António José Seguro tomou posse como Presidente da República Portuguesa, marcando o fim de uma década inteira de liderança de Marcelo Rebelo de Sousa. Dez anos que se estenderam por ruas, mercados, cafés e arruadas — onde o Presidente era tão conhecido pelas selfies e beijos roubados na rua como pelas decisões constitucionais que marcaram o país. Entre copos de ginjinha no Barreiro, conversas de bairro e discursos formais, Marcelo transformou a Presidência numa presença quotidiana na vida dos portugueses.
Nascido em Lisboa a 12 de dezembro de 1948, Marcelo Rebelo de Sousa cresceu numa família ligada à vida pública e à reflexão política. Licenciou‑se e doutorou‑se em Direito pela Universidade de Lisboa, onde mais tarde se tornaria professor, formando gerações de estudantes de ciência política e constitucionalismo. Antes de Belém, Marcelo iniciou a sua carreira política em 1975, sendo eleito deputado à Assembleia Constituinte logo após o 25 de Abril de 1974. Neste papel, participou na elaboração da Constituição Portuguesa de 1976, ajudando a moldar os alicerces do regime democrático que ainda hoje vigora. O seu trabalho nesta fase inicial destacou-se pelo rigor académico e pelo cuidado em equilibrar os interesses políticos com os direitos constitucionais fundamentais.
Nos anos 80 e 90, Marcelo tornou-se ativo no Partido Social Democrata (PSD). Entre 1996 e 1999, assumiu a liderança do partido, sucedendo a Fernando Nogueira e preparando o PSD para disputar eleições legislativas e presidenciais. O seu tempo à frente do partido foi marcado por tentativas de modernização e reforço da imagem social‑democrata, mas também por derrotas eleitorais, que o levaram a afastar‑se temporariamente da linha da frente política.
Antes da liderança partidária, Marcelo teve cargos de secretário de Estado e funções governamentais em áreas relacionadas com a educação e cultura, consolidando o seu perfil de académico-político. No entanto, nunca ocupou funções de Primeiro-Ministro ou ministro pleno — algo que reforçou a sua imagem de independente dentro da esfera do PSD, capaz de transitar depois para um papel de árbitro político.
Construiu ainda uma carreira notável como jornalista e comentador político — um ‘professor’ que enchia estúdios de rádio e televisão com análises afiadas, acessíveis e sempre pontuadas por humor e clareza. Era essa voz que tantos portugueses ouviam ao domingo, como se fosse um amigo a explicar o mundo.
A Presidência começa… nas ruas
Quando venceu as eleições em janeiro de 2016 e tomou posse meses depois, Marcelo chegou à Presidência com um estilo pouco habitual: um chefe de Estado que parecia caminhar para fora do Palácio, em vez de ficar sempre dentro dele. As famosas arruadas — passeios pelas ruas, mercados, feiras e cafés — transformaram‑se em espetáculo popular: era comum vê‑lo a interromper caminhos para conversar, sorrir, dar beijos e abraços, responder a selfies com entusiasmo contagiante, e, claro, parar para um copo de ginjinha com quem estivesse por perto.
A sua presença nas ruas deu‑lhe um apelido informal nas bocas dos portugueses: o Presidente que não tem receio da praça pública.
Reeleição e números que contam uma história
Em 24 de janeiro de 2021, Marcelo foi reeleito Presidente da República na primeira volta, com uma vitória categórica em meio a um contexto político e social desafiante — vivendo ainda a sombra da pandemia de COVID‑19. Nas urnas, conquistou 60,7% dos votos válidos, num universo de milhões de eleitores, recebendo mais de 2,5 milhões de votos no total — um resultado robusto que consolidou a sua posição como figura central na política portuguesa.
Esse desempenho não foi apenas uma vitória numérica: ele representou uma aprovação transpartidária de um Presidente visto tanto à esquerda como à direita como um moderador e símbolo de estabilidade. Numa eleição marcada por abstenção recorde — em parte por causa das condições sanitárias e do confinamento — Marcelo conseguiu mais votos do que na sua eleição de 2016, algo que nem todos os seus antecessores alcançaram ao lutar pela reeleição.
As polémicas que marcaram a década
Nenhum Presidente permanece uma década no cargo sem atravessar polémicas que mexam com a opinião pública, com as instituições e com a sua própria imagem. Marcelo Rebelo de Sousa também enfrentou episódios que dividiram interpretações, levantaram questões sobre ética, poderes constitucionais e a sua própria intervenção no espaço público.
O ‘Caso das Gémeas’ — ética, responsabilidade e debate público
Uma das polémicas mais mediáticas envolveu o denominado ‘caso das gémeas luso‑brasileiras’ — duas crianças com atrofia muscular espinhal que em 2019 receberam um tratamento excepcional e muito caro no Hospital de Santa Maria. O caso, inicialmente noticiado pela imprensa, despertou suspeitas de que o filho de Marcelo, Nuno Rebelo de Sousa — então residente no Brasil — teria enviado um pedido ao pai para apoio na vinda das crianças a Portugal. Marcelo reconheceu publicamente que recebeu um e‑mail nessa linha, mas negou ter tomado decisões que beneficiassem indevidamente as crianças ou que tivesse qualquer envolvimento direto no processo clínico ou administrativo.
O episódio evoluiu para uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Parlamento, que discutiu eventuais contatos, diligências e responsabilidades políticos. Uma proposta de relatório, apresentada pela deputada relatora, concluiu que poderia ter havido «abuso de poder» por parte da Presidência, ao considerar a influência implícita de um pedido presidencial e «diligências acrescidas» no tratamento face a outros casos.
Marcelo acabou por decidir não voltar a pronunciar‑se sobre o caso, alegando que, após um longo período de recolha de informações e depoimentos, não surgiram «novos dados de facto» que justificassem uma nova intervenção ou explicação pública mais detalhada.
Este tema mexeu com a opinião pública — sondagens chegaram a apontar que uma maioria considerava que Marcelo teria intervindo de forma privilegiada — uma perceção que motivou debates sobre ética no exercício das funções presidenciais e a fronteira entre solidariedade pessoal e responsabilidade institucional.
A Constituição, o Chega e os limites do papel presidencial
Outro foco de debate esteve na interação entre o Presidente e propostas legislativas ou posicionamentos de partidos como o Chega — particularmente face a iniciativas que poderiam pôr em causa princípios constitucionais como a igualdade, a não discriminação ou a proteção de direitos fundamentais.
Por exemplo, em 2025, o Parlamento aprovou um projeto de lei que visava a proibição de coberturas faciais em espaços públicos, fruto de uma proposta do Chega com apoio do centro‑direita. Marcelo teve a opção de sancionar, vetar ou submeter a lei ao Tribunal Constitucional, optando por considerar a constitucionalidade e potencial impacto de matérias sensíveis antes de uma decisão final.
Da mesma forma, quando o Governo aprovou reformas nas leis de imigração — também com influência de partidos mais à direita — Marcelo recorreu ao Tribunal Constitucional, questionando se certas partes violavam princípios de igualdade ou de unidade familiar consagrados na Constituição.
Estas posições, mais técnicas e institucionais do que políticas, alimentaram críticas tanto à direita como à esquerda: uns acusaram‑no de excessiva intervenção no debate legislativo, outros de não o fazer com firmeza suficiente. Seja como for, reforçaram a noção de que o Presidente tem um papel constitucional específico — de guardião dos princípios fundamentais — que pode chocar com a agenda de forças políticas mais radicais.
Frases que ficaram no imaginário coletivo
Mais do que números ou estatísticas eleitorais, Marcelo marcou os portugueses pelas palavras que os acompanhavam no dia a dia, repetidas em cafés, nas ruas e nos lares, quase como refrões familiares que traduzem uma época.
«O povo é quem mais manda, e foi o povo que me confiou a Presidência da República.»
Palavras de vitória que soaram em 2016 e voltaram a ecoar em 2021, ditas com aquele sorriso fácil e o tom próximo que fazia cada português sentir-se ouvido — um lembrete de que, no coração da democracia, está sempre o cidadão comum.
«A vida é para se viver, o país é para se cuidar.»
Uma frase que sintetiza o estilo de Marcelo: afetuoso, direto e ao mesmo tempo institucional. Foi dita em múltiplas ocasiões, sobretudo em arruadas e visitas populares, e passou a representar a sua filosofia de proximidade e atenção às pessoas.
«Ano novo, esperança renovada.»
Na sua última mensagem enquanto Presidente, Marcelo combinou simplicidade e calor humano, transmitindo continuidade e confiança, como se falasse com cada português individualmente, ao mesmo tempo que encerrava uma década de presença constante e palpável.
Estas frases, simples mas carregadas de significado, transformaram-se em verdadeiros chavões populares, repetidos nas conversas à hora do café, nos mercados e até nas redes sociais, encapsulando o legado de um Presidente que conseguiu ser formal e humano ao mesmo tempo.
Entre a gravata e o copo de ginjinha
Ao olharmos para os dez anos de Marcelo, percebemos que ele não foi simplesmente um Presidente tradicional, preso ao cerimonial e ao protocolo. Soube transformar a Presidência numa performance de proximidade, de afetos e presença pública, sempre com um pé na tradição jurídica e outro nas ruas do país. Com beijos, selfies e conversas improvisadas, ganhou popularidade que, por vezes, se sobrepôs às linhas rígidas da política institucional. No fundo, foi o Presidente que tirou a gravata à República com a ginjinha na mão.
Agora, com António José Seguro oficialmente no Palácio de Belém, o país vira uma página importante da sua história democrática. Mas resta a memória de um Presidente que fez do carinho e da conversa uma parte inseparável da vida política portuguesa.
Créditos: Presidência da República


