Márcio Cruz (Coca-Cola): «Combater as alterações climáticas é o maior desafio da Humanidade»

A Sustentabilidade está no centro da estratégia empresarial da Coca-Cola European Partners Portugal. “Avançamos” é o plano de ação que a leva a tomar medidas em seis áreas: embalagens, clima, água, sociedade, bebidas e cadeia de abastecimento.

«Para implementar este plano, a CCEP vai investir 250 milhões de euros na Europa Ocidental durante os próximos três anos para fornecer apoio financeiro à descarbonização nas diferentes áreas de atividade», partilha Márcio Cruz, Head of Public Affairs, Communication & Sustainability na Coca-Cola European Partners Portugal (CCEP). Esta que é a principal engarrafadora da Coca-Cola no Mundo, engloba na sua cadeia de valor vários domínios: das embalagens, aos ingredientes, incluindo as operações, transporte e equipamentos de refrigeração.

A estratégia para os 14 países que formam a Coca-Cola European Partners é definida de forma global, com objetivos comuns, Márcio Cruz partilha como a Sustentabilidade é vivida no dia-a-dia. Tudo isto, delineado com a missão clara de acelerar o desenvolvimento das soluções para se tornar numa empresa de emissões zero em 2040, em linha com o acordo de Paris, e para liderar a passagem para uma economia mais circular.

A Líder falou com Márcio Cruz sobre o caminho traçado para a Sustentabilidade, as grandes conquistas do mercado português e os programas que estão a ser desenvolvidos na Hotelaria e Restauração para facilitar a adoção de boas práticas ambientais.

Qual é o compromisso da sua empresa perante os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas?
É importante que todos tenhamos um papel ativo para combater as alterações climáticas. É provavelmente o maior desafio da Humanidade onde indivíduos, governos e empresas têm todos o seu papel a desempenhar. A Sustentabilidade está no centro da nossa estratégia empresarial, que nos leva a tomar medidas em seis áreas-chave, onde sabemos que temos um impacto significativo e que são prioridades para os nossos grupos de interesse. Este plano de ação transversal, conhecido por “Avançamos” reúne as metas, os desenvolvimentos e resultados da nossa atuação nas embalagens, no clima, na água, na sociedade, nas bebidas e respetiva cadeia de fornecimento. Em cada uma destas áreas, assumimos uma série de compromissos que estão alinhados com os objetivos base para o Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A Ação Climática é assim uma prioridade?
Claramente. No final de 2020 anunciámos o nosso compromisso em acelerar a descarbonização do nosso negócio, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de toda a cadeia de valor em 30% até 2030 (em comparação com 2019), adicionais aos já 30,5% reduzidos desde 2010, um objetivo que define o caminho para nos tornarmos uma empresa com emissões zero em 2040, em linha com o acordo de Paris para limitar o aquecimento global a 1,5˚C.

Quais são as ambições em concreto? E qual a estratégia para as alcançar?
Iremos reduzir as emissões de GEE nas cinco áreas da nossa cadeia de valor: embalagem, ingredientes, operações, transporte e equipamentos de refrigeração. O compromisso é de redução em toda a cadeia de valor, não apenas nas emissões diretas, mas especialmente enfocado na redução das emissões indiretas de nível 3 (as que geram mais desafios), comprometendo-nos a apoiar também os nossos fornecedores na definição das próprias metas de redução de emissões de carbono com base em critérios científicos e a usar 100% de eletricidade de fontes renováveis.

Quais são as mudanças que terão de ser implementadas?
Para implementar este plano de ação a CCEP irá investir 250 milhões de euros na Europa Ocidental durante os próximos três anos para fornecer apoio financeiro à descarbonização nas diferentes áreas de atividade. O que inclui ações como uma maior redução da pegada de carbono do seu equipamento de refrigeração ou a continuação do trabalho em embalagens sustentáveis. Vamos continuar a fazer progressos no nosso objetivo de conseguir incluir plástico 100% reciclado, rPET, nas nossas embalagens PET, o que implica também o investimento em tecnologias de despolimerização. Já em 2021 iremos incorporar 50% de rPET nas bebidas carbonatadas e 100% nas não carbonatadas, muito acima e antecipadamente aos 25% exigidos pela UE para 2025. Tudo isto tem como objetivo acelerar o desenvolvimento das soluções para nos tornarmos uma empresa de emissões zero.
O compromisso assumido é tal que incluímos a meta de redução de Gases de Efeito de Estufa no Plano de Incentivos da nossa equipa de Direção. Quinze por cento do seu plano é atribuído em função do cumprimento do objetivo de redução das emissões nos próximos três anos.

Que métricas já foram alcançadas?
Desde 2010 já investimos em Portugal cerca de 1,55 milhões de euros em medidas exclusivas de eficiência energética, o que se traduziu numa redução de custos de 3,2 milhões de euros e de emissões de CO2 de 17.400 t. Este modelo integrado de gestão de energia permitiu-nos alcançar em Portugal uma melhoria sustentada na eficiência energética de 33%, desde 2010 e reconhecimento a nível internacional.
Em julho de 2020, a Coca-Cola European Partners em Portugal recebeu o 2020 Energy Management Insight Award, sendo a primeira empresa portuguesa a ser distinguida com este galardão. Este prémio internacional é promovido pelo Clean Energy Ministerial, fórum mundial que engloba os ministros do ambiente e líderes governamentais de 26 países, reconhecendo as organizações pelos benefícios alcançados com a implementação de sistemas de gestão de energia certificados pela ISO 50001.
Desde 2018 que toda a energia elétrica contratada na fábrica de Azeitão é certificada de origem renovável (eletricidade verde) e nos últimos três anos investimos 3,857 M€ em novos equipamentos de frio energeticamente mais eficientes. Deste investimento resultou uma redução de emissões de cerca de 46% nos equipamentos de frio (2019 vs 2010). Com esta redução o consumo energético baixou de 72 mil MWh para cerca de 42 mil MWh (-41%). Em termos de transportes temos uma parceria bem-sucedida com a CHEP e a utilização das paletes de madeira reutilizáveis. Com esta parceria obtivemos uma redução de 60% nas emissões de CO₂ relacionadas com as embalagens terciárias e, assim, conseguimos diminuir em 2019 8200 toneladas de CO2, reduzir o consumo de madeira nas paletes de uso único, o equivalente a salvar 18.400 árvores e evitar resíduos correspondentes a cinco anos de acumulação de resíduos em Lisboa.
Outra medida importante foi a passagem das frotas de veículos de transporte dos parceiros para camiões a gás, a incorporação de camiões de “dupla altura” para vasilhame permitindo aumentar a sua capacidade de carga e reduzir as suas deslocações, e continuar a apostar na produção nacional de mais de 90% do nosso portefólio reduzindo as emissões de CO2.
Em termos dos materiais de embalagens colocados no mercado, incluindo todo o portefólio comercial e todo o tipo de embalagens (primárias, secundárias e terciárias) verifica-se uma redução de 33% em peso absoluto, em 2019, comparativamente a 2010.

Em que ponto está o vosso setor nesta matéria?
A Sustentabilidade é uma preocupação para o nosso setor há algum tempo. Nos últimos anos temos assistido a avanços muito importantes quer no aumento da percentagem de incorporação de plástico RPet nas embalagens como na otimização dos processos de recolha e reciclagem das mesmas. Por exemplo, todo o setor, através das instituições que o representam, está neste momento a trabalhar para um sistema de depósito e reembolso (SDR) eficaz, que permita uma maior e melhor recolha das embalagens. Para o setor é fundamental aumentar os índices de recolha de embalagens e a disponibilidade de PET reciclado, e o SDR é essencial, para atingirmos o nosso objetivo de recolha de 100% das nossas embalagens.

Como surge esta necessidade de colocar a Sustentabilidade no centro das prioridades da empresa?
Como referência no setor da alimentação e bebidas, temos um papel importante a desempenhar nas respostas aos desafios que enfrentamos. Queremos liderar esta mudança para uma economia mais circular. Se é possível fazer crescer o nosso negócio, minimizando o impacto da nossa atividade no meio ambiente e deixando uma marca positiva na sociedade, agindo de forma responsável para que os nossos colaboradores e os nossos clientes, porque não fazê-lo? Acima de tudo é uma questão de responsabilidade para com as pessoas e o Planeta.

Como é vista a empresa em Portugal dentro do Grupo à luz da Sustentabilidade?
A estratégia para os 14 países que formam a Coca-Cola European Partners é definida de forma global, com objetivos comuns, pelo que existem muitos e bons exemplos de sustentabilidade e de como a vivemos no dia-a-dia. A nível do nosso contributo em Portugal podemos dizer que fomos por exemplo a primeira fábrica europeia a cumprir as 10 medidas de eficiência energética de elevado impacto propostas pela WWF e The Coca-Cola Company ou a já referida distinção do Energy Management Insight Award recebida em 2020.

Foi criado algum departamento ou grupo de trabalho que se dedique à Sustentabilidade?
A Sustentabilidade na Coca-Cola European Partners é transversal a todos os países, níveis de gestão e estruturas locais. Existem estruturas globais, a nível de unidade de negócio e a nível local. Podemos dizer que no total dos 14 países, e porque faz parte do trabalho de todos, são 23 300 os colaboradores dedicados à sustentabilidade!

Quais são agora os próximos passos?
Recentemente aderimos à iniciativa EV100 do The Climate Group e durante o primeiro semestre iremos trocar toda os veículos da nossa frota comercial por veículos híbridos.
Outro dos objetivos a curto prazo será atingir a meta de incorporação de 50% de Pet Reciclado (R-PET) em todas as nossas embalagens.

E quais as prioridades desta área?
Uma das prioridades é sem dúvida o desenvolvimento das tecnologias de despolimerização que nos permita uma maior percentagem de R-PET para incorporação e alcançar uma economia circular para PET. A CCEP desenvolveu uma parceria com a CuRe Technology, uma startup de reciclagem que procura descobrir novas formas de utilização dos resíduos de poliéster plástico difíceis de reciclar. A CuRe irá apoiar a CCEP no seu objetivo de eliminar o PET virgem de origem fóssil das suas embalagens durante a próxima década, o que ajudará a eliminar a utilização de mais de 200.000 toneladas de PET virgem por ano do nosso portefólio de embalagens e apoiará a transição para uma economia circular de embalagens PET.

Quais têm sido as vossas contribuições para o progresso dos clientes nesta matéria?
A prioridade junto dos clientes tem sido sem dúvida dar uma resposta rápida perante as necessidades criadas pela Pandemia. Os diferentes canais de clientes sofreram impactos diferentes e o nosso foco tem estado na sua recuperação económica, que acreditamos que também passará por uma recuperação mais “verde”. Tínhamos já criado por exemplo um programa de troca de equipamentos de frio por equipamentos energeticamente mais eficientes, permitindo que reduzam ativamente a sua pegada e consumo energético. Na Hotelaria e Restauração estamos a desenvolver programas que facilitem a adoção de boas práticas ambientais nos espaços de consumo e atividades de gestão, que possam também ser reconhecidos pelos consumidores.

Pode partilhar algumas recomendações para tornar as empresas e os negócios sustentáveis?
A análise correta da informação disponível é sem dúvida uma das questões chave para se conseguir ser mais sustentável, em qualquer empresa ou área de negócio. Tal qual como analisamos o desempenho do volume de vendas, também o devemos fazer para os indicadores de sustentabilidade, em toda a cadeia de valor, e a partir daí encontrar oportunidades de melhoria e soluções para o progresso “verde”.

Artigos Relacionados: