A mente multidimensional de um líder excecional

Ashlee Vance é atualmente um dos jornalistas mais proeminentes na área da tecnologia. Depois de trabalhar vários anos para o The New York Times, onde escrevia sobre o Silicon Valley e a indústria da tecnologia, passou para a revista Bloomberg Businessweek, onde foi responsável por dezenas de histórias e artigos de capa sobre temas como a ciber-espionagem, o sequenciamento de ADN ou a exploração espacial. Em 2015, Vance lançou o seu livro mais conhecido, Elon Musk: Tesla, Space X e a Quest for a Fantastic Future, uma biografia detalhada, resultado de muita investigação e ponderação, sobre o homem descrito como o Thomas Edison ou o Homem de Ferro dos nossos tempos. Elon Musk é pintado como um industrial excêntrico — inventor e homem de negócios — com uma visão quase dementemente ambiciosa, uma capacidade impressionante de lidar com o stress e a capacidade, muitas vezes dura, mas necessária, de retirar o máximo das pessoas.

Por: Ricardo Vieira
Fotos: DR

Líder (L): Começando pelo ponto de partida, trabalhou como repórter em muitos locais diferentes, não é assim?

Ashlee Vance (AV): Sim, comecei em publicações especializadas em tecnologia, a escrever sobre coisas bastante complexas, como microprocessadores e servidores e centros de dados. Depois, mudei para o The Register — uma publicação britânica sobre tecnologia — e depois para o New York Times e a Bloomberg Businessweek.

L: Como surgiu a ideia de entrevistar Elon Musk e escrever um livro sobre ele?

AV: Fiz uma história de capa sobre o Elon para a Businessweek em 2012 e isso fez crescer o meu interesse por ele. Eu sempre considerei o Elon como um impostor em Silicon Valley — alguém que promete o mundo, mas que nunca cumpre as suas promessas. Até que, em 2012, as suas empresas começaram finalmente a acertar o passo e a fazer coisas incríveis.
Eu investiguei as empresas e entrevistei-o, e achei a sua história de vida e a sua autenticidade refrescante, foi por isso que decidi fazer o livro.

L: Quando começou a escrever o livro, ele recusou-se a cooperar consigo, não foi? Como é que o convenceu?

AV: Esta foi a maior batalha por trás do livro. Quando ele se negou a cooperar, eu já tinha vendido a ideia a um editor. Pensei em desistir durante algum tempo, mas depois decidi usar o próprio lema do Elon contra ele e continuar a insistir sem aceitar um não como resposta. Depois de cerca de 18 meses, ele ouviu falar das 200 pessoas que eu entrevistei e apercebeu-se de que eu ia fazer o livro, contra tudo e contra todos. Nesse momento, aceitou fazer as entrevistas.

L: Qual é o seu objetivo com este livro? O que pretende demonstrar? 

AV: Eu queria fazer várias coisas com o livro. Por um lado, queria contar a história de vida do Elon e dar a conhecer às pessoas as extraordinárias mudanças que estavam a ocorrer no setor aeroespacial, automóvel e da energia. Mas principalmente, eu queria contar uma boa história, e ele forneceu um ótimo veículo para isso, já que a sua vida teve tantos altos e baixos dramáticos.
Numa perspetiva mais ampla, eu estava muito desiludido com o estado do Silicon Valley. Havia tantos investidores e engenheiros que perdiam o seu tempo com aplicações fúteis. Eu senti que o Elon era um regresso aos dias em que as pessoas tentavam levar a física e a ciência até aos seus limites, e eu queria destacar isso.

L: Elon Musk é realmente diferente do resto de Silicon Valley, que muitos acreditam que é apenas um conjunto de pessoas inteligentes que fazem coisas estúpidas e grandes mentes que desenvolvem pequenas ideias?

AV: Para mim, ele é mesmo muito diferente. Ele está disposto a assumir riscos muito maiores do que a maioria dos CEO e trabalhadores. Ele está a lidar com o mundo físico e a tentar alterar o curso da humanidade. Estes são objetivos muito mais elevados do que aplicações para entrega de alimentos!

L: Acredita que o Elon Musk poderia ser o novo Steve Jobs? Ele é o “herói” que Silicon Valley precisa?

AV: Em grande medida, ele já é o próximo Steve Jobs. Silicon Valley tende a ser bastante “religioso” na forma como celebra este tipo de pessoas. O Elon já tem todo um culto em torno dele, para o bem e para o mal. Ele é o tipo que todos querem ser.

L: Quais são os atributos de sucesso do Elon e o que o torna diferente das outras pessoas?

AV: Ele é, obviamente, muito inteligente, o que desempenha um papel importante no seu sucesso. Mas eu diria que é o seu impulso implacável que o distingue. Eu não acho que muitas pessoas gostariam de viver como ele vive. Ele dedicou cada segundo da sua vida às suas empresas, à custa da sua vida pessoal e, provavelmente, da sua saúde. Mas ele simplesmente não vai parar até conseguir o que quer.

L: Falando sobre o seu passado, isso tem algo que ver com a pessoa em que ele se tornou?

AV: Sim, é claro. Ele foi alvo de bullying quando era criança e tratado como uma espécie de pária ou proscrito. A sua vida familiar não era muito melhor em casa. Ele teve sempre dificuldades em se integrar e lançou-se numa cruzada para ser amado pelo mundo e provar que é melhor do que as pessoas que o trataram mal. Eu acho que ele quer sentir que o público o adora e que o aceitam.

L: Ao longo da toda sua carreira, quais pensa que foram os momentos mais críticos para ele?

AV: Isso é difícil. As duas primeiras empresas – a Zip2 e a PayPal — ensinaram-lhe que precisava de ser um líder melhor e saber lidar melhor com as pessoas. Também o ajudaram a ganhar confiança porque as empresas geraram muito dinheiro. Eu diria que sobreviver a 2008 foi o segundo grande momento difícil porque a Tesla e a SpaceX estiveram muito perto de falir no meio da crise financeira.

L: Falando sobre a Tesla, qual foi o seu ímpeto para criar esta empresa e onde está ela agora?

AV: Até certo ponto podemos dizer que a Tesla lhe caiu no colo. Os fundadores da empresa precisavam de um investidor e o Elon começou como o consultor e o homem do dinheiro. Quando a empresa se debateu com dificuldades, ele teve de a assumir e depois acabou por ser arrastado lentamente para dentro da empresa. Atualmente, a Tesla está no ponto mais crucial da sua história. Acabou de lançar o Modelo 3, que se destina a ser um carro elétrico a baixo preço para as massas. A Tesla tem de provar que pode fazer uma tonelada destes carros e fazê-los a baixo custo para sobreviver financeiramente. É uma grande aposta.

L: E quanto à SpaceX? Esta parece ser a empresa mais importante para ele, porquê?

AV: Provavelmente isso pode parecer estranho para as pessoas, mas a sua missão de vida é realmente ter uma colónia em Marte. Ele vê a SpaceX como a maneira mais direta de estabelecer essa colónia. Então, em última análise, a SpaceX é o bebé dele e a empresa com que mais se preocupa.

L: Alguma vez esteve num lançamento da SpaceX? Em caso afirmativo, como foi?

AV: Sim, eu já estive num lançamento. É uma experiência incrível. À medida que o foguetão descola, sentimos uma onda de som que nos percorre. É tão inspirador ver o que os humanos podem realizar, especialmente quando sabemos o quão improvável é que a SpaceX tenha sucesso.

L: É verdade que a SpaceX e a Nasa convidaram os utilizadores das redes sociais a assistir aos lançamentos? Na sua opinião, qual era a finalidade?

AV: Regra geral, qualquer pessoa pode assistir a um lançamento de certos lugares da Califórnia e da Flórida. Os média têm permissão para se aproximar um pouco. A SpaceX investiu mais nas transmissões Web do que qualquer outra empresa e elas tornaram-se num grande sucesso no Twitter. Assistir a lançamentos voltou a ser uma coisa empolgante outra vez.

L: Como é o Elon Musk como chefe? É um bom líder que inspira todos à sua volta, ou é uma pessoa desagradável que intimida os outros?

AV: Ele é um chefe muito complicado. Sem dúvida, tem uma capacidade única de inspirar as pessoas para irem atrás de grandes missões. A razão pela qual a Tesla e a SpaceX são bem-sucedidas é porque o Elon construiu grandes exércitos de engenheiros e deu-lhes um propósito claro. Se tu és um engenheiro jovem e inteligente, é difícil encontrares uma pessoa melhor para trabalhar porque sabes que o Elon fará tudo o que estiver ao seu alcance para tornar a empresa um sucesso.
Por outro lado, ele exige muito tempo das pessoas e é muito duro com quem falha ou não cumpre os seus objetivos insanos. É um “shouter”.

L: Hoje em dia, qual será a sua próxima cruzada? Construir o Hyperloop, colonizar Marte, proteger a humanidade contra os perigos da Inteligência Artificial, ou nenhum desses é alcançável? 

AV: Ele deve passar a maior parte do tempo com a SpaceX e a Tesla. Como estas empresas tiveram êxito, as ambições do Elon acabaram por crescer cada vez mais. É difícil levar a sério o Hyperloop, a The Boring Company e a Neuralink. Temos a sensação de que o Elon está a tocar demasiados instrumentos ao mesmo tempo. Mas ele tem uma habilidade para provar que a sabedoria convencional está errada.

L: No final de contas, ele gostou do livro?

AV: Quando ele leu o livro pela primeira vez, disse que estava bem feito e muito verdadeiro. Com o passar do tempo, teve uma reação mais negativa. A imprensa tirou muitas histórias do livro sobre o facto de ser um chefe difícil, e ele não gosta de ver essas notícias. Ainda não há muito tempo ele me “deu na cabeça” no Twitter por causa disso. Mas acho que seria de prever.

L: Consideraria escrever um segundo livro sobre ele?

AV: Não, acho que o meu tempo a olhar para o Elon chegou ao fim. É um processo estranho passar três anos a pensar numa pessoa. Estou pronto para enfrentar alguns projetos novos.

L: Ainda está a escrever sobre Silicon Valley ou está focado noutra coisa agora?

AV: Sim, estou a pensar num livro sobre a história de Silicon Valley, mas para já não quero revelar pormenores…

L: Depois de passar todo este tempo e de ter acesso privilegiado ao Elon Musk, que lição retirou para fazer grandes coisas na sua própria vida?

AV: A maior lição foi priorizar as coisas da minha vida com mais clareza. O Elon está tão concentrado nas suas missões. Eu não quero mesmo viver como ele. Gosto de passar muito tempo com a minha família. Mas eu decidi fazer uma lista clara das coisas que quero alcançar, e tentei dizer não a muito mais coisas e livrar-me de muitas distrações.

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