As conversas mais ruidosas sobre a Inteligência Artificial (IA) tendem a oscilar entre dois extremos: utopia e colapso. Por um lado, a IA vai resolver tudo, por outro, vai destruir empregos, confiança e a ordem social. Ambas as perspetivas falham pontos mais profundos. A verdadeira promessa da IA não é uma inteligência maior. É a oportunidade de deixar de forçar os seres humanos a viver como máquinas.
Essa pode ser a questão mais importante da próxima década: não se a tecnologia consegue pensar melhor do que nós, mas sim se nos pode libertar da forma cada vez mais mecânica que muitos de nós já vivemos: processar emails, formatar apresentações, organizar dados, gerir tarefas administrativas, cumprir sistemas e responder a intermináveis exigências de baixo nível sobre o nosso tempo e atenção.
Grande parte da vida moderna não é preenchida por trabalho profundamente humano. É repetitiva, transacional e entorpecente. Nesse sentido, o melhor futuro para a IA não é aquele em que as máquinas se tornam mais humanas, mas sim aquele em que os humanos são libertados das partes da vida que se assemelham a máquinas. Mas há um senão!
As mesmas tecnologias que podem eliminar tarefas penosas também nos podem esvaziar de significado. É por isso que o verdadeiro desafio não é quanto automatizamos, mas sim saber o que nunca deverá ser automatizado logo desde o início.
Pensei nesta tensão em todas as fases da minha carreira. Como analista financeiro na EY, vi como a tomada de decisão orientada por dados podia criar rapidez e eficiência, enquanto reduzia a complexidade humana a métricas numa folha de cálculo. Mais tarde, na área dos videojogos, observei como os sistemas digitais moldavam o comportamento de milhões de pessoas em tempo real. Um único jogo podia atrair 50 milhões de jogadores em menos de seis meses. A essa escala, a tecnologia nunca é apenas uma ferramenta neutra.
Cada ciclo de recompensa, cada notificação, cada sistema de recomendação está, silenciosamente, a dizer às pessoas para onde olhar, o que valorizar e como se comportar. O que os videojogos me ensinaram é que a otimização nunca é inocente.
Os sistemas funcionavam. Aumentavam o envolvimento, reforçavam a retenção e impulsionavam o crescimento. Mas também levantavam questões mais profundas. Quem decide o que é amplificado? Que formas de comportamento estão a ser recompensadas? Que tipos de atenção estão a ser extraídos, e a que custo? Muito antes de a IA se tornar tema de debate público, os produtos digitais já estavam a condicionar o comportamento humano em grande escala. A inovação avançava rapidamente. A reflexão não.
Essa mesma tensão está no centro da minha investigação académica. Em trabalhos revistos por pares com colegas da NOVA e da Penn State, analisámos o que acontece quando a IA substitui o julgamento humano em serviços de luxo. Em quatro estudos, verificámos que recomendações geradas por IA reduziam a perceção de singularidade dos consumidores e contribuíam para a diluição da marca. Noutra investigação sobre IA imersiva na hotelaria de luxo, concluímos que experiências impulsionadas por IA diminuíam a vontade das pessoas de utilizar esses serviços e reduziam o valor de luxo percecionado.
A tecnologia tinha bom desempenho. Mas o desempenho, por si só, não era suficiente. Em setores onde as pessoas valorizam discernimento, cuidado, singularidade e reconhecimento emocional, a IA pode enfraquecer precisamente aquilo que deveria reforçar. Pode tornar uma experiência mais eficiente, mas menos significativa. Mais escalável, mas menos especial. Talvez mais inteligente, mas menos humana.
É aqui que grande parte da conversa pública fica aquém. Continuamos a perguntar se a IA é ética, inovadora e poderosa. São questões válidas, mas incompletas.
A pergunta mais incisiva é esta: que tipos de valor humano estamos dispostos a trocar em nome da otimização? Porque nem tudo melhora quando se elimina a fricção. Alguma fricção é desperdício. Outra é precisamente o essencial.
Ninguém sonha passar mais tempo em tarefas administrativas. Poucas pessoas se sentem realizadas a gerir caixas de entrada ou a fazer relatórios rotineiros. Esses são exatamente os fardos que a tecnologia deve ajudar a carregar. Mas o julgamento, a intimidade, o reconhecimento, a confiança, a criatividade e a sensação de ser verdadeiramente visto por outra pessoa não são ineficiências a eliminar.
São algumas das partes mais valiosas da vida. É por isso que acredito que os líderes que vão definir a próxima década não são os que adotam tecnologia mais rapidamente. São os que sabem o que deve permanecer humano.
Aquilo que muitas vezes desvalorizamos como soft skills está a tornar-se o fator diferenciador mais difícil. Julgamento. Confiança. Discernimento emocional. Coragem moral. A capacidade de alinhar pessoas em torno de significado. À medida que mais execução é automatizada, estas capacidades não se tornam menos importantes, tornam-se decisivas.
Vejo isto todos os dias no TEDxMarvila, uma plataforma construída inteiramente por voluntários. Não teria nem metade do impacto que tem se não fosse movida por voluntariado. As pessoas participam porque acreditam na ideia, na comunidade e no que pode acontecer quando alguém dedica o seu tempo e energia a algo maior do que si próprio. A tecnologia pode apoiar esse tipo de trabalho, mas não o pode gerar.
Nenhuma máquina pode voluntariar-se em nome de uma crença. No What’s Next Summit da Porto Business School, desafiei a audiência a deixar de tratar a tecnologia como neutra. Cada conjunto de dados reflete escolhas. Cada algoritmo transporta pressupostos. Cada sistema automatizado privilegia determinados resultados em detrimento de outros. A verdadeira responsabilidade da liderança não é apenas implementar estes sistemas, mas decidir onde pertencem e onde não.
A IA pode eliminar tarefas penosas. Pode alargar o acesso. Pode melhorar sistemas que desperdiçam tempo e energia humanos. Essa é a sua promessa. Mas não nos pode dizer o que é sagrado.
Não pode determinar o que deve permanecer lento, relacional, imperfeito ou belamente ineficiente. Essa continua a ser a nossa função.
O futuro não pertencerá às organizações que automatizam tudo. Pertencerá àquelas que têm o discernimento para saber que partes da vida devem tornar-se mais fáceis e quais nunca devem ser entregues.
Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

