portugal e a criar condições para que as nossas empresas possam lentamente ir recuperando o seu fôlego, vamos colocar todo o esforço dos últimos anos em xeque e aumentar as incertezas e dificuldades do futuro dos próximos.


Por Tiago Moura, head of Finance and Administrative Services na Fabamaq

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